Domingo, 3 de Setembro, 2006


Porque é que alguns estudos encontram efeitos enquanto outros não? A resposta para o quebra-cabeças é que a educação na sala de aula é o que os economistas chamam um “bem público”. Isto é, uma criança pode beneficiar de uma instrução do professor ao mesmo tempo que outra beneficia da mesma instrução. Se ambas ouvirem atentamente as lições, então ambas podem obter o capital humano que é providenciado pelo professor.

O problema na sala de aula real é que os estudantes nem sempre escutam atentamente as instruções do professor, e num ambiente de bem público deste tipo, quando uma criança perturba, ele reduz ou elimina a componente instrutiva daquele momento na aula para todas as outras crianças na sala. (Edward P. Lazear (2002), “Introduction” in Education in the Twenty-first Century. Stanford: Hoover Institution Press, pp. xxviii-xxviii)

Vamos lá então lançar um olhar sobre o texto que Maria de Fátima Bonifácio escreveu na Atlântico deste mês (pp. 16-18) sobre o estado actual da Universidade, começando pelos pontos de óbvia e acalorada concordância, a merecer salvas de palmas e foguetório:

a) É verdade que a “progressão na carreira” é actualmente feita com base em critérios quantitativos, no número de publicações, pouco parecendo interessar se não passam de repetições, com ligeiras variantes, da mesma prosa em diferentes revistas ou se são meras recensões críticas de 2 pp. em publicações com peer-review ou sem ele. O mesmo é válido para as publicações em revistas internacionais, que muitas vezes acontecem meramente porque se conheceu, algures, alguém que depois se sensibilizou para publicar um texto “muito interessante” que tínhamos na gaveta depois de duas publicações internas. Ou sejam o currículo “a metro” tornou-se regra.

b) É ainda verdade que alguns novos critérios como a participação em projectos colectivos e a coordenação de pseudo-cursos ou colóquios de qualidade relativa e em que circulam sempre os mesmos conferencistas, que se convidam mutuamente para as respectivas iniciativas, são critérios que deveriam ser relevantes não pela quantidade mas pelo relevo da iniciativa. Tendo participado em algumas dezenas de Congressos e Colóquios, de forma activa como comunicante ou apenas como assistente, entre a segunda metade dos anos 80 e a segunda metade dos anos 90, nos últimos tempos praticamente deixei de participar pois não estou muito interessado em ver o senhor Professor De Tal repetir pela enésima vez a sua teoria sobre um determinado acontecimento, figura histórica ou regime político, ou a senhora Drª Tal e Coiso apresentar uma comunicação com base num pré-rascunho de um capítulo de uma futura tese orientada pelo coordenador do colóquio em causa.

c) É verdade que a discussão séria do trabalho de cada investigador(a) é muito escassa e não é feita de forma aberta e descomprometida de quezílias pessoais. Basta ler as recensões nas revistas da especialidade ou assistir aos debates de algumas “mesas-redondas” para se perceber que se aplaudem os amigos, se ignoram os desconhecidos e se desancam os adversários com maior ou menor sinceridade intelectual. Já vi alunas de determinados docentes a elogiarem imenso um artigo do seu futuro orientador, qualificando-o de luminoso (e a crítica a isso valeu-me mais uma inimizade na lapela), assim como recensões brutalmente panegíricas sobre trabalhos menores de colegas de equipa de investigação, só porque isso é necessário a ambos, ao que recenseia porque junta um par de linhas ao currículo e ao recenseado porque vê o seu livro divulgado publicamente a uma luz muito favorável. Lá mais para diantes, por diversas razões, apresentarei exemplos variados desta prática.

d) É obviamente verdade que nos tempos que correm a História se tornou uma disciplina quase obsoleta, correndo o risco de perder o comboio das novidades teóricas pós-pós ou neo-neo e ser vista como um arcaísmo académico ou então descaracterizar-se completamente ao aderir a essas mesmas novidades. Há 20 anos assisti à moda da adesão às teorias de Foucault por tudo e por nada, muitas vezes com base em leituras erradas do seu pensamento, assim como à imposição da reprodução quase acrítica de ultrapassadíssimas teses sobre modelos de desenvolvimento económico ou de tipologias de regimes políticos. Em qualquer dos casos, a História fica asfixiada e é óbvio que os actuais tempos velozes são desfavoráveis a uma disciplina que, como a História, exige alguma maturação e reflexão na recolha, tratamento e interpretação da informação.

e) Por fim, é verdade que em termos internacionais a nossa História é quase irrelevante e surge como tema apenas em círculos académicos muito restritos, o mesmo se passando com outras disciplinas como a Sociologia ou a Antopologia. Mas isso deve-se ao paroquialismo académico local que ou exagera na retórica – fomos nós que começámos o fenómenos da globalização, a missionação e tudo o mais – ou se encerra sobre si mesma, raramente fazendo estudos comparativos que coloquem Portugal no seu contexto internacional, em cada momento. Porque em muitas teses académicas se procede a uma exposição volumosa de teorias exteriores ao nosso contexto, aplicando-as depois á força á realidade nacional ou, em alternativa, se descreve o contexto nacional sem fazer o devido estudo comparativo com fenómenos externos similares.

Mas se todas estes são aspectos que, explicita ou implicitamente, MFB aborda e com os quais eu concordo, não deixam de existir alguma razoáveis discordâncias quando à aplicabilidade da sua leitura. Nomeadamente:

a) Não é verdade que antes se progredisse apenas com base na “qualidade” da produção científica. Isso é um mito piedoso, mesmo se houve um período em que, depois dos desvarios ocorridos em parte dos anos 70 que colocaram na Universidade muitos docentes com base na filiação partidária e antes da mera repdoução da mediocridade institucionalizada quando o Ensino Superior “explodiu” nos anos 90 com centenas de instituições e milhentos cursos, pareceu que a Universidade podia atingir um nível apreciável de qualidade, em especial na área que melhor conheço, das “Letras” ou “Humanidades” ou das “Ciências Sociais e Humanas” conforme lhe queiramos chamar. Mas, mesmo nesse período, assisti nos tempos de aluno da licenciatura e mestrado a meteóricas ascensões em que a qualidade não era um critério vagamente relevante, substituída pela adesão a determinados grupos de pressão em luta pelo poder, nomeadamente na FCSH onde MFB leccionava, o que ela bem conhecerá.

b) A comparação entre o GIS/ICS com as Universidades não é a mais apropriada, pois uma era uma instituição virada para a investigação e aperfeiçoamento do trabalho dos investigadores, enquanto as Universidade o foram sendo cada vez mais para a docência e só em parte par a formação de novos investigadores ou outro tipo de profissionais. Acredito que muitas discussões – em pé de igualdade – fossem ideais para a vida universitária, mas essa nunca foi uma prática, mesmo em aulas da própria MFB, sempre muito formal e senhora do seu estatuto, não abrindo grandes espaços de diálogo, como em outro texto explicarei. A verdade é que raramente se estimula nos alunos universitários o espírito crítico, antes se trabalhando para a sua adesão às teses preferidas dos docentes do momento. Isso está errado? Pois, então penso que se perdeu a hipótese de lutar dentro das Universidades pela mudança. Lembro-me, a esse respeito, que na crise de 1986-87 que levou à criação dos malfadados Ramos de Formação Educacional que tornaram as Faculdades de “Letras” meros viveiros de futuros professores, ter pertencido a uma comissão de alunos que propôs a criação de vias de investigação alternativas aos mestrados na FCSH, um pouco à imagem do ICS e de essa proposta ter sido acolhida pelos representantes dos docentes com sorrisos e defesas intransigentes dos mestrados como únicos espaços de aprofundadamento da investigação. Não me lembro de, à data, MFB nos ter apoiado nessa iniciativa. Não estava naquela comissão, meio risível, de docentes e alunos que tratou do assunto, mas tinha lá representantes do seu “grupo” de então.

c) Actualmente, como antes, sempre imperou no recrutamento de novos docentes universitários ou de elementos para equipas de investigação, o critério da adesão a determinados grupos, definidos não só em termos de ideologia política, mas principalmente de práticas de clientelismo e defesa mútua à moda do velho modelo feudo-vassálico, em que os vassalos servem de peões na defesa dos suseranos, enquanto estes os protegem dos inimigos comuns e lhes concedem um “feudo” – normalmente uma renda magra nos primeiros tempos, resultante de artigos feitos para obras colectivas, de um projecto financiado por uma instituição pública ou de pequenos textos para revistas onde o suserano tem posição de destaque. Depois, com o bom desempenho nas tarefas úteis ao suserano, o vassalo vai subindo na hierarquia, sendo-lhe dadas novas tarefas de maior responsabilidade e rendimento, podendo culminar ou na docência universitária plena, na co-coordenação de projectos de financioamento mais generoso ou na elaboração de obras para editoras bem-pagantes. Não vamos iludir-nos, desde que conheço o mundo universitário – vão lá quase 25 anos – sempre foi assim e sempre será, principalmente na área das Humanidades e Ciências Sociais, área “pobre” em matéria de financiamentos e com muitos candidatos a poucos lugares de vassalos. Maria de Fátima Bonifácio sabe isso muito bem e, portanto, o estado da Universidade actual apenas prolonga algo que antes já existia.

d) Por fim, parece-me complicado conseguir no nosso meio académico os meios humanos qualificados suficientes para aferirem a efectiva “qualidade” dos currículos de cada dicente ou investigador, de tal modo o mundo académico se encontra eivado de clivagens entre instituições, departamentos e grupos. Não vamos tapar o sol com a peneira: temos a dupla de “obras” a disputar as almas em conjunto e cruzando-se com outros grupos cuja argamassa é o cartão partidário e a participação nas “jotas” das mais diversas cores. O recrutamento e avaliação dos investigadores e docentes deveria idealmente basear-se na “qualidade” das suas capacidades e trabalho, mas no fim e na realidade quotidiana não é isso que se passa. Isto para não falarmos na promoção descarada em certos círculos do meretrício intelectual (não entremos pelo físico…) como condição indispensável para se obter um lugar de sombra e sol. 

Mas esta prosa já vai longa, pelo que fico por aqui até à próximam investida.

Paulo Guinote