Terça-feira, 22 de Agosto, 2006


 

Chamem-me conservador, retrógrado, reaccionário, o que quiserem, mas quando um tipo olhava para uma capa destas, dava vontade de abrir para ver o resto.

Ainda hoje.

Paulo Guinote

De acordo com a imprensa de hoje, existem mais de 50.000 docentes sem colocação, entre QZP’s e contratados, o que não é nada de grande espanto.

A verdade é que, enquanto a natalidade ia diminuindo desde os anos 80 o que, de forma diferida, iria reflectir-se na população estudantil, os sucessivos governos foram autorizando a criação, no ensino privado, ou manutenção, no ensino público, de cursos vocacionados essencialmente para a docência e sem qualquer tipo de valor acrescido para o ingresso em qualquer outra parcela do mercado de trabalho.

Comprou-se algum apaziguamento social entre final dos anos 80 e final dos anos 90, graças ao alargamento das vagas no Ensino Superior que criaram ilusões sem fundamento, enquanto o efeito do excesso de futuros docentes não se reflectiu de forma dramática no aumento do desemprego qualificado.

Ou seja, devido às teorias de um acesso generalizado a um Ensino Superior nivelado por baixo, com médias de acesso escabrosas, e uma oferta de cursos baratos às dezenas e centenas, recusou-se um desenho do Ensino Superior mais adequado aos novos tempos e à nova estrutura da população activa das sociedades avançadas (ou semi-avançadas como a nossa). Isso era visto ou apresentado como uma limitação ao direito dos estudantes acederem ao Ensino Superior e uma cedência a critérios economicistas. Por outro lado, a massificação do acesso ás Universidades e outras instituições com esse nome permitiu dar uns saltos estatísticos em matéria de população com licenciatura.

Agora temos o refluxo da onda. Continuam a formar-se anualmente milhares de futuros docentes sem lugar na rede escolar, para além de nos esfregarem com o ratio de alunos/docente que em Portugal já se encontra numa boa média para os padrões europeus, assim como com os gastos do Ministério da Educação com pessoal, para justificar o fecho dos quadros, agravado com o prolongamento do período de actividade forçada dos docentes até aos 40 anos de serviço.

Mas a verdade é que tudo isso era previsível e podia ter sido objecto do devido planeamento e, mais do que planeamento, de implementação de políticas que tivessem prevenido o descalabro actual das expectativas de milhares de jovens positivamente enganados por governantes e responsáveis por cursos sem qualquer tipo de saída profissional adequada.

Paulo Guinote 

Anexo: artigos sobre o fenómeno conhecido por graduate over-education de Arnaud Chevalier sobre o Reino Unido, de Parvinder Kler sobre a Austrália e de Peter Dolton e Mary Silles sobre alguns dos aspectos que o determinam.