Estou agora a trabalhar as estatísticas sobre o sistema educativo e a rede escolar nas décadas de 30 a 50 do século XX, enquanto vou passando em revista a literatura e diversos testemunhos da própria época sobre a Educação na primeira fase do Estado Novo.

É curioso constatar as contradições que existem. Nos naos 30, ainda antes do lançamento do Plano dos Centenários, um mero projecto das construções necessárias para alargar a rede escolar é tomado como definitivo e o aparelho administrativo avança, em conjunto com as autoridades locais, no arranque das construções para desespero do presidente do Conselho de Ministros que afirma não existir dinheiro para tal. Contudo, com o tempo, lá vão avançando a pouco e pouco as construções e nos anos 50, apesar das insuficiências lá vai nascendo uma escolinha, quantas apenas com uma sala, em cada vilória, aldeia ou mesmo lugar do país.

Na historiografia sobre o período, em especial aquela historiografia que após o 25 de Abril bateu no peito e se afirmou de esquerda (Stephen Stoer, Filomena Mónica, Ana Benavente, mas muitos outros e outras), as críticas ao Estado Novo como um período obscurantista para a Educação e de desqualificação profissional da classe docente são recorrentes, repetidas e assumidas como verdades insofismáveis, mesmo se carentes de fundamentação factual, para além de discursos e opiniões recortadas a gosto. Para esta corrente de opinião, Salazar e os seus desqualificaram o ensino e, mais ou menos objectivamente, promoveram o analfabetismo como uma qualidade.

As estatísticas dizem o contrário, tanto quanto ao avanço da alfabetização, como da rede escolar, mas dados incómodos não são chamados à conversa.

Passado esse período em que o Estado, mesmo que fosse com intuitos de inculcação ideológica, achava que era sua função levar uma Escola a cada lugar de Portugal, vivemos o refluxo desse movimento, exactamente com base na lógica orçamental e economicista que se apontava a Salazar que justifica o encerramento de estabelecimentos de ensino e atacando os “privilégios” da classe docente.

Quem promove esse refluxo? Pois é, são políticos de “esquerda” a começar por Ministras que parecem ter tido até uns desvarios bem esquerdistas nesses famosos anos 70 em que todo o Estado Novo era negro. Agora fazem o que apontavam aos outros, com o apoio na sombra de alguns dos teorizadores – ou herdeiros directos das teorizações – que construíram o discurso negro sobre a lógica económica e política da política educativa salazarista.

Não deixa de ser curiosa esta forma como se dão piruetas mesmo sem levantar os pés do chão.

É verdade que a política educativa do Estado Novo tinha muitas limitações e deficiências, sendo socialmente selectiva e discriminatória para quem quisesse avançar na escolaridade. Mas, pelo menos, fazia por assegurar uma função básica do Estado sem atacar e ofender explicitamente a classe docente. Podia tratá-la como pobrezinha, mas pelo menos sabia apresentá-la como honrada.

Ao contrário de…

Paulo Guinote