Leio algumas prosas ou títulos de conferências sobre os perigos da preservação ou, como se escreve numa, o “destino incerto” da “Memória” de determinados acontecimentos, personalidades ou períodos da nossa História ou mesmo da História global.

É um tema fascinante, pois aborda a forma como a História (re)constrói o passado e, de acordo com uma teoria muito em voga, o faz normalmente na perspectiva dos vencedores. Nesse sentido a História é uma construção laboriosa feita por aqueles que, detendo o poder para o fazer, muitas vezes optam por, com um variável grau de consciência, a reescreverem a seu melhor gosto ou conveniência. Um pouco por todo o lado temos versões menos exuberantes ou caricatas do célebre apagamento de personalidades incómodas para Stalin em fotografias de cerimónias oficiais. Muitas vezes basta deixar cair no esquecimento certos nomes, certos depoimentos, certos testemunhos, menos “alinhados” com a “verdade oficial”.

Para mim, mais do que construtores de memórias, quem se dedica ou presta a esse esforço de reescrita da História de acordo com a perspectiva dos “vencedores” são constritores da Memória, porque a limitam, a recriam propositadamente de forma lacunar e parcial para servir interesses que não são os da mera curiosidade em conhecer o passado comum.

Ao contrário daquilo que é conhecido (e praticado), nem sempre de forma justa com uma conotação pejorativa, como “revisionismo”, ou seja, como uma revisão da interpretação de certos acontecimentos a uma nova luz, a constrição da memória implica apagamento de parte dela.

E, em alguma situações, essas estratégias conscientes de apagamento temem exactamente uma perspectiva diferente, que rapidamente apodam de revisionista, que procure desmascarar esse apagamento ou que pretenda devolver à História uma plenitude que por vezes lhe é negada.

Por isso, acho particularmente curioso que alguns dos mais preocupados militantes na preservação de certas memórias sejam exactamente aqueles que demoraram anos ou décadas a tentar moldar essa memória aos seus interesse particulares, mobilizando muitas vezes verdadeiras “brigadas de choque” para rapidamente construírem uma memória sobre certas partes do passado que mais não passa do que de uma constrição dessa memória, de uma sua versão mitigadas, esmigalhada e deglutida segundo agendas pessoais ou políticas particulares.

Claro que, e nisso a História é cruel e cínica, os “vencedores” de agora nem sempre são os vencedores absolutos e o tempo acaba por fazer o seu trabalho, expondo ao olhar colectivo o que não passou de um embuste ou artifício.

Foi isso que se passou com todas as hagiografias do passado, desde antes da doação de Constantino até depois da reescrita estalinista da História soviética. Só que a tentação é sempre demasiado forte e, a cada geração, a cada nova fase ou período da História, corresponde o seu lote de constritores da memória.

Cumpre-nos a todos nós, que gostamos de uma História plena e livre, evitarmos que certos apagamentos se tornem irreversíveis, que certos períodos de reescrita da História se prolonguem demasiado e tentarmos, sempre que possível, restituir à História tudo o que lhe pertence por direito.

Paulo Guinote