Terça-feira, 8 de Agosto, 2006


Eduardo Marçal Grilo foi um dos poucos Ministros da Educação preparado para a função e com algumas ideias claras nos últimos 30 anos. Infelizmente, apensaram-lhe uma secretária de Estado aparelho socialista, convertida ao eduquês e pedagogês de fraca qualidade, e como se sabe o equilíbrio e a coexistência foram instáveis e o balanço final muito ambíguo.

Mas… isso não impede que o homem saiba do que fala quando fala de Educação. Como contraponto ao que temos, vê-lo hoje na SIC-Notícias é quase um bálsamo, mesmo quando não se concorda com tudo. Até o Mário Crespo que por vezes tende a atropelar os entrevistados da noite, se manteve cordato e ouvinte.

Depois da fase em que Marçal Grilo fez a apresentação, ou a defesa possível, suavizada e com as arestas polidas da actual política educativa, sendo interessante ver como se demarcou, através da redefinição, de alguns dos aspectos da política da presente Ministra, passou a apresentar as suas ideias em duas fases,

Numa primeira fase falou daquilo que o moveu enquanto Ministro, ou seja, o chamado Regime de Autonomia das Escolas que esteve na origem da redução dos organismos intermédios do Ministério e do seu emagrecimento como estrutura tentacular. Para ele, as Escolas devem ter a autonomia suficiente para agirem e desenvolverem as suas estratégias e projectos, desde que dotadas de uma liderança forte. É uma ideia boa, pelo menos na teoria, mas que muitas vezes desemboca em casos de gritante autoritarismo. Outra ideia só parcialmente positiva é a de reduzir os sindicatos á sua função meramente sindical. Para um céptico da actual qualidade e utilidade do sindicalismo docente, esta é uma ideia que não é desagradável mas que não me faz esquecer que, dessa forma e no estado em que estamos, os professores e as Escolas passariam a estar indefesas perante o Ministério, sem qualquer organização que possa mediar as situações que impliquem negociações.

Atomizadas na sua singularidade, cada Escola é mais facilmente manobrável e pressionável, assim como os professores não têm qualquer organismo, como as Ordens, para defender os seus interesses que não sejam meramente das condições laborais.

Numa segunda fase Marçal Grilo sistematizou aquilo que considera que deveriam ser as grandes prioridades na área da Educação: a) o aprofundamento da autonomia das Escolas; b) a possibilidade das escolas seleccionarem os seus corpos docentes; c) uma aposta forte no ensino da Língua Portuguesa e da Matemática na escolaridade básica e principalmente nos dois primeiros ciclos do Ensino Básico.

A primeira ideia,  da autonomia, já vimos que pode ser boa ou má, conforme a utilização que dela seja feita. A segunda ideia, muito popular nos países do norte da Europa, entre nós conduziria a muito breve prazo a práticas clientelares e abusos de declarado nepotismo que nem um sistema nacional de colocações ainda conseguiu erradicar por completo. Infelizmente, essa é a realidade e velhos hábitos não morrem. Por fim, o reforço do nível de exigência no ensino e aprendizagem das competências consideradas nucleares, tendo Marçal Grilo sublinhado a necessidade de maior exigência na formação científica dos professores e o carácter essencial da aquisição de rotinas e automatismos (decorar a tabuada, memorizar mecanismos rápidos de leitura) pelos alunos no processo de aprendizagem, que muitas pedagogias criticam, são considerações que como ele bem destacou derivam do mero bom-senso e do equilíbrio.

Infelizmente o bom senso e equilíbrio que tem faltado em grande parte destas décadas e que, como nos lembraremos, o quisto da Secretaria de Estado da Inovação benaventista torpedeou com as suas noções requentadas de facilitismo e de crítica ao que se apresentavam como modelos pedagógicos e didácticos excessivamente directivos e como tal vistos como inadequados.

Em especial pela forma como recolocou na ordem do dia a necessidade de rigor e exigência no processo de ensino e aprendizagem e o carácter indispensável de uma formação rigorosa dos docentes na área dos respectivos saberes científicos, já esta meia hora alargada de conversa valeu mais do que todas as vagas e cozinhadas declarações da actual Ministra.

É que quando quem fala, percebe daquilo que está a falar e o explica de forma articulada, com argumentos e exemplos apropriados, é toda uma outra coisa, concordemos ou não com as opiniões.

Paulo Guinote

Leio algumas prosas ou títulos de conferências sobre os perigos da preservação ou, como se escreve numa, o “destino incerto” da “Memória” de determinados acontecimentos, personalidades ou períodos da nossa História ou mesmo da História global.

É um tema fascinante, pois aborda a forma como a História (re)constrói o passado e, de acordo com uma teoria muito em voga, o faz normalmente na perspectiva dos vencedores. Nesse sentido a História é uma construção laboriosa feita por aqueles que, detendo o poder para o fazer, muitas vezes optam por, com um variável grau de consciência, a reescreverem a seu melhor gosto ou conveniência. Um pouco por todo o lado temos versões menos exuberantes ou caricatas do célebre apagamento de personalidades incómodas para Stalin em fotografias de cerimónias oficiais. Muitas vezes basta deixar cair no esquecimento certos nomes, certos depoimentos, certos testemunhos, menos “alinhados” com a “verdade oficial”.

Para mim, mais do que construtores de memórias, quem se dedica ou presta a esse esforço de reescrita da História de acordo com a perspectiva dos “vencedores” são constritores da Memória, porque a limitam, a recriam propositadamente de forma lacunar e parcial para servir interesses que não são os da mera curiosidade em conhecer o passado comum.

Ao contrário daquilo que é conhecido (e praticado), nem sempre de forma justa com uma conotação pejorativa, como “revisionismo”, ou seja, como uma revisão da interpretação de certos acontecimentos a uma nova luz, a constrição da memória implica apagamento de parte dela.

E, em alguma situações, essas estratégias conscientes de apagamento temem exactamente uma perspectiva diferente, que rapidamente apodam de revisionista, que procure desmascarar esse apagamento ou que pretenda devolver à História uma plenitude que por vezes lhe é negada.

Por isso, acho particularmente curioso que alguns dos mais preocupados militantes na preservação de certas memórias sejam exactamente aqueles que demoraram anos ou décadas a tentar moldar essa memória aos seus interesse particulares, mobilizando muitas vezes verdadeiras “brigadas de choque” para rapidamente construírem uma memória sobre certas partes do passado que mais não passa do que de uma constrição dessa memória, de uma sua versão mitigadas, esmigalhada e deglutida segundo agendas pessoais ou políticas particulares.

Claro que, e nisso a História é cruel e cínica, os “vencedores” de agora nem sempre são os vencedores absolutos e o tempo acaba por fazer o seu trabalho, expondo ao olhar colectivo o que não passou de um embuste ou artifício.

Foi isso que se passou com todas as hagiografias do passado, desde antes da doação de Constantino até depois da reescrita estalinista da História soviética. Só que a tentação é sempre demasiado forte e, a cada geração, a cada nova fase ou período da História, corresponde o seu lote de constritores da memória.

Cumpre-nos a todos nós, que gostamos de uma História plena e livre, evitarmos que certos apagamentos se tornem irreversíveis, que certos períodos de reescrita da História se prolonguem demasiado e tentarmos, sempre que possível, restituir à História tudo o que lhe pertence por direito.

Paulo Guinote