O erro da aceitação acrítica de normas uniformizadoras para os cursos do Ensino Superior está na forma como algumas licenciaturas que se podem considerar “clássicas” ou tradicionais, com um certo peso académico, mesmo se com o seu período áureo já no passado, se deixam transformar numa espécie de cursos avançados para alunos liceais.

Para o demonstrar nada como o caso da licenciatura em História, na casa onde eu a frequentei, que de decadência em decadência se deixou tornar numa anedota que só na aparência mantém algum tipo de coerência.

Com apenas seis semestres e a necessidade de cumprir 150 créditos na própria área, a ementa disciplinar do plano de estudos pode dar uma sensação de completude, mas a verdade é que as condições concretas de funcionamento tornam a coisa perfeitamente ridícula, com as disciplinas semestrais – que na prática são pouco mais do que trimestrais – a inviabilizarem qualquer possibilidade de aprofundamento dos conhecimentos ou de desenvolvimento de técnicas de pesquisa em trabalhos de investigação “à séria”.

O problema não é novo, há um par de anos já tinha bisbilhotado o estado da situação e bastava olhar para as bibliografias essenciais para se perceber que, numa de aligeirar as dificuldades, se faziam anos da licenciatura com a leitura de um par de livros. Então a História Contemporânea, era agarrar na Idade dos Extremos dos Hobsbawm e nas duas teses do Rosas e tinha-se garantida uma nota bem boazinha para acesso ao mestrado e tudo.

Agora ainda é pior porque apesar de se afirmar que um “núcleo duro” de disciplinas é obrigatório, isso apenas significa que os 3 anos se passarão de forma rápida numa introdução ao estudo da História. Aliás, a rendição completa do espírito académico aos lugares-comuns do pedagogês actual leva a uma série de indescrítiveis objectivos e competências do curso que, em boa verdade, mal se distinguem do que se poderá pedir a alunos do 3º ou 2º ciclo do Ensino Básico. Vou só isolar duas ou três para que se perceba sobre o que escrevo. Olhem lá a primeira:

«1. Ter uma visão crítica do passado humano, bem como a compreensão de que aquele condiciona o presente e o futuro, assim como a nossa percepção de ambos.»

A primeira já é particularmente entusiasmante, mas olhem lá para a quarta:

«4. Conhecer os diferentes períodos da História de Portugal.»

Caramba que isto é coisa só acessível a génios. E que dizer então da sétima, quase decalcada de qualquer documento de competências do 2º ciclo:

«7. Saber identificar, seleccionar e recolher, de acordo com as regras da disciplina, fontes e elementos diversificados de informação (bibliografia, documentos, testemunhos orais, iconográficos e outros) e utilizá-los com sentido crítico.»

Mas para finalizar temos a nona competência (ou objectivo?) que nos faz perceber como entre um jovem de 12 ou 15 e um adulto de 22, o grau de exigência parece pouco diferir, sendo o palavreado quase o mesmo:

«9. Ter capacidade para apresentar escrita e oralmente os conhecimentos adquiridos utilizando a terminologia própria da História e revelando capacidade argumentativa.»

Caramba, se para obter uma licenciatura basta desenvolver este tipo de capacidade, mais vale enterrarmos a cabeça na areia ou mergulharmos num banho de alcatrão e penas. Não vale a pena gastar 3 anos nisto. Claro que a ideia é empurrar a malta para as especializações, pós-graduações e mestrados em que as propinas já são mais altinhas e ajudam a pagar as contas das instituições de Ensino Superior, mas desta vez é que ficamos com a grande maioria dos alunos universitários a serem formados em “nada” e com canudos perfeitamente inúteis, a menos que tenham já previamente definido onde se encaixar ou se tiverem o bom senso de se inscrever numa “jota”; isto com destaque para as Ciências Sociais e Humanas, sempre carentes de uma dignidade científica “pura” e da eventual utilidade do seu papel como muleta justificativa de certos discursos político-ideológicos do momento.

O último retoque de cinismo em toda esta simulação de realidade é afirmar que as saídas profissionais dum ameaço de curso destes passam por “Administração central e local, Património, museologia, turismo cultural
Gestão da informação, Comunicação social, Área editorial, Ensino, Investigação», quando para tudo isso são necessários outros conhecimentos ou “conhecimentos”.

E ainda pensavam há 30 anos, quando reduziram estes cursos de 5 para 4 anos que não era possível fazer pior. Isto agora não passam de bacharelatos mal-amanhados, como aqueles que há 15 anos lutavam por ter 4 anos e passarem a licenciaturas. Nos tempos que correm já é a carroça que puxa os bois para trás.

Paulo Guinote