Quarta-feira, 2 de Agosto, 2006


Eu tenho todo o gosto em ser de História por (de)formação académica e gosto muito de ler História, incluindo aí a boa ficção histórica.

Nem por acaso o Ivanhoe de Walter Scott foi um dos primeiros livros que compraram já lá vão mais de 30 anos, o que se nota pelo ar sebento da capa do exemplar que ainda tenho, publicado pelo Círculo de Leitores.

É verdade, também, que O Nome da Rosa é uma excelente obra que ainda para mais saiu estava eu quase a dar os primeiros passos na minha licenciatura na dita matéria. Sou até capaz de recomendar a leitura de As Cruzadas vistas pelos Árabes do Amin Malouf, toda a série Roma Sub-Rosa do Steven Saylor e mais uma meia dúzia de outras obras que acho muito boas, não incluindo nelas outras que já li ou ando a tentar ler com flagrante insucesso para o meu gosto.

Também é evidente que quase toda a gente gosta, por muito que diga que não, de História e, quando não teve oportunidade ou optou por não estudar a dita, não deixa de gostar de comprar e ler o seu belo livro de trama histórica, se possível com a mistura que acha certa de intriga e erudição. O sucesso de O Código Da Vinci passa um pouco por aí, com todo o aparato das suas referências históricas a darem aparente credibilidade às suas conjecturas.

Agora o que me irrita é que todo o bicho careta tenha decidido que dá para escrever o seu romance histórico e, um pouco por todo o lado, só se veja nos escaparates livros passados nos séculos tal e tal com títulos a puxar ao “mistério”, ao “manuscrito”, à “equação” ou biografias mais ou menos romanceadas de tudo o que foi personagem história malandreca ou enigmática (cfr. Juliette Benzoni, entre outras).

Entre nós, e deixando para trás o continuado labor do João Aguiar nesta matéria, muitas vezes com resultados fracotes, o sucesso do Equador (que classificaria de 7 a 7,5/10) do Miguel Sousa Tavares parece ter dado o tiro de partida para todo o povo desatar a escrever sobre tudo e mais alguma coisa, desde apresentadores de telejornais a maníacos de teorias da conspiração. As editoras estão de mãos abertas à espera do próximo inesperado sucesso de vendas, embrulham a coisa numas capas apelativas e nuns dizeres a puxar ao enigmático e vai de colocar na prateleira da grande superfície.

E a verdade é que, como de costume, a quantidade nem sempre tem algo a ver com a qualidade e, não há que ter medo de o dizer, que grande porcarias andam por aí.

Mais detalhes e umas críticas a propósito em ocasiões futuras.

Paulo Guinote

De acordo com notícia do Público, mas cujo conteúdo já era conhecido desde o início da semana, o Provedor de Justiça declara ser ilegal o despacho que mandou repetir os exames de Química e Física, assim beneficiando uns (os que os podem repetir) em detrimento de outros (os que não os podem fazer de novo e melhorar a nota).

Perante a situação criada o Provedor aconselha um alargamento nas vagas disponíveis no Ensino Superior nas áreas em causa, para que todos possam entrar.

Ora bem, isto faz-me lembrar aquela decisão do futebol português em que, para uns não descerem de divisão, se aumentou o número de equipas no campeonato de 16 para 18.

No habitual nacional-porreirismo, perante uma asneira grossa, que não há coragem em desfazer, arranja-se outra asneira adicional para resolver a situação e ninguém ter razão de queixa.

Mas expliquem-me lá uma coisa: como é que definem quantas vagas adicionais são criadas? Que critérios presidirão a esse aumento? Como se define a fronteira daquele que não entra? Mandam-se entrar os que deviam entrar pelos exames realizados e dá-se um bónus aos que agora tiveram mais umas semanas para se prepararem?

E isso é minimamente coerente com qualquer noção de rigor no acesso ao Ensino Superior?

Claro que isto só é possível e o despacho só aconteceu porque ficou em causa o acesso a alguns cursos de “topo”, em que ainda não entram todos os que querem e em que as médias de acesso ainda contam, como é o caso da Medicina.

Tivesse acontecido isto – como aconteceu – no exame de História ou de outra disciplina essencial para o acesso a um dos milhentos cursos com vagas por preencher e já nada disto teria acontecido, porque haveria sempre lugar no “autocarro” para todos.

Como no caso destas duas disciplinas se toca em áreas mais sensíveis e as “baixas” devem ter atingido alguns incautos inesperados, então faz-se esta belíssima rebaldaria.

E depois é este Ministério que tem credibilidade para erguer um sistema de avaliação dos docentes? E quando as quotas de acesso a professores titulares não chegarem para alimentar algumas clientelas fiéis em certos agrupamentos? O que se faz? Também se arranjam “alargamentos” ad hoc?

Com esta equipa ministerial e a sua lógica de ziguezague oruglhoso é o mais certo.

E para finalizar, quem avalia o(s) autor(es) do diploma ilegal? E que consequências para a sua progressão carreirista?

Paulo Guinote