Quando se procede à análise dos dados sobre as origens e evolução do atraso educativo português contemporâneo, muito em especial no que se refere às taxas de alfabetização ou analfabetismo, existe uma certa tendência, algo natural, para o acomodamento a alguns lugares-comuns aparentemente óbvios e, também na aparência, com algum potencial explicativo ou, no mínimo, descritivo da realidade portuguesa. Antes de mais, que a situação portuguesa foi de progressivo atraso, pelos padrões internacionais, ao longo de todo o século XIX; em seguida, que esse atraso sendo de carácter nacional, teria sido menos grave em alguns zonas do país, nomeadamente na faixa litoral e nos maiores centros urbanos, no que seria apenas mais uma faceta das crescentes clivagens campo/cidade e Litoral/Interior e, por fim, que a causa desse atraso terá sido provocada pela incapacidade do Estado (voluntariamente ou não) criar as infra-estruturas necessárias e indispensáveis à superação da situação existente.É minha convicção que este conjunto de ideias assentam, nos seus traços gerais, em alguns pressupostos que só em parte são verdadeiros ou, pelo menos, nem sempre são confirmados pelos dados de que dispomos o efeito. Quando se analisam os dados tratados por Rui Ramos sobre a alfabetização e o analfabetismo, com uma base concelhia, o que se verifica é algo diferente: no caso masculino a alfabetização é de muito maior no noroeste atlântico, estendendo-se muito mais para o interior transmontano do que para sul do Mondego, onde apenas em torno de Lisboa e em algumas áreas do interior alentejano se atingem níveis razoáveis de alfabetização entre 1878 e 1890. Não é por acaso que esse é o mapa da maior implantação da rede escolar. No caso feminino é algo inversa, sendo mais elevada no sul do país e na região duriense, mas muito baixa em todo o centro do país, Minho e nos concelhos mais meridionais do Alentejo.A causa da aparente disparidade entre o que se pode designar como “sabedoria convencional”, corrente, e a efectiva realidade deve-se, em grande medida, ao facto de muitas análises produzidas se concentrarem/deterem ou num plano demasiado amplo (análise das taxas distritais de avanço da alfabetização e comparação internacional da taxa global do nosso país) ou demasiado restrito (micro-análises ao nível de uma, ou um só tipo, de unidade de estudo).Penso que seria, se não mais útil ou frutuoso, pelo menos um pouco esclarecedor tentarmos analisar estes fenómenos segundo um prisma um pouco diferente, procurando detectar como se desenvolveram pelo país as diversas dinâmicas que caracterizaram este processo.Como hipótese de trabalho, parte-se da ideia que as explicações existentes, por serem demasiados simplistas e assentarem em oposições/clivagens esquemáticas, nos fazem perder de vista a complexidade e os matizes que caracterizaram o problema educativo nacional. Significa isto que se deve procurar verificar se foram efectivas as oposições interior/litoral e rural/urbano; em caso afirmativo, determinar em que aspectos se fizeram sentir com maior ou menor intensidade (progresso da alfabetização, expansão da rede escolar em números absolutos e relativos, afluência de alunos); em caso negativo, procurar detectar se existem elementos suficientes para propor outro tipo de modelos explicativo para o que se passou.

(em estado de continuação…)