Apesar de se afirmar como um projecto político, a Educação nunca conseguiu gerar um verdadeiro consenso na elite política portuguesa quanto à melhor forma de a desenvolver, em virtude das suas evidentes consequências no próprio plano político. Para além do contributo, desejado, para o desenvolvimento económico, a elevação do nível educativo da generalidade da população seria vista, desde cedo, como a única via possível para garantir os plenos direitos de cidadania aos indivíduos. Ora, neste aspecto particular, essas consequências não são encaradas por todos os quadrantes como positivas e vai-se travar uma batalha entre os que não receiam a incorporação das massas populares na vida política activa e uma tendência para a universalização (masculina, entenda-se) do sufrágio e aqueles que temem que, mesmo educadas, essas massas constituam uma ameaça à estabilidade do poder estabelecido se, de súbito, puderem interferir no processo político por via do sufrágio.

A democratização do ensino implicava, a curto ou médio prazo, uma gradual abertura e/ou democratização da vida política e essa é uma consequência que muitos (mesmo os que repetidamente invocavam o atraso educativo como causa primeira da decadência da Nação) não encaram de ânimo leve, fossem eles conservadores temerosos de uma indesejada novidade ou progressistas receosos da manipulação dos novos eleitores, escolarizados mas não esclarecidos, por parte dos caciques locais.Assim se vai formando uma coligação de interesses, nacionais e locais, que conseguirá opor-se à paixão de alguns e entravar um avanço mais rápido da alfabetização da população, tanto pela inércia como pela sistemática subdotação financeira para a implementação das ambiciosas reformas educativas.  

«Há a questão da despeza. Eu direi, que assim como se votam despezas de uma ordem material, assim como se criam tributos para as satisfazer, muito mais os deve haver para a instrucção publica; eu digo que se devem crear ou augmentar os tributos para satisfazer ás despezas do ensino primario; se queremos educar os nossos filhos, é preciso não nos recusarmos a algum encargo.»[1]

Não esqueçamos ainda que, a aos condicionalismos do lado da oferta, se deve ainda acrescentar a fragilidade da procura educativa na maior parte do país, facilmente explicável por uma ausência de políticas que incentivassem as famílias a investir da educação dos seus descendentes, demonstrando as suas vantagens. Sem estímulos adicionais, o peso da inércia e da tradição conduzia com naturalidade à perpetuação de práticas ancestrais em que a Escola não tinha um lugar de relevo e a Educação não era vista como um activo/investimento a prazo, mas apenas como um passivo imediato sem retorno previsível. Com este cenário, dificilmente seria possível inverter uma situação de crescente afastamento das médias europeias de escolarização, alfabetização ou literacia. Apenas demonstrando as vantagens (e não apenas as materiais) da obtenção de níveis educativos mínimos seria possível fazer acelerar o ritmo dos ganhos.


[1] Intervenção do deputado Tavares de Macedo na Câmara dos Deputados, Diário da Câmara dos Senhores Deputados, 12/Abr/1854, p. 155.