Um aspecto curioso da evolução das equipas ministeriais nos últimos 20 anos, e em especial do(a) Ministro(a) da Educação dos diversos governos é que, por regra, cada nova maioria começa com fôlego e com uma personalidade destacada e preparada para ocupar a pasta em causa.

Foi assim com Cavaco Silva e Roberto Carneiro, só tendo vindo depois os Coutos dos Santos e os Diamantinos Durões.

Foi assim com Guterres e Marçal Grilo, apesar de ter apensa a nefasta Benavente numa Secretaria de Estado onde fez muitos danos.

Foi assim com Durão Barroso e David Justino, só tendo surgido depois com Santana Lopes aquele senhora que respondia pelo nome de Maria do Carmo Seabra e da matéria não percebia nada, só lhe valia ser parente chegada daqueloutro Seabra, padre de influência.

Não foi assim com José Sócrates que trouxe para o Ministério da Educação alguém com um currículo curtíssimo (nulo?) em matéria de investigação ou estudo na área da Educação, mostrando apenas uma certa especialização para estudar a profissão de engenheiro e para ocupar cargos na instituição universitária a que pertence. Sejamos francos: o currículo de Maria de Lurdes Rodrigues é uma coisa muito, muito fraquinha para explicar a suia escolha.

Roberto Carneiro, Marçal Grilo e David Justino eram e são pessoas ligadas ao sector, que o estudaram, que sobre ele tinham e têm opiniões fortes e fundamentadas, gostemos ou não delas.

À actual Ministra não se conhece qualquer tipo de pensamento, de teoria, de ideias sobre o sistema educativo. Isso não seria necessariamente mau, se ela pelo menos revelasse sensibilidade para este tipo de matérias. Mas, como boa socióloga do trabalho, e logo especializada em engenheiros, o que ela tem são ideias muito gerais e livrescas sobre “organizações” e a partir daí debita uma cartilha algo desfasada da realidade sobre o sector da Educação.

Podemos perguntar-nos: porque terá o engenheiro Sócrates com uma maioria parlamentar monocolor não arranjou melhor, alguém com maior currículo e peso político na área? Não sei se não terá sido propositado. Tanto porque não quis ninguém que sobressaísse pela sua personalidade, como porque quis alguém apenas para cortar as despesas no sector, com vagas justificações quanto à eficácia do funcionamento “organizacional” das escolas.

E, pelo seu próprio desconhecimento do que são os males verdadeiros do sistema educativo, a actual Ministra seguiu em frente de acordo com as ordens recebidas, de baias postas e tentando levar tudo à frente, com o apoio tácito de micro grupúsculos artificialmente mantidos, como a Confap e uma dezena de micro-sindicatos cujo financiamento seria interessante descobrir.

E quem se lixa no meio disto tudo? Não são só os professores, aqueles que no curto prazo são os principais visados. A médio e longo prazo será, de novo, todo o sistema que, mesmo que esta sacudidela tenha alguns efeitos estatísticos no abaixamento do insucesso escolar, será obrigado a confrontar-se com o insucesso efectivo e a iliteracia funcional da maior parte da população escolar criada neste clima de intimidação e pressão sobre a classe docente.

Paulo Guinote