«À medida que relutantemente começam a conformar-se com a exigência de que a sua criança deve não apenas entrar na sala de aula mas permanecer lá durante anos, os pais têm uma crescente  garantia de que ela irá ganhar a instrução básica da literacia que no passado estavam por vezes disponíveis para adquirir de outros fornecedores. E, pelo menos, as crianças mais capazes agora têm a perspectiva que as suas aulas podem fornecer-lhes o tipo de desenvolvimento imaginativo e de descoberta que antes apenas estavas disponíveis quando ouviam os contadores de histórias da família ou faziam jogos aventurosos nas ruas locais e nos campos.» (David Vincent (2004), The Rise of Mass Literacy, p. 56)

Em Portugal, depois de um longo período em que a Igreja assumiu o principal papel na instrução das almas, sendo que essa instrução deveria permanecer limitada em diversos aspectos, o Estado arrogou-se da função de levar a instrução pública ao maior número possível de indivíduos, no sentido e na crença de que esse seria o melhor método para os tornar cidadãos conscientes e activos.

Depois dos esboços pombalinos, foi o Estado Liberal que, em especial a partir da segunda metade do século XIX, tentou expandir uma rede escolar pública que levasse estabelecimentos de ensino aos locais mais remotos onde eles se revelassem necessários. A República afirmou que esse esforço tinha sido insuficiente e que muito haveria mais a fazer, insistindo na fundação de novas escolas quase tanto como na retórica. Apesar de um discurso de sentido aparentemente contrário, o Estado Novo prosseguiu essa tendência de levar uma Escola Primária a cada aldeia de Portugal.

Quando foi conquistada a Democracia, pouco espaços ainda não eram cobertos por uma rede escolar primária e a democratização da Educação exigiu que as carências existentes fossem supridas. Todos estes regimes procuraram que a acção do Estado chegasse às famílias e substituísse parte do seu papel tradicional na educação dos seus filhos e filhas, por vezes contra a própria vontade.

Actualmente sofremos um movimento inverso de refluxo, em que o Estado recua, fechando os postos avançados da sua acção educativa, ao mesmo tempo que afirma a necessidade de melhorar o desempenho de todo o sistema. Paradoxos que o são só na aparência. Porque o que o Estado enquanto Grande Educador está a fazer é apenas, depois de ter inculcado a necessidade educativa nas prioridades da população, exigir que os cidadãos se sacrifiquem por desfrutar daquilo que agora é apresentado não como uma missão essencial do Estado, mas como uma obrigação desses mesmos cidadãos, com custos acrescidos.

Será todo este processo, com os seus avanços e momentâneos recusos, de expansão e retracção do Estado, Grande Educador, que procurarei analisar de forma algo sumária.

Paulo G.