Segunda-feira, 12 de Dezembro, 2005


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não esqueçamos que estes equívocos têm um efeito de cascata. Um aspecto grave do clima beatífico de compreensão e laxismo na avaliação do desempenho dos alunos tem sido a sua transferência para a formação dos próprios futuros professores. Aqueles que hoje são alunos dos nossos “Cientistas da Educação”, e serão futuramente professores e para isso deveriam estar a ser convenientemente formados, são eles próprios objecto da aplicação destas teorias de desculpabilização generalizada e só a custo do seu brio pessoal e profissional conseguem, em alguns casos, ultrapassar esta teia. A teoria da reprodução de Bourdieu e Passeron anda por aqui, embora aplicada numa versão “mutante?, bem como a ideia de que a Escola é um “aparelho ideológico do Estado? (Althusser) também não está longe, só que agora ao serviço de outros senhores e de outros ideais.

Mas o efeito mais pernicioso deste ambiente de irresponsabilidade na Educação é certamente o seu alastramento à área disciplinar, alargando a compreensão pelo incumprimento das obrigações escolares dos alunos às próprias normas de conduta em comunidade. A partir do momento em que esta visão prevalecer, para além de não ser necessário desenvolver um esforço mínimo para obter sucesso não será igualmente necessário sequer respeitar o próximo.

“(…) é preciso dizer que, entre nós, a autoridade do professor, dentro e fora da aula, foi sistematicamente minada por decisões de sucessivos governos durante as últimas décadas. E recebeu com este regulamento [disciplinar] mais um golpe profundo. De acordo com a doutrina que o instituiu e que hoje é dominante na Educação, a indisciplina resolve-se pela mesma via que se procura «resolver» o insucesso escolar: baixando os níveis de exigência, camuflando os resultados, encobrindo o que está mal, varrendo os problemas para debaixo do tapete.? (Fernando Madrinha, Expresso, 5 de Fevereiro de 2000, pg 2)
 
O erro estará sempre, certamente, do lado do professor. Se a criança não se interessa pelo estudo, se adopta comportamento perturbadores, se demonstra atitudes de insubordinação constante, se agride verbal ou fisicamente colegas ou professores, o mal está sempre do outro lado – em quem lhe procura exigir um mínimo de trabalho e correcção. É certo que devem ser procuradas as causas desses comportamentos mas não parece correcto transferir as culpas para os professores. Entre outros problemas, isso apenas serve para agravar o sentimento de vulnerabilidade e insegurança pessoal dos docentes e a desagregação do pouco prestígio social que resta lhe resta enquanto classe.
 
“Nos tempos que correm, um professor sabe que, por muito alta que seja a sua qualificação profissional, por muito inatacável que seja a sua conduta, poderá acabar por ser culpabilizado pelos pais dos alunos e pelas autoridades académicas. Executa um trabalho difícil e necessário, fundamental mesmo, mas mal pago, mal considerado, que o esgota fisicamente e não lhe traz, na maior parte das vezes, qualquer compensação, agradecimento – ou sequer respeito.? (António Muñoz Molina, Visão, 17 a 23 de Fevereiro de 2000, 114)

O resultado desta pretensa democratização do sistema de ensino público será, a médio prazo, o inverso do que se diz pretender porque os pais que se preocuparem verdadeiramente com a qualidade da Educação dos seus filhos, e tiverem meios para isso, fugirão para as escolas de elite, acentuando clivagens que mais tarde se revelam, inapelavelmente, no acesso ao mercado de trabalho.

Não sei se somos filhos, netos ou sobrinhos de Rousseau; o que sei é que somos enteados dos anos 60 e de um espírito requentado de contestação libertária e igualitária (o celebrado “proibido proibir? de Maio de 68, já com mais de três décadas e a necessitar de revisão para os mais nostálgicos da sua adolescência) contra qualquer forma de disciplina e autoridade que já teve o seu tempo mas que, infelizmente, tem poiso na 5 de Outubro onde se tem vindo a enquistar com tenacidade. E, a propósito da influência do espírito de Rousseau na Educação, o mínimo que se pode dizer é que Rousseau era certamente boa pessoa e tinha boas intenções, mas dificilmente teria ideia do que seria uma escola dos subúrbios de uma grande urbe da sociedade industrializada do século XXI.

Alguém terá levado muito a sério, há quase um quarto de século, uma certa canção dos Pink Floyd. Afinal, o melhor é os professores deixarem os alunos em paz.

  

Referências

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Paulo Guinote (Fevereiro de 2000, mas ainda aqui tão perto)