O equívoco desta elite bem-pensante e orgulhosamente herdeira dos ideais utópicos do Iluminismo, na sua vertente mais irrealista, baseia-se na ideia de que todos os indivíduos têm capacidades inatas idênticas e que, perante situações semelhantes, conseguem obter resultados, no mínimo, aproximados. Como não será necessário repetir com muita insistência, esta é a ideia base de todos os totalitarismos igualitários que defendem a construção de uma massa de indivíduos de identidade descaracterizada a que alguns chamam, com orgulho, um “homem novo?.

“Do ideal liberal da igualdade perante a lei – um dos pilares do Estado de direito – e da máxima daí inferível de condições de competitividade justas, ou seja, iguais para todos partiu-se para uma totalização da igualdade de resultados dessa competitividade, em seguida para a igualdade de condições de vida e finalmente para o ideal, eu diria antes, para a utopia de um destino o mais possível igual. Como pano de fundo encontra-se muito arreigada a concepção do homem apenas como espécie.? (Popper em Popper e Lorenz 1990, 95) 

Não sei, contudo, se esta inclinação para a eliminação das especificidades individuais diferenciadoras é consciente ou explícita em boa parte dos nossos actuais cientistas da educação. Talvez o que muitos pretendam seja apenas dar um aval “científico? a uma estratégia política, fácil, de obtenção de sucesso educativo estatístico “para europeu ver? nos anuários da especialidade. E esta estratégia caracteriza-se pela admissão, apenas implícita, da incapacidade de possibilitar uma efectiva “igualdade de oportunidades? para todas as crianças que entram no sistema educativo.

“A escola não poderá, só por si, assumir a responsabilidade total da eliminação do problema do insucesso escolar; mas poderá, isso sim, encarregar-se de proporcionar a um número cada vez maior de jovens as condições que lhes permitam tomar uma parte activa na vida económica e cultural da União Europeia.? (AA.VV. 1995b, 103) 

Na verdade, a desigualdade no sistema educativo nasce na casa, e não na escola, de cada aluno e no contexto socio-económico familiar em que se desenvolve a sua vivência. Como as desigualdades sociais se agravam, cavando fossos que impedem uma substancial melhoria das condições de vida de boa parte da população e empurram muitas crianças e jovens para percursos de vida que, por necessidades materiais e outras contingências, não passam pela escola, é necessário decretar medidas de excepção para obter o sucesso. Como a avaliação dos alunos revela maus resultados, têm-se vindo a baixar os padrões exigidos para essa avaliação, não cuidando do essencial; num feliz paralelismo estabelecido por Jorge Manuel Baptista, é como se uma fábrica cujos produtos não passam nos controlos de qualidade, em vez de melhorar a qualidade da produção, se preocupasse apenas em alterar os sistemas de avaliação dessa qualidade; como se conclui “evidentemente, os seus produtos seriam exactamente os mesmos, apesar de lhe ser atribuído um grau de excelência inexistente.? (AA.VV. 1995a, 91)

Não devemos ter ilusões sobre a igualdade de capacidades de todos os indíviduos. Essa não é a realidade e não é necessariamente um mal. A diversidade é uma riqueza e um dos critérios de progresso, na Natureza e na própria Ciência. O que nós devemos disponibilizar a todas as gerações é uma igualdade de oportunidades que permita a cada um explorar as suas capacidades e encontrar o seu caminho. Isso não passa por “decretos de sucesso? mas pelo desenvolvimento económico do país e pela melhoria das condições concretas em que as crianças crescem e se formam. É certo que isso é bem mais difícil do que burocratizar o insucesso escolar, para o desencorajar. 

Em termos caricaturais, tudo isto é como pretender que, numa corrida de automóveis, todos cheguem próximos uns dos outros, mesmo se uns participam com um Minis dos anos 60 com os pneus furados e outros com Alfa-Romeos dos anos 80 ou Ferraris do último modelo.

O que se deve garantir é que todos partam do mesmo ponto com meios semelhantes. Depois, é óbvio que uns conduzirão melhor, outros pior e que nunca chegarão todos ao mesmo tempo. Claro que deve ser dada assistência aos que têm problemas, mas não parece correcto rebocar até à meta aqueles que levam a corrida toda a chocar contra os outros, quantas vezes propositadamente. 

 

(Continua…)