A Escola Pública e Eu

Fevereiro de 2007

Se descontar uma fracassada semana passada num arremedo de “pré-escola”, entrei no sistema educativo público em Outubro de 1971, acho que numa quarta-feira, dia 6, e por lá tenho permanecido de forma quase ininterrupta, na situação de aluno, de docente ou na de ambas.

Já lá vão mais de 35 anos lectivos em que, se bem me recordo, apenas em 1989/90 não fui nem aluno, nem professor. Mas apenas porque trabalhei numa autarquia local, exactamente na área da Educação. E a partir desse ano colaborei cerca de uma década com um Grupo de Trabalho do ME que organizava visitas de estudo de escolas do interior do país, dos mais variados níveis de ensino e tipo de alunos, à zona de Belém.

Não é que a antiguidade seja um posto ou que a experiência só por si traga necessariamente valor acrescido à opinião de cada um de nós, mas eu tenho a falta de humildade suficiente para achar que talvez tenha uns vagos conhecimentos sobre a forma como a Escola Pública evoluiu nas últimas décadas, aquilo que mudou com excessiva rapidez e aquilo que permaneceu quase inalterado.

De qualquer modo, a minha vida tem sido marcada de forma indelével por essa mesma Escola Pública, que me formou em muito do que sou. E estou-lhe grato por isso. Não sei se fez um grande serviço, mas não encontro razões de queixa que ultrapassem a bondade dos serviços que acho que me prestou. E gostaria que o mesmo acontecesse com a minha filha. Embora não tenha a certeza se…

Por isso mesmo, penso que é essencial defendermos a Escola Pública e tentarei aqui demonstrar como o podemos fazer, destacando tudo o que ela fez e continua a fazer de bom.

Apesar de…

O Pecado Essencial

Março de 2007

Não há forma de tornear a questão: a relação entre os docentes e a tutela está há muito inquinada e foi destruído qualquer capital de confiança que pudesse existir de início…
Desculpem-me os cépticos mas a culpa não foi da classe docente, que desde o primeiro dia foi submetida por esta equipa ministerial a uma barragem de menorização e amesquinhamento, enquanto indíviduos e grupo profissional, tanto no plano privado das negociações desenvolvidas como no plano das declarações feitas em público.
Mandaria o bom-senso que para mobilizar mais de uma centena de milhar de profissionais qualificados, no sentido de promover reformas profundas no sector educativo, se procurassem estabelecer pontos de diálogo e colaboração.
Ao contrário disso, a tutela decidiu entrar “a matar” e, com a recorrente desculpa dos sindicatos serem forças de bloqueio e os docentes uns relapsos absentistas que fazem a sua carreira sem qualquer mérito especial, procurou mistificar boa parte da opinião pública e publicada com uma estratégia comunicacional caracterizada por uma manifesta desonestidade intelectual.
Recordemos que, em nenhum momento destes dois anos, se conheceu do ME uma palavra de apreço ao trabalho desenvolvido pelos docentes ou se manifestou preocupação pelas condições em que desenvolvem o seu trabalho. Quando isso foi feito, ou foi tarde ou então sempre surgiu à laia de remoque. A regra foi colocar os docentes do “outro lado”, dos adversários da mudança e do lado do imobilismo que causa o insucesso e abandono escolares.
Tudo isto foi feito com base em três pilares essenciais:
- Uma retórica discursiva abusiva, que procurou sempre – e voluntariamente - suscitar reacções negativas e repúdio por parte dos docentes, para que o ME aproveitasse isso contra eles perante a opinião pública.
- Uma campanha comunicacional avassaladora, com a divulgação cirúrgica de dossiês estatísticos com dados parcelares ou “trabalhados” de forma a induzirem leituras erradas dos fenómenos em causa. Neste particular, a complacência dos órgãos de comunicação social, que não exerceram a crítica devida aos números que se limitaram a reproduzir, assim como a adesão de muitos opinadores ditos “de referência” foram de importância fulcral.
- Uma estratégia negocial em torno do ECD marcada pela falta de lisura no tratamento dos parceiros com quem deveria procurar conciliar posições.
Perante isto, lamento muito, mas não há boa vontade que resista, não há confiança que aguente.
Porque quem não se sente…

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Escola e Ideologia

(Abril de 2007)

São muitas a vozes que frequentemente se levantam em torno do aproveitamento ideológico da Educação por parte do Estado e dos grupos que, de forma mais circunstancial ou prolongada, o dominam.
Quanto a isso, queria apenas sublinhar que em nenhum momento a Educação não foi uma transmissão de conhecimentos com um enquadramento ideológico qualquer. Platão não era um mestre neutro, ele transmitia os seus valores com os seus ensinamentos, sendo que a sua mensagem era fortemente política. Numa oficina medieval, a aprendizagem técnica de um aprendiz de ferreiro ou tecelão ia acompanhada de todo um leque de pressupostos sobre a organização da sociedade envolvente. Mesmo numa idílica sociedade nómada perdida nos confins de uma selva imaginária, a transmissão de conhecimentos faz-se com base em pressupostos que correspondem a um aparato ideológico mais ou menos complexo.
É inútil procurar no passado ou futuro uma sociedade em que a Educação seja completamente desideologizada - pois mesmo o apelo à neutralidade é uma forma de ideologia como o meu amigo António sempre me afirma quando discutimos a Escola Pública. Isso seria negar quase por completo a sua natureza.
O problema é que há quem, talvez por deficiente formação ou por uma educação amputada ou distorcida, pense que é possível educar sem que alguma ideologia esteja envolvida ou que o essencial passa por uma transmissão de meros saberes técnicos.
Sei que estamos a atravessar um período em que esta visão cinzenta da Educação parece predominar. O conhecimento da História (talvez por isso seja, com a Filosofia, cada vez mas mal amada pelos transitórios senhores dos tempos) ajuda-nos a saber que é uma fase passageira como tantas outras que pareceram nos seus tempos bem mais dramáticas. Isto não é um apelo à resignação. Pelo contrário, é um encorajamento à resistência e à acção para acelerar a modificação deste estado de coisas. Mas sem ilusões quanto ao facto da Educação poder vir a ser algum dia “pura”. Isso seria o pior de tudo.
É pela sua impureza que a Educação se constitui como instrumento essencial de Progresso e não meramente de Conservação. A pérola forma-se a partir de um simples grão de areia.

10 Respostas to “Correio da Educação”

  1. Colaborações « A Educação do meu Umbigo Diz:

    [...] Correio da Educação [...]

  2. rui baptista Diz:

    Por inépcia informática, coloquei o meu comentário em “A Escola Pública e Eu”, quando o deveria ter feito em “O pecado essencial”. Com as minhas desculpas, aqui deixo a rectificação devida.
    Rui Baptista

  3. Yhanks you Diz:

    Hello people50bdd67bfca95b05c6582d862f900eb9

  4. Maria Eduarda Luz Diz:

    Temos que mobilizar os professores de todas as Escolas para o dia 8 de Março.

    Vai ser decisivo. Só lamento que esta onda de contestação não tivesse rebentado logo com o Estatuto da Carreira Docente e o Concurso para Professor Titular

    Mas nunca é tarde para repor a justiça, a dignidade, mostrar o papel fulcral do professor na Sociedade e lutar pelos seus direitos.

    Creio ser importante levar cartazes focando os aspectos essenciais da nossa luta e indignação.
    Mas não concordo com alusões pejorativas. Os professores não necessitam de ir por aí.
    Os professores são criativos e construtivos.

    Na minha Escola (Eça de Queirós em Lisboa) estamos a pensar levar cartazes focando os aspectos essenciais da nossa luta, como por exemplo:

    “A ESCOLA É UMA FÁBRICA DE SONHOS
    NÃO É UMA EMPRESA”

    “A SOCIEDADE PRECISA DE PROFESSORES
    NÃO DE BUROCRATAS”

    “SOMOS PROFESSORES
    TODOS TITULARES
    DE MÚLTIPLOS SABERES
    MOTOR DE MUDANÇA
    FORÇA DE PROGRESSO”

    “MODELO FINLANDÊS? SIM
    MAS ESSE VALORIZA E PRESTIGIA OS PROFESSORES”

    Vamos potenciar as novas tecnologias (e este Blog é em excelente exemplo) partilhando, divulgando e definindo estratégias para atingir o nosso objectivo - mostrar à Sociedade que a nossa função principal é educar/ensinar, fundamental para o desenvolvimento de um país e EXIGIMOS que o nosso papel seja valorizado e reconhecido.

    Termino citando Miguel Torga:

    “Recomeça Sempre…

    E de Nenhum Fruto Queiras Só Metade…”

    Maria Eduarda Luz

  5. lucas Diz:

    bom site
    otimas postagens

  6. maria emilia ribeiro santos Diz:

    Apesar de já ter 57 anos e de estar aposentada (1º ciclo, por opção e vocação), ontem, estive com o meu marido na Manifestação por solidariedade com os colegas e por achar que é vergonhoso o que estão a fazer à classe docente. tenho 2 sugestões a fazer: 1º o colega se não tem roupa preta, pode pôr uma braçadeira preta na manga do casaco e uma gravata preta - 2ª porque é que o colega, o Professor Ramiro Marques e outros colegas que conseguem escrever tão bem todas as enormidades que se passam, não escrevem um relatório dando conta de todas as tarefas que os professores têm que fazer, a aberração da introdução da figura de professor titular ( principalmente, porque apanha os professores já no sistema). Se tivesse que ser introduzida, o que duvido que o fizessem para quem vai entrar na carreira e não para quem já lá está, o novo modelo de gestão etc, e não enviam esse relatóri muito bem documentado para os comentadores ( fazedores de opinião), para o Senhor Presidente da República, para os jornais e para todos os sítios atrvés dos quais se forma a opinião pública? Desculpem esta achega, mas estou farta de ouvir enormidades de quem não tem a mínima ideia do que se passa nas escolas. Perdoe as falhas do texto, mas perdi os óculos de ver ao perto e não dá para fazer melhor.

  7. arturcarvalho Diz:

    O meu nome é artur, sou professor e gostaria de deixar uma link para um dos melhores artigos sobre a educação em Portugal que li ultimamente, mas por ter sido escrito num jornal pequeno, tem pouca notoriedade.Com permissão do autor foi publicado também no meu blog.

    http://www.tintafresca.net/News/newsdetail.aspx?news=4bfccea6-d813-45de-a985-6fb168fc489b&edition=67

  8. FRANKLIN PEREIRA Diz:

    Uma pequenina história do que aconteceu comigo ou Como enganar um professor duas vezes
    No ano lectivo de 1999-2000 usufruí de uma Licença Sabática para a realização de um “trabalho de investigação aplicada”, de acordo com o Desp. Normativo 31/98, art. 9, ponto 5. O mesmo despacho, no art. 6º, informava que “O período de tempo correspondente à licença sabática conta para todos os efeitos legais como tempo de serviço docente efectivo”. A Lei de Bases do Sistema Educativo considera, no art. 35, ponto 4, que “Serão atribuídos aos docentes períodos especialmente destinados à formação contínua, os quais poderão revestir a forma de anos sabáticos”. Ou seja, o ano sabático é formação contínua, e conta como ano lectivo efectivo. Quando o terminei, dirigi-me ao Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua, com uma cópia do meu trabalho, para requerer os créditos devidos a esse ano sabático, a utilizar na progressão da carreira. O impresso do CCPFC apenas requer informações sobre as disciplinas do ensino superior e do curso a creditar; nada é relativo a ano sabático em trabalho de investigação aplicada. Reclamei, e o meu pedido veio indeferido: “O regulamento de acreditação e creditação (…) não é aplicado ao caso”. A legislação que regula o CCPFC não considera este aspecto da formação contínua, e o requerente que se arranje. Quando assumiu a pasta das Finanças, Ferreira Leite esqueceu-se de extinguir este Conselho, cujas funções de equivalência de cursos (na prática, trabalho de mercearia) facilmente seriam executadas por qualquer secretaria de escola. No concurso para professor titular do ano passado, a pontuação para ano sabático é de 1 ponto, enquanto que um ano lectivo vale 8 pontos. Ou seja, o que anteriormente era norma, com um despacho, que teve retroactivos, deixou de ser: fui penalizado por ter um ano sabático.Deve ser por isso que as instituições que nos tutelam falam de dignificação da profissão docente e promoção da auto-estima…

  9. Beatriz Diz:

    Hoje, dia 16 de Abril, manifestação na av. aliados contra a assinatura do entendimento da plataforma sindical com o M.E.

  10. Beatriz Diz:

    A manifestação será ás 20,30/ 21h. Passa a palavra.

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