Truques


Há não poucos meses o MEC mandava fazer saber que:

Colégios vão ter de reduzir 64 turmas com contrato de associação. Se não conseguirem cortar tantas, terão um financiamento mais baixo por turma.

(…)

O financiamento a estes contratos, que em 2009/2010 estava nos 239 milhões por ano, tem vindo a cair e neste ano lectivo 2013/2014 já se fixou nos 149 milhões de euros. “Este acordo, tendo por base a indicação dos serviços para a racionalização dos recursos existentes, permite ao Ministério da Educação e Ciência cumprir o objectivo de redução da despesa com contratos de associação, uma das componentes da redução de despesa inscrita no Documento de Estratégia Orçamental”, explica o Ministério em comunicado esta segunda-feira, 9 de Junho.

Com que então, 149 milhões de euros?

Vamos lá ver a proposta de OE para 2015…

OE2015Prop1

Reparem lá nos valores… em 2014 o total das transferências foi de 240 ME. Podem sempre dizer que não são tudo verbas para contratos de associação, que os há simples e de patrocínio, mas os bolsos para onde vão são os mesmos.

E podemos confirmar com os dados da dotação inicial do orçamento do MEC para 2014:

OEMEC2014

A verdade é que desde 2009/20, o valor das transferências para o sector privado se mantém praticamente igual, enquanto os cortes impostos à rede pública (que se afirma excessiva, pelo que poderia incorporar muitos daqueles que implicam despesa adicional para o Estado) são na ordem das centenas de milhões de euros por ano…

 

Os anunciados vales educação a ser pagos pelos patrões aos seus empregados como parte do seu salário podem ser uma notícia óptima para alguns colégios (os queirozezes estão excitadíssimos), mas péssima para os ditos trabalhadores, caso o valor seja deduzido do seu salário e não como suplemento remuneratório.

Ver para crer, dizia o São Tomé, um santo muito injustamente denegrido ao longo dos tempos.

E depois gosto muito do queirozeze a comparar-se a uma espécie de porta-voz dos reitores universitários, pois usa como elemento de comparação para os cortes nos apoios ao ensino particular o que acontece com o Ensino Superior.

Rodrigo Queiroz e Melo compara a situação do ensino particular e cooperativo com o do ensino superior, “que também está muito aflito”. As universidades e politécnicos perdem 1,5% de fundos públicos nos seus orçamentos em 2015. “Estamos na mesma linha”, considera o dirigente da Aeep, recusando a ideia de que os privados estejam a ser beneficiados face às escolas públicas, atendendo à diferença entre o corte por estes sentido (1,1%) e a diminuição geral de despesas no sector, que ultrapassa os 700 milhões de euros.

Tens uma ganda lábia, pá, porque sabes que estás garantido com o amigo inamovível que não sairia de lá nem com dez plágios seguidinhos.

Da proposta de Lei do Orçamento para 2015:

OE2015PropCaduc

… fragmentos de um discurso muito amoroso em relação aos tempos verbais:

Nuno Crato foi acusado pelos deputados de ter mentido no Parlamento quando disse que os professores colocados se manteriam e ninguém seria prejudicado. Ministro alega que só disse que os professores se mantinham nas escolas até às novas listas. “Disse ‘mantêm-se’. Não disse ‘manter-se-ão’.”

Quando um tipo se refugia em detalhes destes, é porque já não há nada de sólido a que se agarrar.

Não tendo bastado a tentativa de relativizar os problemas do arranque do ano lectivo com números cozinhados acerca das falhas, percebe-se que a ideia do MEC é ir começando a, de fatia em fatia, esvaziar o número de queixosos por esta enorme palhaçada. Com colocações aqui ou ali, mais ou menos distantes, efeitos a 1 de Setembro, etc, etc, até poderem dizer que são apenas 0,1% os que estão a fazer barulho, assim tentando que a opinião pública se desinteresse do assunto.

Não deixa de ser curioso que o principal esforço para fragmentar o concurso nacional e a lógica tradicional de graduação para efeitos de concurso esteja a culminar neste enorme fiasco.

E há que encobrir isso.

Para mim, isto é receber uma quantia em dinheiro que depois é gasta em coisas que me interessam.

Por exemplo, eu posso sempre comprar livrinhos, muitos livrinhos e justificar com despesas “de formação”.

Quem me dera… no fundo, estou apenas a invejar o Pedro quando a mim me tinham dado imenso jeito esta espécie de pagamento por conta.

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Expresso, 4 de Outubro de 2014

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