Todos, ou quase, conhecemos a prática de pequenas festas nos finais de período, ao atingir-se a centésima lição de alguma disciplina, no final do ano.
São pequenos rituais, regularmente repetidos a que nem sempre damos a devida atenção, mesmo quando participamos e nos envolvemos.
No entanto, nos últimos anos, esta prática começou a alargar-se cada vez mais e a outro tipo de datas. Este período, em especial numa das minhas turmas mais curtas começou a ser hábito a comemoração do aniversário dos alunos – para além da tradicional cantoria no final de uma aula - envolvendo aquilo que é habitual: trazerem-se sumos, pequenos comes e bebes para uma meia hora de convívio numa aula em que o(a) docente prescinda de se preocupar com as formalidades programáticas.
Contrariando aquela ideia de que a escola é aborrecida e de que os alunos, em especial com historial de insucesso, se sentem incompreendidos pelos professores que com eles têm dificuldade de relacionamento num plano mais horizontal, os alunos desta turma fazem questão de querer o máximo de professores presentes, como aconteceu na passada 6ª feira em que vários alunos partiram em busca dos elementos do Conselho de Turma que ainda estavam a leccionar a meio da tarde.
Em outras ocasiões a ocorrência é mais modesta, como que apenas um pequeno momento de pausa e convívio. Há algumas semanas, lá fui convocado e apareci na sala de uma colega minha que tinha tido o cuidado de comprar bolo e velas para o aluno que fazia anos, já sabendo das suas dificuldades. A reacção do miúdo foi de espantado prazer, seguido de evidente emoção e indecisão: nunca tinha comido bolo de bolacha na vida (fazia 13 anos), nem sabia se o haveria de levar para casa para mostrar à família o que a professora lhe dera, tamanha considerava a dádiva surpreendente.
Como que ficou paralisado, após lhe cantarem os parabéns e ele ter soprado as velas. Colocou a fatia de bolo na mesa, para poder levá-la para casa, mas não parava de a olhar. Cedendo à tentação lá pediu para a comer, quando a aula já tinha sido retomada. Eu já lá não estava mas contaram-me que saiu um pouco da sala e comeu toda a fatia, enquanto uns colegas de passagem lhe pediam um pouco. Satisfeito, reenntrou dizendo que lhes tinha deixado uns pequenos restos que estavam na caixa do bolo.
Tanto no momento como agora, este é o tipo de história que nos deixa com um nó na garganta, sem saber se devemos sentir satisfação pela felicidade do aluno, se um incómodo embaraço por tudo o que revela das imensas carências, e não falo apenas das materiais, com que se debatem estas crianças e jovens com que trabalhamos todos os dias.


























