Livros


… há sempre que guardar tempo para (re)encontrar oportunidades para darmos alimento aos nossos vícios.

Neste caso, é uma livraria-alfarrabista, sem nome cá fora, ali pela rua do Diário dos Açores, em Ponta Delgada, um pouco acima do (encerrado) Gil e quase defronte da (decadente, mas com promessa de recuperação) Casa das Palmeiras.

Há esplanadas perto, para degustar as aquisições que, este ano, foram muito regradas, cortesia do ambiente de esbulho fiscal, laboral, social… etc e tal.

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Da Heavy Metal estão por lá vários anos, de meados da década de 90 do século passado a cerca de 2000 (trouxe apenas os números especiais, pois nem me lembro dos que tenho dos normais),  a 1 euro e ao lado uma estante inteira de coisas da Marvel e DC Comics a metade do preço, mas eu para isso já tenho pouco espaço e paciência.

Muitos livros de Arte e o espólio da falida Quarteto, neste caso com tudo a menos de 3 euros.

Paperbacks a 3,5€ para meu desespero e esforço para arranjar espaço para trazer um pequeno lote.

A publicidade é merecida, mesmo se nem guardei o nome do proprietário, apesar das afáveis conversas sobre o acervo dos 250.000 livros por vender…

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É bom que dê para as férias… sempre são mais de 1000 páginas.

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Nos escaparates, a área política do PS e das “esquerdas” ganha, por larga margem, e até o engenheiro já tem direito a hardcover depois do paperback, que nós somos originais em tudo.

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Parece ter passado, pelo menos por agora, a onda dos sobredotados da crise que tudo sabem, mas tarde demais, pois quase todos se calaram em “tempo útil”.

 

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… pois corresponde a tudo o que eu esperava e ainda vai mais longe na forma de manipular as coisas por forma a tornar uma obra sobre os 40 anos da Educação em Democracia um mero instrumento para legitimar as políticas desenvolvidas entre 2005 e 2009 e rasurar por completo as críticas ou visões alternativas da realidade reescrita.

Aliás, difícil seria esperar diferente de uma obra feita por uma facção político-académica, com um par de convidados especiais para dar a ilusão de pluralismo, que convida os seus alunos e colegas para abordar algo em que se foi parte interessada e bem interessada.

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Não tenho tempo, por agora, para fazer uma recensão completa às 600 páginas, mas gostava de deixar, desde já, algumas notas básicas:

  • Uma obra que pretende analisar 40 anos de Educação em Democracia não deveria (poder, pode, como se vê) ser feita como arma de auto-legitimação de uma equipa política que ocupou o poder nesta área da governação e que faz de um “estudo” uma espécie de apologia, com pretensões de fundamentação histórica, das suas próprias opções, eliminando qualquer tipo de eventual dissonância. Temos a obra de uma professora universitária e coordenadora de um programa de doutoramento, ex-ministra, que chamou de volta os seus mais dilectos colaboradores e os seus mais fiéis alunos para erguer algo que, em primeira e última instância, se trata de um escrito que serve para justificar as suas próprias opções políticas num dado mandato.
  • Uma obra deste tipo, com as pretensões do seu título, não deve ser feita, em especial quando se abordam áreas muito específicas, por quem é mero “interessado” na matéria. Ou seja, eu nunca ousaria fazer um capítulo sobre Educação Especial, por muito que o assunto me interesse, se apenas sei alinhavar a evolução do seu enquadramento jurídico. Mas Luís Capucha não hesitou e fez um capítulo que faz lembrar aqueles apontamentos esquemáticos que fazíamos na Faculdade, como resumo de obras complexas, deixando apenas o esquelético e factual, mas eliminando qualquer pretensão de análise conceptual do tema da Educação Especial. Consultar aquele capítulo ou um qualquer digest da legislação sobre a Educação especial, vai dar ao mesmo.
  • A finalizar este volume, anuncia-se uma parte sobre “O Debate Público”. Neste volume só se encontra um capítulo, entregue a Pedro Abrantes sobre “Opinião Pública e Políticas Educativas. E a entrar refere-se que o ensaio vai tratar o assunto para o período de 1960 a 2010. E quase esperei que fosse isso mesmo. Mas não é, porque não poderia ser. Era impossível que fosse algo assim, feito a sério, com este contexto editorial. A verdade é que o artigo se divide, no essencial, em três partes… uma de suave enquadramento teórico sobre a percepção pública das políticas educativas, com recurso a uns dados do European Social Survey, outra em que se recolhem testemunhos de ministros da Educação até 1999 que se encontram numa obra de António Teodoro e uma outra que praticamente se limita a alinhavar uns títulos de jornais (parece que se confunde “opinião pública” com “jornais”) sobre a questão dos exames de 2005 para cá, mais coisa menos coisa. Por incrível que pareça, este “ensaio” consegue escamotear totalmente o que foi motivo de maior polémica e discussão no espaço público e mediático na última década em matéria de Educação, dando a entender que tudo se centro nos exames. Zero sobre as polémicas sobre a carreira docente, a organização curricular, a gestão das escolas, a organização da rede escolar, etc, etc, etc, etc, etc. O mandato de Maria de Lurdes Rodrigues é, neste ensaio, uma pasmaceira em termos de polémicas, parecendo que tudo foi consensual e impermeável a contestação na opinião pública e publicada. Não percebo se é essa a convicção do autor, se acha que dos 50 anos de análise que prometeu, achou que os últimos 5 não mereciam nada mais.

Só isto já me fez considerar bem gastos os 19,20 aérios (tinha 70 cêntimos no meu cartão da Almedina para descontar) que dei pelo cartapácio, pois eu adoro ter para leitura, exploração e utilização futura todo aquele tipo de obras muito datadas e comprometidas com determinada Situação, ao ponto de se tornarem caricatas ao fim de um par de décadas, mesmo quando surgem com chancela académica.

Quantas obras tidas como “essenciais” nos anos 60 ou 70 (e já mesmo 80) conseguem resistir hoje a uma leitura sem um sorriso algo condescendente sobre o seu “alcance” e as motivações que se vão tornando cada vez menos fáceis de ocultar?

… para este  Verão cinzento.

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A entrada é mesmo a matar. Ou se entranha ou não se aguenta…

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Foi publicado o volume dos debates realizados com o tema “conversas para além da crise”. Para além da divulgação do volume, fica o texto da minha intervenção inicial na sessão sobre “Educação: A solução sempre adiada” que teve a participação de David Justino e Gabriel Mithá Ribeiro.

A intervenção não foi escrita previamente, pelo que corresponde à reprodução do que foi sendo dito no momento.

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            Começo a minha intervenção por fazer algumas provocações às afirmações do Prof. David Justino. Concordo com muitas das ideias que aqui expressou, em particular com os diagnósticos que não são senso-comum e, claro, com a noção de que a educação entre nós está mal. Aliás, nunca esteve bem, motivo pelo qual ouvimos constantes discursos cataclísmicos sobre a educação. Quanto à questão da culpa, sejamos diretos: a culpa é dos professores [risos]. Não vale a pena culpar os políticos, assumo-o já. A culpa é nossa [risos]. Mas talvez também nós, professores, sejamos culpados pelo desvio positivo nos resultados do PISA. Se as famílias têm pouca formação, a escola não tem meios e os alunos não possuem uma inteligência inata extraordinária, então os “culpados” também fizeram algo de positivo. Como última provocação, refiro apenas que, ao mesmo tempo que os jornais diários começaram a ter secções dedicadas à educação, surgiram jornais diários dedicados exclusivamente ao futebol. Convenhamos que o ganho da educação foi pobre face ao aparecimento de três diários criados para a cobertura de peripécias futebolísticas.

            Passando para o tema da sessão, julgo que abordamos o passado e o futuro da educação como realidades muito distantes do presente: a escola do passado, que recordamos saudosamente como uma “idade dourada” na qual, a esta distância, até as reguadas sabiam bem [risos]; e, no futuro, a projeção da escola ideal. É, portanto, no presente que a escola é má. Mas, à medida que o tempo foi passando, a questão do atraso foi sempre permanente na escola. O que se passa de singular entre nós (e em alguns outros países) é aquilo que os investigadores chamam de uma construção retórica da educação. Somos bons a legislar, mas essa produção legislativa é feita sem quaisquer relações com as condições reais de implementação dessas medidas. A definição da escolaridade mínima de 4 anos em Portugal, em 1844, não tinha relação com as condições reais nas quais ela seria implementada. Talvez esta dificuldade seja sentida nos países que legislam a obrigatoriedade para determinar o processo. Pelo contrário, países como a Suécia, a Dinamarca ou a Noruega, não precisam de legislar a escolaridade obrigatória porque esta já se tinha desenvolvido na prática social das escolas locais e das escolas paroquiais. Quando legislámos, estávamos num ponto de partida relativamente parecido a muitos outros países, mas começámos a perder gás na primeira metade do século XIX. Mas fizemos algumas experiências, como a municipalização da educação na década de 1870, em que se legislou que, a partir de então, seriam as paroquias a criar as escolas. O problema estava na falta de meios. É curioso analisarmos os documentos dessa época e constatarmos que há uma fuga à responsabilização dos encargos de fazer funcionar a instituição e de contratar os professores. Quem promoveu o maior avanço da rede de ensino pública em Portugal, na segunda metade do século XIX, foi o Conde Ferreira, um filantropo privado.

            A exaltação da educação como a solução que vai tirar Portugal do marasmo tem vindo a prolongar-se ao longo dos tempos. Manteve-se no ideário republicano e não desapareceu – ao contrário do que é dito – no Estado Novo. Curiosamente, a análise do número de alunos escolarizados e da sua progressão pelos vários níveis de escolaridade, tanto nas redes pública como privada de ensino, não verifica variações súbitas nos valores. Tirando, talvez, o período da democratização do ensino dos anos 70 para os 80, e os números das Novas Oportunidades, os principais indicadores têm-se mantido inesperadamente constantes ao longo dos anos. Não foi, portanto, a mudança de discurso político ou a súbita produção legislativa que conseguiram promover “saltos” na escolarização e nos indicadores fundamentais da educação, e é disso que tem de se ter consciência: ir para além da crise é ultrapassar a dimensão do tempo breve, da reação e da mediatização dos resultados na educação. Não podemos, simplesmente, ter diferenças de três ou quatro valores nos resultados dos Exames Nacionais de um ano para o outro. A tentação de ceder à pressão do momento existe e leva a que as medidas sejam constantemente remendadas, mas com isso perde-se a noção do que está para além das circunstâncias desse instante.

            Independentemente das posições que possamos ter sobre o sentido do projeto educativo, ele deveria ser plasmado numa nova lei de bases, que o Prof. David Justino tentou legislar quando era Ministro e que foi vetada, embora agora se verifique que muitas das suas medidas acabaram por ser implementadas no atual sistema educativo. Deveria existir um consenso entre quem decide sobre o destino do voo da educação, mas, neste momento, há apenas a preocupação de manter o avião no ar, recorrendo a truques e achando que se chegará eventualmente a um paraíso educativo. Como estamos, no presente, não há nenhum projeto político para além da crise; e, apesar de achar grave a construção retórica e política da educação, admito que sejam necessários argumentos políticos sérios para depois procurar soluções técnicas. Agora, temos problemas técnicos que são encobertos com discursos políticos.

            Há também que tentar perceber o que se pretende com o estabelecimento de uma escolaridade obrigatória de 12 anos: atingir um determinado número de alunos com o 12º ano ou prepará-los para o futuro? É verdade que, neste momento, esse futuro é incerto, mas é por isso que tem de ser projetado. Durante os 12 anos que os alunos lá passam, a escola é, muitas vezes, um oásis nas suas vidas, mas não pode continuar a ser o aparato do Estado ao qual todos recorrem para nivelar aquilo em que a sociedade falha. O Prof. António Nóvoa falou da “escola transbordante” referindo-se ao facto de esta instituição já não estar exclusivamente dedicada ao ensino e à instrução, partilhando agora preocupações com a segurança social. Ultrapassando todas as diferenças políticas e opiniões particulares, será que este cenário faz sentido? Penso que não, porque as coisas são pensadas de forma segmentada, para responderem a situações particulares, sem que haja qualquer articulação entre diplomas e soluções. Parece que tudo é feito para solucionar alguma coisa, sem que com isso percebamos onde vamos por este caminho.

            Perante estes aspetos e a direção que a nossa evolução tomou nos últimos anos, penso ter-me tornado cada vez mais antiquado. Comecei a ter uma reação forte aos modernismos. Quero com isto dizer que todas as soluções que nos são apresentadas para o futuro são “modernaças”, mas não acredito que sejam os quadros interativos que vão salvar a educação. Enquanto apostarmos num modelo de escola que pensa esta instituição como a forma mais eficaz e racional de fazer algo, estamos a perder a essência da educação. Antiquei-me, então, porque as experiências que me parecem ser de sucesso, num contexto ocidental semelhante ao nosso, usam soluções que pertencem àquilo a que se chama a dimensão humana da escola ou da educação. Em Inglaterra, há a experiência das Schools within Schools, escolas de escala humana, nas quais a proximidade entre a gestão, os professores, as famílias e os alunos é grande. Na última década, engrenámos na tendência oposta, o que, a meu ver, integra a categoria das soluções atrasadas, uma vez que esta ideia já foi aplicada ao nível das empresas nos anos 80, e já provou ser errada. Tenho uma reação cada vez mais negativa ao orgulho que todos os partidos sentem no anúncio do encerramento de escolas. É verdade que os novos “caixotes” escolares agregados têm melhores equipamentos, e até acredito que as famílias fiquem fascinadas com isso. Mas, ao fim de algum tempo, acabamos por sentir falta das escolas gourmet, que são as tais que prestam um apoio personalizado, que estão adaptadas às necessidades dos alunos e das comunidades. Quando ouço falar no suposto trauma que é passagem do 4º ano para o 5º ano, com todas as alterações ao nível do número de professores, de disciplinas e de colegas, gostaria que os pais que ainda têm a sorte de ter os filhos em escolas pequenas soubessem o que é entrar no Primeiro Ciclo de uma destas novas escolas, com mais 350 alunos, que é a dimensão de uma escola de 3º Ciclo ou de Ensino Secundário na admirada Finlândia.

            Ter escolas com mais de 1000 alunos e agrupamentos com 3000 ou 4000 alunos, com redes informáticas que não funcionam e a tomada de decisões centralizada numa única direção não é uma solução de futuro, não é uma solução atrasada, não é nada. Substituímos o discurso de autonomia por destruição do centralismo do Ministério da Educação, por medidas que promovem centralismos locais que são muito mais perturbadores. Existe algum sentido em ter escolas, a dezenas de quilómetros do centro, sem autonomia para tomar decisões de momento porque têm de obedecer à direção do agrupamento? Atualmente, as escolas estão a funcionar pior, embora custem menos ao Estado. Para além da crise, temos de pensar se não devemos lançar as bases de uma escola que antecipe o futuro, e não que reaja apenas aos constrangimentos do presente. Sim, temos de cortar, temos de racionalizar. Mas será que o estamos a fazer da maneira certa? Será uma vantagem verdadeira esta nova massificação do ensino, com a concentração do maior número de alunos no menor número de equipamentos e de unidades de gestão? Será esta a escola e a educação que queremos para além da crise? Não é essa a instituição em que me revejo. Não que defenda modelos completamente arcaicos ou anacrónicos de escola, mas acho que, num mundo que se diz cada vez mais flexível e polar, considero que devemos pensar numa escola de proximidade, que responda às necessidades das comunidades através de soluções que se adequem, de forma real, ao que queremos que seja a tal escola do futuro. Queremos uma instituição que prepare as crianças não apenas para o mercado de trabalho, mas para serem cidadãos íntegros. Sejamos sinceros, este processo de massificação não começou com a crise e com a Troika, mas já vem de antes. É uma tendência, uma opção política para a qual depois se encontraram argumentos técnicos. Pessoalmente, como professor e como encarregado de educação, cada vez mais me oponho a esta nova escola, que considero inadequada face ao que gostaria que fosse a escola do futuro, para além da crise, com valores que ultrapassam o momento que vivemos.

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O de baixo foi mesmo para festejar o previsivelmente efémero salário de Junho… o prazer imenso do traço de Alex Raymond, mesmo se tenho parte das pranchas nas publicações em português…

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E antes que os críticos do costume façam o que é costumeiro, que tal lerem e verem primeiro estes retratos de um país que não é o das propagandas governamentais, mas antes o país periférico, em termos geográficos e sociais?

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Esta já era a 24ª edição

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E as grelhas passam para segundo plano.

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