(In)Sucesso


E não é com “amanhos” que a coisa vai lá… esperando que sejam os professores regulares a fazer a maior parte do trabalho para o qual não estão devidamente qualificados, mesmo que tenham “jeito”.

Já disse porque assim é. Por miopia de muitos políticos que acham que pedir meios humanos especializados é querer que se lance dinheiro no sistema, que é para arranjar mais lugares, sempre com atitudes de desconfiança.

A verdade é que a prevenção necessita de algo mais do que há na maioria dos agrupamentos e falar em equipas multidisciplinares não é juntar um professor da Educação Especial, um professor do 1º ciclo, outros de Português do 2º e um de Matemática ou outra disciplina qualquer, só porque parece que até lida bem com os miúdos. É muito mais do que isso.

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(…)

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… porque para levar as coisas a sério seria necessário apurar o valor em cada zona ou tipo de agrupamento onde o insucesso é maior. A mim quer parecer que o valor anda muito abaixo dos 4000 euros nos tempos que correm. Aliás, andará acima dos 3000, mas sem chegar aos 3500 nessas zonas, que raramente correspondem às escolas da Parque Escolar que elevam a média para outros valores.

De acordo com o Atlas da Educação, 35% dos alunos do básico e secundário têm pelo menos uma retenção ao longo do seu percurso escolar. Tendo em conta que o custo médio por estudante no ensino obrigatório andará à volta dos quatro mil euros anuais, os autores deste estudo concluem que o desperdício “nunca será inferior a 250 milhões de euros anuais”. A estes valores teriam ainda se ser somados os custos de médio e longo prazo de uma saída antecipada do sistema de ensino sobre os quais não existem dados.

E, já agora, quais são os custos a médio e longo prazo de se promover um falso sucesso?

Em especial quando os argumentos não passam pela preocupação com as aprendizagens dos alunos, mas com o custo das retenções.

A preocupação não é pedagógica, nem sequer ideológica, é meramente tecnocrática e orçamental.

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Jornal de Notícias, 2 de Abril de 2014

Vamos lá por partes… 250 milhões de euros é muito dinheiro, mas passar indiscriminadamente toda a gente para os poupar cria despesas bem maiores, a jusante. Só quem é intensamente míope e só pensa no curto prazo não entende isso.

Por outro lado, não se entende que quem aparece com este argumento, defenda ao mesmo tempo a existência de exames que também custam dinheiro e geram margens adicionais de insucesso.

Era bom que, de uma vez por todas, esta malta organizasse o seu discurso, por forma a não parecerem cataventos. Querem rigor na avaliação e nas aprendizagens, mas sem insucesso. O ovo de Colombo. E, claro, a culpa do insucesso volta sempre a ser atribuída, mesmo que disfarçadamente, aos professores.

Eu defendo a existência de exames, apesar do seu custo e considero que os encargos com as retenções é um dos encargos do sistema, se queremos que ele – na nossa situação actual – não se torne uma balda completa.

O argumento da “cultura da retenção” é uma enorme mistificação, uma falácia, uma balela, um argumento de engomadinhos que eu queria ver numa sala de aula em que parte substancial dos alunos não traz cadernos ou material para escrever, que activamente se desinteressa das aprendizagens e cujas famílias se mostram incapazes de uma intervenção eficaz. Isto a acrescer à degradação da situação socio-económica das famílias que perturba, e não é pouco, a estabilidade dos alunos.

Mas, voltando à “cultura da retenção”, sempre atribuída às escolas e aos professores, gostava de sublinhar esta ideia – quem o afirma deveria vir das umas aulinhas a turmas complicadas, de modo sistemático, e não apenas enviar mediadores – muito úteis – para intervenções circunscritas que depois se apresentam como se fossem “de sucesso enorme.

Querem ajudar?

Convençam o MEC a apostar nessas medidas preventivas do insucesso e não em exames made in Cambridge. Convençam o MEC a criar equipas multidisciplinares de intervenção nas escolas de risco e não a retirar-lhes créditos horários quando num dado ano têm resultados abaixo do desejável.

Mas, como parte dos que andam a fazer circular esta informação são antigos responsáveis políticos ou chefias da estrutura administrativa do MEC que nada conseguiram fazer de eficaz nos seus mandatos nesta matéria, claro que nunca fazem esse caminho ou desenvolvem uma lógica alternativa a culpar, de forma aberta ou encoberta, “as escolas” e os professores.

Ide catar-vos!

Todos sabemos como o insucesso pode ser reduzido de forma sustentada, sem perder muita qualidade. Mas implica investimento.

E, como sabemos, nos tempos que correm isso é “despesa”.

Só falta mesmo é virem agora psicologizar o insucesso e começar a dizer que ele diminui a auto-estima das crianças e jovens e que os professores é que são uns cruéis desnaturados  e a responsabilidade nunca, por nunca ser, é dos políticos e dos seus nomeados que anos a fio desenvolveram políticas de enxertos e ziguezagues.

Expliquem-me como é que, em especial no Secundário mas também no Básico, se consegue forçar o sucesso em alunos que faltam de forma sistemática, sem justificação aceitável, sendo que não se trata de caso de abandono, pois as faltas são intercaladas e el@s andarem por aí?

E não há rendimentos para cortar.

Faltam, não ouvem, não querem aprender, não estudam.

Mas as escolas e os professores têm metas de sucesso a atingir.

Como?

Por isso é que não se deve sequer tocar no funcionamento destes cursos, nem sequer fiscalizar como funcionam.

Porque os alunos ou não prestam mesmo e têm zero (16 deles) ou têm todos de 17 para cima (acho que contei 90), sendo que mais de metade têm 19 ou 20 valores.

Pauta3PautaPauta2Pauta3Apaguei o nome da instituição e d@s alun@s. Ainda não achei quem será @ avaliador@, mas nem é isso que me interessa mais.

O que interessa é que esta é daquelas instituições mesmo, mesmo, mesmo adequadas a cursos com ligação aos meios empresariais regionais e tal.

E até é privada e tudo… e já andei a ver as conexões e são boas.

… que é da culpa/responsabilidade pelo “mal”.

São os sacaninhas dos professores que não fazem tudo o que é humanamente impossível para cilindrar a cultura de desigualdade que está instalada na sociedade pela mão, neste preciso momento, do PSD?

Eu diria de outro modo: o debate mais importante é acerca de quem assume ou não as suas verdadeiras responsabilidades pela reprodução das desigualdades e as potencia ao retirar apoios técnicos e humanos, ao facultar os materiais adequados fora de tempo e ao – em resumo – pensar que basta aos professores dar o trêzinho ou dézinho e fingir que tudo está bem.

Não será que as funções da escolas e dos professores não são já demasiado transbordantes?

Durante um seminário da plataforma Barómetro Social na Faculdade de Letras da Universidade do Porto num painel sobre “O futuro da educação em Portugal”, David Justino disse que o debate mais importante a fazer na área não é sobre a escolaridade obrigatória, mas sim sobre “a cultura de retenção que existe nas escolas portuguesas”.

“O grave é que, de há muitos anos, está instalada dentro das escolas uma cultura de retenção em que o ‘chumbo’ é uma coisa perfeitamente natural. Não é. É a negação da própria escola. Esse é que é o combate que temos de ter”, declarou David Justino, em resposta a uma pergunta do público acerca da eventual redução da escolaridade obrigatória.

Como as escolhas podem reproduzir o insucesso.

High School Choice in NYC: A Report on the School Choices and Placements of Low-Achieving Students (2013)

(…)

The findings show that low-achieving students attended schools that were lower performing, on average, than those of all other students. This was driven by differences in students’ initial choices: low-achieving students’ first-choice schools were less selective, lower-performing, and more disadvantaged. Overall, lower-achieving and higher-achieving students were matched to their top choices at the same rate. Importantly, both low- and higher-achieving students appear to prefer schools that are close to home, suggesting that differences in students’ choices likely reflect, at least in part, the fact that lower-achieving students are highly concentrated in poor neighborhoods, where options may be more limited.

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