Ensino Básico


Foi publicado há dias o volume das Estatísticas da Educação relativo ao ano lectivo de 2012-13.

Até passou despercebido, porque há assuntos que andam muito mais quentes, mas foi impossível não reparar na mensagem básica que foi transmitida:

Ensino nacional perdeu quase 100 mil alunos

O sistema de ensino nacional perdeu quase 100 mil alunos entre os anos letivos de 2011/2012 e 2012/2013, segundo o Ministério da Educação, destacando-se o ensino básico, com menos 64.288 estudantes.

De acordo com os dados do relatório «Estatísticas da Educação 2012/2013», houve um total de 2.139.977 alunos inscritos, entre a educação pré-escolar, ensino básico, ensino secundário, ensino pós-secundário não superior e ensino superior.

Comparando com os dados do relatório relativo ao ano letivo 2011/2012, é possível constatar que há uma redução de 98.956 alunos entre os dois anos letivos, já que naquele ano letivo estiveram inscritos 2.238.933 alunos.

Estes dados incluem alunos matriculados/inscritos e adultos em atividades de educação e formação.

Entre os vários níveis de ensino, é no básico que a quebra é mais acentuada, passando de 1.157.811 em 2011/2012 para 1.093.523 em 2012/2013, o que representa menos 64.288 alunos.

Só lá muito mais para o fim da peça é que se pode ler que:

Olhando apenas para a educação e formação de jovens, a quebra é menos acentuada, passando de 1.710.075 no ano letivo 2011/2012 para 1.696.696 em 2012/2013, o que representa menos 13.379 estudantes.

Comecemos pelas partes giras… em primeiro lugar, ao usar-se a expressão “ensino nacional” mete-se tudo ao molho, sabendo-se que será lido algo mais parecido a “ensino público”; em segundo, estas estatísticas continuam a sofrer de velhos males… os dados ora aparecem sobre Portugal, ora apenas sobre o Continente, ora incluem o ensino privado, ora não incluem e temos nós de os calcular… quando pura e simplesmente os valores nuns quadros não batem certo com os de outros, apesar de se referirem à mesma realidade… é o caso do número de docentes do ensino público que num quadro geral têm um valor, mas quando se vai ao quadro do vínculo contratual já têm outro…

Mas, passemos ao que interessa. Quando se vão ver os números e se comparar com os de 2011-12 o que achamos?

Estat2013a

Os tais 100.000 que se perdem, têm uma distribuição muito assimétrica… na rede pública perdem-se 3% e na privada quase 10%.

Como já sabemos que estas conversas se destinam, em primeiro e último lugar, a justificar os cortes em decurso na rede pública de escolas e no número de professores, que tal vermos a evolução do número de docentes (do quadro e contratados) neste mesmo período?

Estat2013b

Como parece ser fácil perceber, em termos relativos, a redução de docentes foi quase o triplo da redução do número de alunos… sendo muito maior entre os contratados que desceram de 31.000 para menos de 22.000.

Mas isso não é notícia…

Só mesmo para terminar… a evolução do número de alunos e escolas da rede pública do 1º ciclo em Portugal Continental:

Estat2013c

Certamente, haverá quem diga que isto significa ganhos de eficiência do sistema

Eu não descreveria ou qualificaria assim a coisa

 

Subiram qualquer coisa. O resumo é muito resumido.

… em que vários ministros da Educação já deste milénio se juntam em ambiente de tertúlia e exibem os seus pergaminhos em matéria de retrocesso da rede escolar do 1º ciclo em nome do progresso, da racionalidade económica e eficácia dos recursos.

Cada um no seu tom, reclamando o que é seu: David Justino relembrando que foi ele a dar novo alento um processo que já vinha do fim dos anos 80 (enquanto técnico camarário em 89-90 assisti ao início do processo), Maria de Lurdes Rodrigues a destacar que foi ela a principal encerradora de escolas e Nuno Crato a sublinhar que foi no seu mandato que se chegou onde nunca antes se chegara.

Algumas coisas podem dividi-los, mas esta é daquelas orientações políticas que os três partilham e defendem com o mesmo tipo de argumentos: os recursos são finitos, há margem para poupanças, os alunos ficam a ganhar com a deslocação para melhores instalações e assim até se combate o insucesso que será maior nas escolas mais remotas e menos equipadas.

Nem tudo o que afirmam é verdade, nem sequer foi cabalmente demonstrado que o sucesso específico dos alunos deslocados para os centros/caixotes escolares melhorou. Pode ser que tenha melhorado, mas até ao momento isso não foi demonstrado. Há mesmo elementos que indicam que as escolas de turma única têm resultados bem acima da média. E mesmo que sejam verdadeiros alguns argumentos, não foi demonstrado que não seria possível fazer melhor com outro tipo de acção.

Porque não foi demonstrado, por exemplo, que os encargos com o equipamento básico das escolas mais pequenas, de proximidade, é de tal forma incomportável que justifique a deslocação de miúd@s de 6 anos mais de uma ou duas dezenas de km, fazendo-os levantar-se e estar prontos (e regressar) quase uma hora antes (depois) do que precisariam.

A lógica desumanizadora e concentracionária, por baixar o custo médio por aluno, une a lógica da acção de todos os ministros, pois “quando se chega lá, há coisas que é impossível não fazer”.

Discordo.

Pub24Jun14

Público, 24 de Junho de 2014

É um período muito interessante para a análise psicológica dos servidores de Iavé.

O IAVÉ já divulgou (Português 91 | Prova Critérios de classificação),

Saiu o Brás Cubas. Pessoalmente, preferia o Quincas Borba.

Já nem falo no Dom Casmurro, um bom título para a minha pré-autobiografia.

Em tempos de AO, alegadamente por causa do mercado brasileiro, é uma opção subversiva.

… de 49% ou 89% padece de uma virtuosa qualidade de hiper-objectividade que nunca atingirei.

Ou isso, ou gosta de gozar com as pessoas, em particular com duas e o seu trabalho, um@ colega professor@ e um@ alun@.

Mas aconteceu por aí e mais vezes do que seria recomendável, em especial na prova de Português que é aquela que conheço melhor e de que fui classificador, pelo que conheço os critérios.

Esclareço desde já: não se passou com qualquer aluno meu, pelo que não estou a vociferar em causa própria.

E esclareço ainda que o ano passado me calei acerca dos disparates das provas de 4º ano porque a minha petiza andou por lá e para o ano espero estar calado sobre as de 6º.

Estou, portanto, a aproveitar uma “janela de oportunidade” para “ganhar amigos”, uma especialidade minha.

Não quebro qualquer sigilo porque as pautas são públicas por todo o país e lá estão certas enormidades classificativas que demonstram até que ponto há gente do “melhor” por aí.

A única coisa que posso dizer a encarregados de educação de alunos com tal tipo de classificação é que não façam como eu, que nem quis ver as provas da petiza, muito menos a de Português que me cheirou intensamente a esturro. Peçam para ver qualquer prova com 49% e recorram se acharem por bem, porque, muito sinceramente, não têm nada a perder e há gente que só tem aquilo que merece e ainda deveria levar com mais.

E, quiçá, até fazem destas coisas por serem contra os exames. E por “estas coisas” entendam-se desnecessárias crueldades, pequenos sadismos de gente obviamente frustrada.

Mas os outros não têm culpa.

E a culpa não é dos “exames”.

É de quem os transforma em actos de uma estranha forma de vingança por procuração.

Os cerca de 220 mil alunos do 4.º e do 6.º ano que no mês passado fizeram provas nacionais saíram-se melhor a Português do que a Matemática. No caso das crianças mais novas, a classificação média na prova da língua materna saltou da negativa (48,7%) para uns confortáveis 62,2%. No 6.º ano, o destaque vai para as notas de Matemática, que continuam a baixar: mais de metade dos finalistas do 2.º ciclo não chegaram à positiva e a classificação média nacional afundou-se um pouco mais, para os 47,3%.

Os resultados globais foram divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), que em comunicado destaca “a melhoria considerável na disciplina de Português do 1.º ciclo” e a “ligeira melhoria” (de 52% para 57,9%) dos resultados na prova na mesma disciplina feita pelos alunos do 6.º ano.

O IAVE remete para mais tarde a análise detalhada dos resultados por tema (em Matemática) e por domínio (em Português). Para já, revela apenas que 81% dos alunos do 1.º ciclo e 75% dos do 2.º ciclo tiveram uma classificação igual ou superior a 3, a Português. Nas provas de Matemática tiveram positiva 64% dos estudantes do 1.º ciclo e 46% dos alunos do 6.º ano.

Sobre os Exames

Quem, no fundo, deve estar satisfeito com esta confusão e polémica, que eu chamaria artificiosa”, sobre os “transtornos” que estes exames trouxeram para as escola e para as famílias é… o MEC.

Enquanto se faz este alarido sobre as questões logístico-burocráticas que rodeiam os exames e “incómodos” associados (como fazem, por exemplo, os excelsos representantes paternais), deixa-se incólume o cerne da questão: os exames mais não são do que o álibi do MEC (que é tanto mais eficaz quanto a poeira levantada…) para encobrir a falta de rigor e de exigência (para usar o jargão do próprio) do ensino que a sua política educativa fomenta.

O verdadeiro problema que estes exames colocam (na condições concretas desta política educativa – da sua lógica paradoxal: indigente nos gastos e propósitos e mega na estrutura – e do modo como ela está a moldar o nosso sistema de ensino) não é de ordem logística e administrativa, como não é também de natureza ideológica (embora, para quem defenda esta óptica, ser “a favor” ou “ser contra” os exames conte sempre e é sempre pretexto para mais umas alfinetadas na posição contrária). São antes de mais pedagógicas e tangem à qualidade do ensino, objectivo maior de qualquer sistema educativo digno desse nome. E nem sequer é por os exames surgirem antes das aulas acabarem; isso até acaba por ser secundário.

Observemos então – para não se julgar que isto é apenas uma elucubração teorética (sobretudo para os que têm uma visão mais rudimentar das coisas, que lhes oculta que teoria e prática são duas faces de uma só moeda) – o que se passa nas escolas e colégios (não apenas por cá, embora a realidade nacional nos seja mais acessível) que têm por objectivo (desde logo mercantil-concorrencial) aparecer no topo dos resultados dos exames.

Trabalhar visando os resultados dos exames conduz rapidamente à uniformização das estratégias e práticas pedagógicas, à padronização do tipo de ensino e à mera instrumentalização e coisificação do conhecimento. Para já não falar do tipo de formação ético-moral que induz: o individualismo e a concorrência exacerbadas, vistas como “modo natural de ser e agir”.

Contra isto, alguns dirão: não vale a pena levantar tantos fantasmas com estes exames; “eu preparei os meus alunos para os exames sem ‘stresses”. Respondo a essa visão” tranquilizadora” e, nalguns casos, “angélica” (para não falar da preconceituosa que aproveita para fazer finca-pé na sua trincheira “pró exames”) que, além daquelas realidades e tendências observáveis, também ignoram ou negligenciam (ou fazem vista grossa a isso) algumas outras coisas fundamentais:

- É o próprio MEC que faz da avaliação externa o princípio e o fim da sua política educativa, já que não tem nada de qualitativamente consistente para apresentar: “A generalização da avaliação externa é um dos objetivos inscritos no Programa de Governo. Procura-se assim promover o sucesso dos alunos com base num caminho de maior rigor e exigência, que o Ministério da Educação e Ciência tem vindo a aprofundar”. Institui-se assim uma espiral perversa e viciosa: os exames,os seus resultados, atestam a eficácia do sistema e esta confirma-se naqueles: os exames justificam-se e propagam-se por si mesmos. (Já agora, é a isto que chamo “examocracia”). A qualidade do ensino, o objectivo essencial de qualquer política educativa, tornar-se-à como que o “recalcado” desta estratégia, desaparecendo na sombra – e assim, aos poucos, os resultados dos exames (que o “facilitismo” manobra facilmente ao sabor dos ciclos eleitorais) valerão por tudo o resto.

- Os professores não são parvos e tirarão ilações daquele pressuposto programático e das respectivas consequências, a saber: os exames constituem uma prova redobrada de desconfiança no seu trabalho, e  os resultados dos exames também acabarão por os avaliar de algum modo. Resultado: ninguém desejará ficar para traz e, gradualmente, as pedagogias instrumentais-adestrantes tornar-se-ão hegemónicas no sistema. Trabalhar-se-à, de uma forma ou de outra, em função dos exames; e isso volver-se-à na normalidade, que todos respirarão, dando cada vez menos por ela. Neste contexto, se queremos mais exames, se achamos que devemos aprofundar essa opção, só por ingenuidade é que se poderá supor que eles então desempenharão um papel meramente regulador ou aferidor (papel limitado e equilibrado(r) que desde sempre defendi para eles).

- Esta concepção pragmática e utilitária do ensino, estribada na política examocrática, é a que se adequa verdadeiramente às duas grandes finalidades (que se articulam entre si) que o governo projecta para a Educação: mercantilização e elitização do ensino (numa palavra: um ensino que, para se subordinar às exigências do mercado, fomenta as desigualdades e potencia a precariedade).

FARPAS

 

Fico abismado com a polémica que se levantou e que, ao que parece, ninguém antecipara. Ninguém importante, entenda-se, ninguém com “peso institucional”, ninguém que seja “representante” de algo.

Vou ser um bocadito bruto, mas por vezes é necessário sê-lo para que se perceba o mais básico dos básicos.

Não é por causa desta dispensa que os exames em Maio são polémicos. Tal como as provas de aferição já estavam erradamente calendarizadas (embora como não contavam para nota, se pudesse considerar que os efeitos perniciosos eram menores), pois implicavam que os professores andassem a dar aulas e a correr para reuniões de aferição de critérios, a classificar e a reclassificar provas apenas com a dispensa (nem sempre possível ou garantida) da componente não lectiva, estes exames ou provas finais estão mal calendarizados desde o início, mas pouca gente, com responsabilidades institucionais, eu ouvi e vi publicamente a denunciar tal.

O que é que despoletou o esbracejamento, agora quase colectivo, de “pais” (leia-se… “representantes dos pais” com acesso a câmaras e microfones) e directores? O facto de os professores terem direito a dois dias para, sem os sobrecarregar de trabalho, poderem classificar os exames com um pouco mais de calma.

Isto é hipócrita. Da pior hipocrisia possível e apetece-me começar a adjectivar pior quem só parece dar pelo problema quando lhe toca na beira da saia.

Aos “representantes dos pais”, que tão activos são em matéria de pedidos de reuniões e audiências, eu diria que seria tempo das AP deste país se envolverem na vida das escolas sem ser – em tantos casos – apenas para chatear, mas que assumissem um papel mais activo na prevenção atempada destas situações e na construção de soluções em articulação com os órgãos de gestão das escolas. Organizem-se. Não pensaram que isto poderia acontecer? Só quando há microfones é que se agitam?

Quantos aos directores, a alguns directores, quando é que começam a agir pró-activamente em defesa não apenas das vossas rotinas e poderes, mas de todos os envolvidos, incluindo os professores? É que já ouvi dizer que alguns directores andam a pensar obrigar os professores dispensados a repor as aulas não dadas nestes dias – um pouco como nos Profissionais em que as regras do ECD não se aplicam, com os professores a descontar as faltas dadas e a não receber se colocarem atestados, mas depois a terem de dar as aulas na mesma – o que me parece de uma enorme falta de senso e vergonha. Não tenho outra forma de expressar isto… não percebo como (ex-?)professores que querem ser líderes com mais poder nas escolas ficam tão atrapalhados com tão pouco. Eu percebo que directores sentados nos seus gabinetes nas escolas secundárias-sede que mal conhecem as escolas do 1º ciclo do seu mega-agrupamento, considerem uma enorme chatice ter de resolver este “problema” mas, se ficam tão atarantados com tão pequeno problema, talvez seja melhor repensarem a vossa vocação.

Claro que quem se distanciou dos outros professores e achou por bem exercer – como li a uma luminária deste tipo em prosa para um jornal regional – o seu poder de forma “equidistante” (leia-se… distante dos professores), tenha agora imensos problemas em convencer uns professores a compensar as ausências de outros. O que poderia ser feito – e certamente o seria – com outro clima de escola e de agrupamento, em que imperasse a colaboração e a partilha das decisões.

Será que agora finalmente percebem que os exames não devem ser antes do fim das aulas? Mas não é por causa dos dois dias de dispensa, mais do que justa, dos professores classificadores.

É PORQUE ESTÁ ERRADO DESDE O INÍCIO E NÃO APENAS QUANDO O LUME CHEGA ÀS VOSSAS CALÇAS!!!

Será que agora o Conselho de Escolas fará sair uma nota informativa sobre o assunto, pois no parecer que fez que fez sobre a proposta de organização do próximo ano lectivo nada consta?

.

Nota final: cá em casa tivemos dois docentes em exercício de vigilância de exames e um chamado para classificador (a outra metade do casal certamente irá na vaga do Secundário) e uma aluna do 5º ano sem aulas, sem familiares perto para recorrer. O ano passado a petiza teve de ir para a escola-sede fazer os exames, sem transporte nenhum oferecido pelo poder local (o tal que quer a municipalização disto tudo), enquanto os pais iam vigiar os exames nas suas escolas (porque aqui pratica-se a frequência da escola da área da residência). A coisa resolveu-se sem alaridos porque tod@s @s envolvid@s não andam a pensar apenas nas conveniências do seu umbigo. Bela alusão ao título do blogue, haããã? Se custa, se é problemático, etc, etc? Claro que sim. Mas enquanto tivermos governantes incompetentes e gestores locais pouco previdentes, é o que resta.

… atendendo à reconhecida debilidade técnica da equipa política do MEC nestas matérias, a par de um evidente tédio em tratar do que se consideram minudências.

Conselho de Escolas diz que o MEC está a ser “comandado” pelo Instituto de Avaliação Educativa

No entanto, o Conselho de Escolas já deveria há muito tempo ter-se insurgido era contra o calendário dos exames do Ensino Básico…

Com esta presidência ou com a anterior.

Mas… parece que só com estes dois dias de (reconhecida como justa) dispensa é que se aperceberam disso.

A denúncia dos disparates de gabinete é acertada, mas… estou à procura da proposta do Conselho de Escolas para alteração do cronograma de exames e não estou a achá-la em nenhuma das recentes notas informativas e olhem que a 4 é sobre a organização do ano lectivo…

Será falha do google?

Quanto ao despacho, tem data de há um mês…

DespDisp

 

… em torno dos exames do Ensino Básico resultam de:

  • Existência de um cronograma manifestamente errado dos exames/provas finais que já nos tempo das provas de aferição fazia escasso sentido, mesmo se então a não contabilização para a nota final pudesse disfarçar a asneira.
  • Existir demasiado “ouvir falar” e pouca leitura efectiva dos normativos que, bem ou mal feitos, são divulgados e só demasiado tarde deles se toma conhecimento em parte, porque são longos, chatos, etc, etc, e o velho “não-me-pagam-para-ler-essas-coisas”.

Desde que aqui escrevo que, independentemente do partido no Governo ou d@ ministr@ discordo da realização de provas/exames a meio de Maio e, por maioria de razão, no início desse mês como aconteceu há não muito tempo com a justificação perfeitamente anómala de vir cá o Papa a Fátima.

Esse foi o cúmulo do desvario. Fazer provas a mais de um mês do fim das aulas com um pretexto que não lembraria à divindade, ela mesma, que sempre ma pareceu ter momentos de sensatez.

Para além disso, este ano a coisa aumentou de intensidade por razões de sentido oposto que por vezes coexistem nas mesmas pessoas, outras vezes em pessoas com interesses diferentes.

  • A primeira tem a ver com a necessidade de parar as aulas para realizar os exames do 4º e 6º ano nas escolas-sede dos agrupamentos. Em período lectivo, parece-me óbvio que não é fácil na maioria dessas escolas ter aulas a decorrer com um alarido dos intervalos ao mesmo tempo que se pretende sossego máximo na realização das provas. Podem existir aulas de algumas turmas específicas, mas manter o funcionamento das escolas é complicado em ajuntamentos de milhares de alunos (em exames e em aulas). Querer o contrário, é de quem não conhece as coisas. Claro que isto só se coloca porque o tal cronograma é parvo há muito tempo. e, como disse, parece que há quem só dê por isso quando lhe bate à porta ou quando é interessante para servir de pretexto a outros objectivos de “agitação das massas”.
  • A segunda relaciona-se com a polémica do número de exames a classificar e das normas a aplicar ao Ensino Secundário e Básico. A esse respeito, a cada um@ a sua opinião. Agora uma coisa é essencial para que discutamos tudo sem perdas de tempo e sem verborreia a mais: a leitura das normas em devido tempo. Penso que, algumas pessoas não deveriam estar à espera da digestão das coisas pelas direcções, blogues ou colegas que nem sempre percebem tudo o que lêem. Estou a ser politicamente incorrecto e pouco corporativo nesta matéria? Não sei; apenas sei que me custa ver colegas a ter atitudes desnecessariamente arrogantes, no momento errado. E custa-me ver professores, com a missão de ensinar e suscitar o desejo de aprender, a eles próprios não quererem informar-se.
  • A terceira é a que se prende com a novidade da dispensa do serviço lectivo por dois dias para efeitos de classificação das provas. Foi a principal boa notícia deste ano e não compreendo quem  a contesta entre quem classifica ou entre quem a não classifica, excepto por parte de quem acha que são mais dois dias de aulas que a miudagem perde (de forma mais “intensa” no 4º ano, porque no 2º a coisa se passa apenas com alguns professores). De novo, o erro está no cronograma definido, pois esta medida é de justiça elementar e já deveria existir há anos. Eu irei usar os dois dias, que me serão muito úteis, até porque ainda terei os testes finais do ano lectivo para corrigir. Se por causa disso há problemas nos agrupamentos? Olhem… que tal promoverem umas interessantes actividades extra-lectivas na área do desporto, da expressão plástica, do etc e etc? Não quereis mais poder e autonomia?

Parecem-me puxadinhas…

Eu sei que  não sou muito viajado e que não conheço os sistemas educativos da Finlândia, da Alemanha, de Singapura, da Holanda, do Japão, em primeira mão e olhar.

Eu sei que sou um simples zeco que dá aulas ao Ensino básico (2º ciclo, no essencial) e que desconheço o largo mundo que me rodeia.

Também sei que devo ser dos que apenas vislumbram o lado negro da Lua, embora garanta que nunca fui grade fã d’O Muro.

Mas, do andar térreo do meu olhar sobre estas coisas acho que seria muito mais vantajoso separar com clareza o período de aulas, do período de exames e da sua classificação, para evitar que a partir de meio de Maio isto se assemelhe a uma razoável barafunda, com professores sobrecarregados e alunos já em espírito de férias.

Seria simples.

  • Aulas do Ensino Básico (e porque não do Secundário?) até à primeira semana de Junho ou, por motivos simbólicos, até 9 de Junho, sendo o dia 10 ainda feriado.
  • A semana seguinte com exames para os 4º, 6º e 9º anos.
  • Duas semanas seguintes para classificação dos exames, sem acumulação com outras funções.
  • Uma segunda época de exames, para recuperações, em meados de Julho e tudo resolvido antes do final desse mês.

Parece-me que isto evitaria muita e desnecessária sobreposição de tarefas e actividades.

Mas, repito, isto é a opinião de alguém a quem falta uma visão mais alargada de todo o “sistema2, algo que só está ao alcance de quem não tem de fazer nada disto e apenas assinar despachos.

 

Português 41 | Prova [Caderno 1 - Caderno 2 ] – Critérios de classificação Critérios adaptados

Português 61 | Prova Critérios de classificação Critérios adaptados

A gramática vale há vários anos 20%, saiam muitas ou poucas perguntas… Se saírem menos perguntas até é pior, porque cada erro desconta mais.

No exame do 6.º ano houve pouca gramática e isso foi um alívio para os alunos

 

Não vi ainda a do 4º ano (o IAVE demora cada vez mais a disponibilizá-las no site…), mas disseram-me que era acessível e nada comparável com a do ano passado, em que alguém perdeu claramente a noção do ciclo que estava a avaliar.

No caso da prova do 6º ano, que vi meio de passagem, pareceu-me mais ou menos adequada, embora a parte da gramática me pareça ter sido feita por alguém que eu caracterizaria como “picuínhas” ou então que, se fosse a avaliar um arquitecto, em vez de avaliar se ele sabe alguma coisa sobre a resistência dos materiais, sobre o enquadramento legal das edificações, sobre as regras das instalações eléctricas, sobre integração paisagística, etc, preferisse avaliar o gosto estético na escolha dos ladrilhos da arrecadação ou as preferências em termos de altura dos rodapés.

Só assim se entende que das funções sintáticas apenas tenha aparecido o nóvel complemento oblíquo, das classes de palavras nada de nada e dos verbos o modo condicional. É como aquelas pessoas que, estando a sala por limpar, se preocupam apenas com em espanejar a teia no cantinho do lado nascente.

Vá lá que, na última aula de revisões, eu decidi revisitar aquilo que achava menos natural surgir numa prova que, de ano para ano, deveria ter alguma coerência nas prioridades do que avalia. E claro que me disseram… “então, professor, aquilo tinha apenas 10% de hipóteses de aparecer?”

Quanto ao texto literário, foi interessante a escolha de Urbano Tavares Rodrigues.

… a enviesar as leituras ou as práticas.

O que está em jogo nos exames

Há coisas que devem estar para além das asneiras dos ministros que passam ou da paralisia conceptual de quem ou não quer exames ou diz que centra a vida (escolar) nos exames.

Como é óbvio… os exames são apenas um momento nessa e dessa vida escolar, mas parecem ainda despertar demasiados traumas a demasiada gente crescida.

A miudagem, essa, vai encarando as coisas com a naturalidade de quem vê o mundo como algo em movimento…

… enquanto a “autonomia” e a “descentralização” se traduzir na concentração dos alunos para fazer os exames nas escolas-sede.

Directores dizem que os exames do 4.º e do 6.º ano vão fechar as escolas aos restantes alunos

Pela primeira vez, os alunos fazem os exames finais do 1.º e do 2.º ciclos nos mesmos dias, segunda e quarta-feira, ainda com as actividades lectivas a decorrer.Os directores dizem que na maior parte das escolas será impossível acolher os estudantes do 5.º, 7.º, 8.º e 9.º anos. Os pais protestam.

Os pais protestam?

Eu sou pai, irei coadjuvar num dia e vigiar no outro e a petiza sem aulas. A mãe também irá vigiar. Não há vóvós por perto…

Mas não é por isso que protesto.

É por causa da imensa hipocrisia de dizerem que tudo se concentra nas escolas-sede por razões técnicas quando é apenas por desconfiança.

Quase me parece um plano, com algum sentido, para implementar – por exemplo – um teste de Inglês com origem externa ao nossos sistema de ensino.

Neste caso, por sua vez, é capaz de ser uma forma de gerar desigualdades… em especial quando chegar a altura de fazer testes ou exames generalizados para todos de um ano para o outro.

O que se estranha nisto é a ausência de uma lógica de acção comum a várias iniciativas na mesma área do currículo do Ensino Básico. Obriga-se de forma generalizada o que é acessório e gradualiza-se o essencial.

Pub7MAi14

Público, 7 de Maio de 2014

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