Citações


E já agora, só para que conste, ficam aqui as palavrinhas de Carlos Moedas, quando ainda não era secretário de Estado, escritas num blogue em 2010. É longo, mas vale a pena: “No caso da dívida pública [...] se Portugal quisesse voltar aos níveis de dívida pública de 2007 [...] teria de apresentar um superavit primário das contas públicas (antes de juros) de 6% ao ano durante cinco anos ou de 3% ao ano durante dez anos. Alguém acredita que estes cenários são possíveis a curto ou mesmo a médio prazo? Eu tenho muitas dúvidas, e por isso só nos resta (a nós e a outros) o possível caminho da reestruturação da dívida. Ou seja, ir falar com os nossos credores e dizer-lhes que dos 100 que nos emprestaram já só vão receber 70 ou 80.”

Moedas sabia (e ainda sabe, claro) que “este é um caminho árduo e complicado, a tal parede de que tanto se fala mas que nos permitiria começar de novo. A austeridade é necessária e urgente, mas se mantivermos os níveis actuais de dívida dificilmente conseguiremos crescer a níveis aceitáveis [...] e se não crescermos morremos”. Se Moedas sabe isto, os idiotas inúteis talvez não.

… citemo-lo a preceito e com propriedade e não usando citações em defesa de escolas livres operárias para fingir que ele fala de escolas integradas grupos económicos ou confessionais e disfarçando isso com a “liberdade”:

Universale non vuol dire assoluto. Nella storia niente vi è di assoluto e di rigido. Le affermazioni del liberalismo sono delle idee-limiti che, riconosciute razionalmente necessarie, sono diventate idee-forze, si sono realizzate nello Stato borghese, hanno servito a suscitare a questo Stato un’antitesi nel proletariato, e si sono logorate. Universali per la borghesia, non lo sono abbastanza per il proletariato. Per la borghesia erano idee-limiti, per il proletariato sono idee-minimi. E infatti il programma liberale integrale è diventato il programma minimo del Partito socialista. Il programma cioè che ci serve a vivere giorno per giorno, in attesa che si giudichi giunto l’istante piú utile. (Tre principi, trei ordini, 1917, que se pode encontrar nesta versão dos Scritti Politici)

Avançando um pouco nesta divergência. A “liberdade” como ideia-limite esgota-se quase em si mesma e os liberais d’agora acham que o mercado trata do resto. A liberdade como “ideia mínima” parte da liberdade para tentar construir uma sociedade mais justa, em que a “liberdade” não é um cheque em branco para os predadores económicos e sociais.

O desejo de uma sociedade livre e justa não é uma questão de esquerda ou direita, nem sequer algo do Direito Natural, construção teórica divertida e tão conjuntural quanto aquelas que visa criticar.

O desejo de uma sociedade livre e justa não é uma questão de mais ou menos mercado, de mais ou menos Estado. É uma questão de decência humana, que podemos ver defendida de forma exemplar por, penso que estamos de acordo, Jesus Cristo, há quase 2000 anos.

Pessoalmente, tendo a pensar que a nostalgia representativa não passa de uma doença infantil da democracia. Afinal, a presunção de representatividade constitui meramente uma ficção, benéfica porque destinada a viabilizar a coexistência pacífica dos elementos heterogéneos e até antagónicos que formam uma comunidade de cidadãos. Só por milagre nos poderíamos rever na classe política em geral e nos governantes em particular, como se antes do acto eleitoral eles tivessem estabelecido connosco o compromisso formal de adoptarem uma certa orientação política bem definida. Mas não acontece assim; o desapontamento constitui um ingrediente inevitável de todo o envolvimento na coisa pública, que, no entanto, deveria ser vivido com naturalidade e não como uma frustração dolorosa. E um módico conhecimento da história deveria precaver-nos contra ambições de autenticidade que desembocam em regimes tirânicos e assassinos.

Existe, porém, um problema real: um abismo separa as promessas de mundos e fundos, em que poucos verdadeiramente acreditam, e a quebra nítida, descarnada de um positivo, claro e reiterado compromisso eleitoral. Uma tal quebra constitui uma autêntica fraude eleitoral. Que me lembre, esta degenerada tradição foi inaugurada por Durão Barroso, em 2003, quando fez do “choque fiscal” a principal bandeira da sua campanha, para em vez disso aumentar os impostos assim que ascendeu ao Governo. Sócrates seguiu-lhe o exemplo, decretando um agravamento fiscal depois de uma campanha em que prometera explicita e solenemente o contrário. Passos Coelho também prevaricou: ciente de que teria de governar segundo as ordens da troika, falou e prometeu como se o país continuasse livre e soberano. O que Barroso, Sócrates e Passos geraram não foi uma mera nostalgia representativa, que faz sorrir os mais cépticos, mas sim a desconfiança fundada e generalizada de quem se sente, literalmente, defraudado. Isto sim, ainda pode dar cabo da democracia.

FP

Fonte: FunçãoPublica1869.

Claro que os assessores e consultores não se sentem funcionários. São Algo mais.

Liberals

“Stop the Madness,” Interview with Rupert Cornwell, Toronto Globe and Mail (6 July 2002)

(mais informações e continuação da citação aqui)

… mas o nosso grande economista, outrora PM, agora PR, parece que, tal como os seus sucessores, só descobriu(ram) isto na última esquina do tempo.

E até houve tradução portuguesa e tudo.

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Robert Reich, The Work of Nations, 1991, p. 3.

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Dino Buzatti, “A Epidemia” in A Derrocada da Baliverna, p. 190.

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Público, 23 de Novembro de 2013

Debate

Daqui.

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(…)

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Alfredo Marvão Pereira (2013), Os Investimentos Públicos em Portugal, pp. 25 e 100.

Também eu tinha bebido profundamente do elixir que prometia uma solução rápida para problemas intratáveis. Também eu tinha saltado para bordo do comboio, festivo e engalanado, celebrando o poder da responsabilização, dos incentivos, dos mercados. Também eu tinha sido cativada por estas ideias. Que prometiam acabar com a burocracia, assegurar que as crianças pobres não eram negligenciadas, dar poder aos pais pobres, possibilitar que as crianças pobres escapassem às escolas falhadas e acabar com a disparidade de resultados (achievement gap) entre ricos e pobres, pretos e brancos. Testar permitiria fazer brilhar um holofote sobre as escolas com mau desempenho e a escolha criaria oportunidades para os alunos pobres partirem para escolas melhores. Tudo isto parecia fazer sentido, mas havia poucas evidências empíricas, apenas promessas e esperança. Eu queria partilhar a promessa e a esperança. Eu queria acreditar que a escolha e a responsabilização produziriam grandes resultados. Mas ao longo do tempo fui persuadida pelas evidências acumuladas que as últimas reformas não pareciam estar à altura das suas promessas. Quanto mais eu via, mais perdia a fé. (Diana Ravitch, Op. cit, 3-4)

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Diane Ravitch, The Death and Life of the Great American School System, pp. 1-2.

Pois… o problema é quando se passa da teoria para a prática e se percebem as consequências concretas do que se defendeu sem ter em atenção a realidade.

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Paul Auster, Relatório do Interior, p. 44.

Dizem que quem não sente ou é filho de má gente ou tem a consciência dormente.

:-)

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(…)

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Peter Oborne, The Triumph of the Political Class, pp. 176, 178.

 

David Byrne, no Actual de hoje sobre a malta que fotografa os concertos em vez de os ouvir e (vi)ver.

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Já tenho o Expresso e vou manter o prometido de não promover o MST à custa dos profes, mas não posso deixar de fazer o fact-checking que a imprensa nacional não pode fazer decido à crise. E porque sei que as pedradas numéricas de MST raramente são rigorosas quando se trata de professores (não esqueçamos aquela da remuneração pela classificação dos exames).

Desta vez trata-se de uma citação indirecta de Vasco Teixeira, o presidente da Porto Editora:

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MST refere-se a uma longa entrevista, publicada na Notícias Magazine de 16 de Junho de 2013, na qual o que é afirmado é o seguinte, na página 46.

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Vamos esquecer que Vasco Teixeira apresenta números ligeiramente diferentes, divergências de pormenor que não percebo se é incompetência, desleixo ou estratagema do cronista para centrar as críticas no acessório. Quanto à incompetência ou desleixo, cumpriria ao seu empregador preocupar-se com a falta de credibilidade do seu cronista doirado, sendo aconselhável arranjar alguém para evitar este tipo de imprecisões perfeitamente escusadas.

Concentremo-nos em outros factos, hard facts, indesmentíveis, que MST deturpa, distorce ou, pura e simplesmente, acha de escasso interesse citar com rigor

  • Vasco Teixeira fala num intervalo de tempo de quase 30 anos (1984-2013) para a redução do número de alunos e não de 10.
  • Vasco Teixeira refere fala apenas no número de alunos no 1º ano e não no “mercado nas escolas” que se reduziu na base, mas prolongo desde 1984 com o aumento da escolaridade obrigatória para 9 e 12 anos.
  • Vasco Teixeira não atribui a redução do mercado editorial nas escolas apenas à redução de alunos mas também à questão do reaproveitamento dos manuais escolares.

São três coisas em que MST deturpa, distorce ou omite o que o seu citado efectivamente afirmou.

Como é habitual, por mais que se demonstre a verdade, MST ignorará, não se corrigirá ou se o fizer acompanhará essa correcção com meia dúzia de parágrafos avinagrados.

Como é habitual, a direcção do Expresso fechará os olhos a isto e a administração encolherá os ombros.

Como é habitual, há quem seja muito bem pago para escrever diatribes pessoais, disfarçadas de análise com factos truncados.

Como é habitual, a culpa será da corporação dos professores, esses malvados, que gostam de algum rigor.

O trauma é muito grande. As comparações são do mais disparatado que se pode arranjar.

Não contesto que as greves, por natureza, causem incómodos a outrem—ou não fariam sentido. Mas há limites para tudo. Limites de brio profissional: um cirurgião não resolve entrar em grave quando recebe um doente já anestesiado pronto para a operação; um controlador aéreo não entra em greve quando tem um avião a fazer-se à pista; um bombeiro não entra em greve quando há um incêndio para apagar. Eu sei que isto que agora escrevo vai circular nos blogues dos professores, vai ser adulterado, deturpado, montado conforme dê mais jeito: já o fizeram no passado, inventando coisas que eu nunca disse, e só custa da primeira vez. Paciência, é isto que eu penso: esta greve dos professores aos exames, por muitas razões que possam ter, é inadmissível. (Expresso, 15 de Junho de 2013, p. 07)

Não foi uma ou duas vezes que MST adulterou factos sobre a situação profissional dos professores. nesta mesma crónica faz isso, imputando baixas psicológicas a professores a quem não apetece dar aulas. Em tempos adulterou a remuneração pela correcção de exames mas não achou por bem desculpar-se, apenas lançando uns remoques.

MST não gosta de professores, em especial os que sejam como ele gosta de se apresentar, aguerridos e independentes.  Dos professores ele gosta se forem de tipo missionário, cordatos, amochadinhos… no fundo, entre ele o Passos Coelho as diferenças são nulas, como entre ele e os capatazes (e candidatos a) dos interesses privados neste sector.

Uma última coisa: neste blogue não precisa de se adulterar qualquer prosa de MST porque ela se avilta a si mesma sempre que desrespeita os professores, generalizando palhaçadas.

 

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P. 277.

Convém esclarecer alguns equívocos. Em primeiro lugar, não há uma relação necessária entre melhores políticos e melhores salários. Parece incrível mas é verdade. A prova está na decadência do nível intelectual e profissional dos dirigentes portugueses em geral. Quem se recordar da Assembleia Constituinte, onde um deputado mal ganhava para comer, não pode ter condescendência com a Assembleia da República, onde o número de burros, íguaros [sic, deveria querer dizer "ígnaros"] e safados aumenta de forma muito esquisita de legislatura para legislatura. Em segundo lugar, também não há uma relação necessária entre políticos mais bem pagos e políticos mais sérios. O facto só é ilógico à primeira vista. Falamos de quantidades no primeiro caso e de qualidades no segundo. Em tese, um pobre pode ser definitivamente honesto e um rico pode ser irreparadamente corrupto. (…) Basta olhar para os governos. Não é certo, antes pelo contrário, que a corrupção tenha diminuído à medida que os salários ministeriais subiram; é mesmo possível que a grande corrupção tenha aumentado.

4 de Maio de 1990

Bons velhos tempos em que os princípios davam certezas e não era preciso ajoelhar a quem já se chamou pior do que maometano ao toucinho.

Na terça-feira, Cavaco Silva cedeu a uma tentação trágica. A entrevista que deu à Primeira Página da RTP foi certamente uma das maiores vergonhas do jornalismo português. É indiferente saber se os assessores do Primeiro-Ministro deram ordens directas ou indirectas aos entrevistado[re]s. Vamos ser ingénuos e admitir que não deram. Então tem de haver uma explicação para o facto dos jornalistas se prestarem àquele papel de estúpidos e ignorantes, indigentes e incompetentes, cabotinos e sabujos. A explicação ainda é pior do que o zelo dos assessores. Se os jornalistas da televisão são mais cavaquistas do que Cavaco, e são a tal ponto que negam o profissionalismo, é porque não sentem a liberdade de dizer não e pensam que só fazem carreira quando obedecem e vergam. Em suma, é a própria ordem laranja que os torna escravos mentais do poder instituído.

(…)

O País inteiro viu esses jornalistas seguirem o princípio do preconceito, pois cada crítica que se atreviam a murmurar não era do senso comum nem da inteligência, era sempre «o que diz a oposição». O país inteiro viu esses jornalistas dar a deixa, limitando-se a ordenar perguntas mecânicas e inofensivas para Sua Excelência dizer do seu alto pensamento só sobre o que lhe convém pensar, como estradas, empregos, drogas, abonos, até, imagine-se a independência da televisão. O país inteiro viu esses jornalistas com a lei da rolha, arrumando em meio minuto, questões interessantes como as listas sociais-democratas, os lobbys dos senhores barões, a estratégia de coligações e até o famoso caos de que simplesmente se esqueceram. O país inteiro viu esses jornalistas sistematicamente incapazes da réplica, permitindo ao primeiro-ministro dar lições parvas sobre impostos, citar nomeações de técnicos especializados socialistas e centristas e dizer que sempre defendeu dois canais públicos, quando o país talvez preferisse ouvir o primeiro-ministro explicar o terrorismo fiscal que pratica, os militantes laranja que nomeia para todo o lado e a promessa à Igreja que fixou por cumprir. O país inteiro viu esses jornalistas apavorados, cheios de salamaleques cada vez que tinham de fazer de conta que estavam a fazer perguntas difíceis.

Ahhh… o regresso a 7 de Junho de 1991… a esse tempo quase perdido em que havia gente com convicções a criticar o jornalismo subserviente, medroso e vulnerável a pressões e a notícias plantadas.

Na altura “esses jornalistas” eram… Artur Albarran (jornalista?) e Judite de Sousa.

O escriba era… :-)

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