Balanços


Os jornalistas estão desanimados com a falta de confronto mais aceso.

Aguarda-se reacção dos tarólogos, desculpem, politólogos.

… o nosso sistema de ensino é capaz de ter sido a única coisa a funcionar de forma menos má ao longo das últimas décadas.

Jovens de 21 anos têm três vezes mais escolarização do que os pais

Pelo menos, comparando com as economias, tem de muito longe um desempenho muito, mas mesmo muito mais eficaz.

Em jeito de balanço, muito resumido, e no qual até me esqueci de incluir o aumento da dimensão das turmas, como outro claro exemplo da defesa dos “interesses dos alunos”.

Mesmo a acabar o texto leia-se “os professores contarem apenas consigo mesmos”. Erro meu, má fortuna de não rever os textos à lupa.

PG 31Dez13

Público, 31 de Dezembro de 2013

 

… resta informá-lo ou ele perceber isso.

Na semana passada, numa avaliação por parte de jornalistas do Expresso que o acolhera como articulista residente surgiu como terceiro pior ministro (classificação baixo de 8 não dava sequer acesso a um exame nos meus tempos) de um Governo com nota abaixo de 10, apenas à frente do inenarrável Machete e do dúbio Aguiar Branco.

Hoje, no Público, o balanço destes dois anos e meio revela o ponto até ao qual Nuno Crato se afundou na sua incapacidade política e incompetência técnica para o cargo.

Algo que já várias vezes lamentei, pois nunca fui dos que o recusaram desde o primeiro dia por ser “de Direita”. Só que é impossível não ver como ao avançar pelas questões a resolver Nuno Crato foi falando a destempo, errando nas apreciações, sendo desastrado e desmentindo-se sucessivamente.

Pub31Dez13b

Não são balanços corporativos feitos por professores malvados. São balanços feitos no ambiente que sempre o recebeu de braços abertos, dando-lhe todo o espaço para explanar as suas ideias.

PISA2012K1Inesperados para alguns, não tanto para quem segue com mediana atenção a evolução das reformas educativas na Europa e não só, os resultados dos testes PISA 2012 chegaram quase a acabar o ano e foram como aquela bigorna dos Monty Python a cair em cima dos promotores da narrativa acerca das reformas educativas de sucesso.« e do fracasso do nosso sistema educativo, em especial das escolas públicas.

Ficou à vista de todos, mesmo dos que fingiram perceber outras coisas, o colapso dos resultados dos alunos dos países que aqueles que fazem o séquito do actual MEC em defesa da “liberdade de escolha” apresentavam como modelos maiores de sucesso nos testes internacionais que o próprio Nuno Crato há pouco tempo exaltava como a melhor maneira para comparar a performance dos sistemas educativos.

Mantendo eu reservas sobre alguns aspectos dos testes de 2009 entre nós, não posso deixar de sublinhar que, apesar da estabilização dos ganhos em 2012, o desempenho dos alunos portugueses teve uma das melhores evoluções da última década e muito melhor do que a dos alunos suecos, australianos, neozelandeses e de outros origens que tanto nos quiseram apresentar como exemplos a seguir.

Estamos ainda abaixo da média? Sim, mas somos dos que mais progredimos! Os resultados poderiam ser melhores? Nem por isso, atendendo ao contexto socioeconómico dos nossos alunos e ao atraso endémico que vivemos ao longo do século XX.

Podem atribuir-se responsabilidades directas a este ou aquele governante, a esta ou aquela reforma específica? Não, pois os resultados de alunos com 15 anos e 9 de escolaridade não se explicam por reformas a 6 meses de distância, ou mesmo a 2-3 anos. São o resultado acumulado de um trabalho que se inicia 9 anos antes e que dificilmente permite saltos repentinos a meio ou no final do trajecto.

Foram resultados obtidos com aquele sistema de ensino e aqueles professores que tanta gente andou preocupada em menorizar e ofender? Sim!

Para vergonha de muitos escrevinhadores e tecladores de ocasião, especialistas instantâneos em Educação, com doutoramento honoris causa no caso dos que procriaram e têm filhos em idade escolar, os testes internacionais que tanto endeusaram (os PISA como os PIRLS e TIMMS) surgiram a provar o erro das suas teorias de algibeira.

Só que, infelizmente, quem está e tem estado no poder é crente nessas teorias e o que tem sido feito no último punhado de anos é contra´rio a todo o bom senso e às evidências, colocando seriamente em risco os ganhos conseguidos.

Os vários volumes relativos aos resultados e respectivas análises dos PISA 2012 deveriam ser leitura de cabeceira para quem quer mesmo manter o desempenho dos alunos portugueses em trajectória ascendente. Claro que devem ser colocados de lado por quem anda apenas à cata de negócio.

Four tough questions about charter schools

(…)

It is time to ask some hard questions. In the past six years, have charters:

1. Narrowed the gap in educational achievement by race and class, whether measured by test scores, high school graduation rates, college completion rates, or  more holistic measures?

2. Helped to stabilize and improve inner city neighborhoods and protect them from gentrification, displacement and demographic inversion (moving the poor out of cities into the suburbs)?

3. Created a stable force of talented committed teachers in inner city communities, many of whom live in the communities they teach in?

4. Helped reduce neighborhood and school violence or disrupt the school-to-prison pipeline in any important way?

If the answer to all or most of these questions is no (and it is), advocates for public education need to have an honest conversation with the civil rights community about charters, understanding the basis of community support for these schools while respectfully pointing out how real-estate interests, profiteers and ambitious politicians have taken what began as an experiment and turned it into a scorched-earth policy that may well be doing more harm than good.

In all too many cities — New York City, Chicago, Newark, Detroit, Philadelphia– the creation of charters during the Obama presidency has not been a slow,  incremental policy crafted and implemented with careful community consultation, but rather a dramatic transformation of the educational landscape made possible by the mass closing of public schools that have served communities for decades, often over the protests of neighborhood residents.

The sheer number of these closings — 168 in New York City over the last four years, 47 in Chicago in the last year — as well as the speed with which they have occurred, have been unprecedented in the history of U.S. education.. The result has been destabilization of neighborhoods, weakening of teachers unions, and mass firings of veteran teachers — many of them teachers of color — all done with the support of the U.S. Department of Education as part of its Race to the Top policy. Though these measures have been justified as advancing educational opportunity in inner-city communities — and have been indeed promoted as a “civil rights” measure by Obama administration officials — we need a careful evaluation of the results on students, families and communities before closings and charter formation on a grand scale are brought to other cities.

To date, they have not produced the results they promised.

2013, o ano triste

Isto começa sempre da mesma forma…uma negociação muito longe do escrutínio público. O acordo entre as partes para estabelecer um novo diploma que parece pouco diferente do anterior e a remissão dos detalhes da implementação para decretos regulamentares, normativos ou portarias a publicar em data oportuna e disfarçada.

Alega-se que nada se passou de muito relevante, apenas se modernizando regulamentações que estavam desactualizadas. Mas se assim fosse como se explicaria o foguetório que houve em alguns “círculos” quando o decreto lei 152/2013 de 4 de Novembro viu a luz do dia em letra de diário republicano?

A verdade?

Do que se trata é da preparação para a introdução daquilo que se pretende mesmo modificar, criando assim a justificação legislativa para o fazer a partir de um parágrafo, de um artigo, de um detalhe legislativo que passa a permitir algo mais do que antes permitia.

Foi o que se passou com a publicação de um novo Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo  (Estatuto do Ensino Privado e Cooperativo) cujo longo preâmbulo só é necessário quando se quer justificar algo que à partida não deveria carecer de justificação ou quando se quer levantar poeira em torno do essencial e que é a transferência de uma fatia maior do Orçamento para a Educação Básica e Secundária para a mão de operadores privados.

Tudo o resto é treta.

Assim como é treta que se pretenda que esta medida se destina a melhorar a capacidade de escolha dos alunos mais desfavorecidos ou para aplicar de forma mais racional os dinheiros públicos. A verdade é que a medida se destina à introdução ou alargamento de medidas destinadas a favorecer o financiamento indirecto do sector privado do “mercado da Educação” num contexto de aperto orçamental que aconselharia a absorção dos alunos do ensino privado com contrato de associação por uma rede pública que se diz estar com excesso de meios humanos para os alunos que tem. Racionalizar os recursos seria aproveitar os meios que o Estado já tem e não ir contratar fora dele, à moda das consultorias jurídicas.

Para além de que já temos uma acumulação de evidências empíricas acerca dos efeitos de algumas das medidas associadas à liberdade de escolha e aos modelos repetidamente usados no argumentário dos seus defensores, dentro e fora do Governo: quebra global do desempenho médio dos alunos, aumento da desigualdade, segregação sócio-educacional.

Ahhhh… mas existe o argumento filosófico-político da Liberdade. Que esta é uma medida destinada a promover a Liberdade na Educação. É sempre comovente ver tamanha preocupação com a Liberdade num dado sector da governação quando ela é negada diariamente à maioria da população, desde logo a Liberdade para ter meios financeiros e não só para poderem fazer tantas outras escolhas essenciais a uma vida digna.

O que está em causa não é qualquer especial liberdade, mesmo com letra minúscula. O que está em causa é preparar o terreno para atribuir uma proporção maior de dinheiros públicos a operadores privados que apoiaram alguns dos actuais governantes na campanha eleitoral de 2011, esperando a devida contrapartida que tem tardado.

Defesa do “interesse público”?

Só se for como anedota…

Outro momento marcante do ano foi a greve dos professores  às avaliações e aos exames, em grande parte resultante das normas para a distribuição do serviço lectivo para o ano de 2013-14, publicadas a 11 de Junho (DespNormat7de2013).

Seguiu-se um período em que a greve ultrapassou todas as expectativas, desde ministério a sindicatos, incluindo opinião pública, publicada e por publicar.

A coisa ameaçou um bocadinho o status quo pasmacento e era essencial que o pântano se recompusesse.

A 24 de Junho foi atingido um acordo (AtaNegocial), que uns acharam bem e assinaram (FNE) e outros acharam quase bem e não assinaram mas desconvocaram a greve (tenho pena por não ter gravado esta ida conjunta á RTP Informação).

No dia 10 de Julho foi publicado novo despacho normativo, teoricamente com o resultado do acordo negociado (DespNormat7Ade2013) mas que não correspondia ao que tinha sido publicamente anunciado. Trocaram-se acusações, fizeram-se ameaças, requereram-se as gravações das negociações, mas… a verdade é que nada se soube do que efectivamente se passou nas negociações (aquela acta é uma anedota), se alguém enganou alguém, se alguém se deixou enganar ou… se os enganados foram, de novo, apenas os do costume.

Não fosse o que se passou a 18 de Dezembro, este teria sido o episódio mais triste do ano em termos de Educação Não-Superior.

Antes de mais o relatório relativo ao Ensino Vocacional (RelEnsVocacional), pseudo-panaceia que se pretendeu generalizar no presente ano lectivo. O relatório foi divulgado a pedido do grupo parlamentar do PCP e é uma coisa ao nível de um trabalho de licenciatura, com a curiosidade de ser feito por uma equipa fortemente marcada por defensores do projecto, ligados directamente à sua implementação.

As evidentes carências (método de escolha e contexto das escolas envolvidas, comparação com os dados de experiências internacionais, inquéritos anedóticos, bibliografia minimamente adequada e apresentada segundo regras básicas de um trabalho deste tipo) do relatório parecem apropriadas a toda esta apressada e atrapalhada “experiência-piloto”.

Fica aqui como exemplo de 2013 como um ano que, na Educação, foi pleno de disparates e aplicação abusiva de medidas com deficiente preparação e avaliação. O que se vai conhecendo do que se passa em muitas escolas desde Setembro é muito complicado, aguardando-se que tipo de relatório será apresentado daqui a um ano.

Nem sequer falo da defesa institucional a cargo do SE Grancho, apenas mais um que mudou de posição logo que se chegou ao poder.

Falo da trincheira amiguista e da trincheira pragmática.

  • A primeira move-se por amizade a Nuno Crato, tem alguma representação na comunicação social, mas vai minguando. Defenderá a prova e a postura do ministro, demonizando os professores e a resistência à prova associando tudo à nefasta influência da Fenprof. Esquecerá que níveis de adesão acima de 90% significam a irrelevância absoluta da FNE e uma incapacidade total do MEC dialogar com os professores, tendo optado – como Maria de Lurdes Rodrigues – por usar @s director@s como elos de uma cadeira hierárquica que exige submissão em vez de adesão. Foi o que fez, por exemplo, José Manuel Fernandes hoje de manhã na SICN.
  • A segunda move-se por pragmatismo político e de bom grado prescindiria desde já de Nuno Crato se percepcionasse que isso seria vantajoso para o Governo. De forma mais ou menos explícita falará em erros de forma e de comunicação, mas elogiará a prova e os seus objectivos. será uma postura à Marques Mendes, que lamentará que uma ideia tão boa tenha sido aplicada de forma inábil. Deixará no ar a ideia de que Nuno Crato falhou de algum modo, embora estivesse cheio de boa intenções. Também aqui veremos um esforço enorme por colar toda a resistência à acção de Mário Nogueira e por insinuar que os professores não querem ser avaliados, apesar de serem os profissionais mais avaliados do país, certamente mais do que opinadores avençados por terem o cartão ou filiação certa.

E depois há ainda os idiotas militantes, mas esses andam acantonados em 2 ou 3 blogues.

Nuno Crato e o Governo por terem fracassado na realização de uma prova injusta e idiota e por terem aliciado muit@s director@s para se esquecerem que são professores e não meros elos numa cadeia hierárquica de modo a fazer entrar polícia nas escolas como se estivéssemos no tempo do outro senhor. Absolutamente vergonhoso e uma certidão de óbito para o actual MEC que, como uma das suas antecessoras, deve ficar até final do mandato para completar a sua obra, mas ficando também desde já disponível, em virtude dos evidentes serviços prestado à causa, para uma comenda ou uma recompensa à frente de uma qualquer fundação privada com forte posição do Estado nas nomeações. Acho justo como recompensa por um dos episódios mais tristes e lamentáveis da História da Educação em Portugal, e não falo apenas do pós-25 de Abril, incluindo o período de 74-76 em que muitos dos defensores desta prova já se tinham esmerado no disparate.

Ao lado, Maria Ferreira chorava convulsivamente: “Não acredito que passei por cima dos meus colegas que estão a manifestar-se por nós, que estão a defender-nos”. Dizia que” partir do momento em que um entra têm de entrar todos” mas garante que não se perdoará.

Duarte, um dos que estavam sentados no chão, dificultando a entrada aos colegas, também não tem vínculo, também não tem cinco anos de serviço, pelo que, não fazendo a prova, não se poderá candidatar a dar aulas para o ano. Passada a confusão levantou-se. “Ficar aqui, não entrar, foi talvez a decisão mais difícil da minha vida”, disse, não conseguindo continuar a falar. Chorava, também.

João Dias da SIlva e a FNE como rosto da UGT e Carlos Bigodes Silva que fracassaram de forma fragorosa no seu papel de muleta do Governo pois o acordo que assinaram só serviu para o MEC tentar operacionalizar de modo mais simples a prova. Se com 13.500 candidatos foi o que foi, o que seria com 40.000? A UGT/FNE foram, como tantas vezes, o parceiro ideal para que a derrota do Governo e do MEC fosse ainda mais vergonhosa. Aliás, a estratégia de dizer que assinavam o acordo mas estão contra a prova é de um ridículo atroz, ultrapassando mesmo o caso da Fenprof que não assinou o acordo de Junho mas mandou desconvocar a greve às avaliações. A FNE enquanto sindicato de professores é uma ficção, podendo ser encarada como aqueles directores que se sentem já “outra coisa” que não professores, aceitando lançar a polícia sobre estes.

Como figurantes de passagem, ficam ainda os esparguetes, os tais que aceitaram ir vigiar a prova. Não merecem qualquer adjectivação, porque deles nunca rezará a História. Não vale a pena perder qualquer tempo a qualificá-los.

Aulas dadas. 96% do total. Mesmo com greve e uma tarde em que a falta de água levou ao encerramento das aulas, que não foram numeradas.

Por vezes em evidente esforço. Não sei quantas delas eu próprio consideraria boas.

Understanding Disappointing Charter School Results

Performance report shows mixed results for charter schools in York City

Charter schools’ failed promise

In Michigan charter schools, results no better than other public schools

The charter-school lie: Market-based education gambles with our children

A 1 de Dezembro saem das escolas mais 1275 professores

Número de aposentados ainda está longe dos seis mil até final do ano prometidos pelo Ministério da Educação.

A lista de educadores de infância e professores dos ensinos básico e secundário que no dia 1 de Dezembro passam à situação de aposentados, publicada nesta quinta-feira em Diário da República, tem 1275 nomes. No total, estarão aposentados nesse dia 3394 dos 6000 que em Julho ainda se encontravam nas escolas e que o Ministério da Educação e Ciência dispensou de dar aulas neste ano lectivo.

Acentua-se o descalabro do PSD e a vitória do PS mais por aquela razão do que por outra, pois perdeu mandatos, percentagem e votos em relação a 2009.

Evidentes bons resultados da CDU que levaram ai detalhe engraçadoque  foi ouvir, no Eixo do Mal, certos comentadores (Clara Ferreira Alves, Pedro Marques Lopes) a elogiarem o povo português por canalizar o voto de protesto para o PCP, porque era “um partido do sistema”, responsável e muito organizado e não para novas forças ou movimentos de natureza imprevisível.

Entretanto, no Funchal, o jardinismo foi a enterrar com muitos, muitos anos de atraso.

EleiAut2013c

PS - Vitoriazinha.

PSD – Derrota evidente.

CDU - Ganhos evidentes.

CDS – Com a habilidade habitual, disfarçou e safou-se graças ao Porto.

Bloco – Continua a implosão.

Independentes – vitórias importantes para alguns proscritos dos aparelhos.

Outros – quem?

Para ir acompanhando os desenvolvimentos e cambalhotas. Sabendo-se que, desde já, todos ganharam e atingiram os seus objectivos.

Evolução dos resultados aqui.

Ensaio de 175.000 caracteres sobre Educação e Liberdade, acabadinho 48 horas antes do prazo para entrega, mesmo antes de me ter permitido o período de reflexão gastronómica

Só para quem diz que ando a escrever e a investir menos no blogue e tal, que só penso em comida.

É experimentar, em especial com 22 tempos lectivos, 6 turmas (2 PCA e 4 “regulares)”, 2 disciplinas diferentes, 2 anos diferentes,

Não há que ter rebuço em louvaminhar-me a mim mesmo quando tenho conhecimento de causa.

smile2

Como já ficou explicado aí para trás, o Carlos Patrão da Federação das Associações de Pais do Concelho de Oeiras teve a excelente ideia de reunir os candidatos à Câmara de Oeiras num debate sobre Educação na Escola Secundária da Quinta do Marquês, embora tenha em seguida tido a ideia, bem mais peregrina, de me convidar para moderar a coisa. E eu, como gosto sempre de acabar um dia de trabalho a meio da semana com uma sessão deste tipo com candidatos a autarcas, lá aceitei e fui. Foi coisa para começar perto das 21.30 e acabar já a chegar às 00.30.

E confesso tenho pena que em outras paragens não tenham existido iniciativas deste tipo, dinamizadas, por exemplo, pelo movimento associativo de pais.

Como moderador, a minha função era lançar alguns temas e atrapalhar moderadamente os discursos preparados e tentar que a coisa não se alongasse em excesso, embora com seis presenças confirmadas e a participação garantida à assistência a duração se tivesse tornado uma factor quase imprevisível.

Ainda como moderador não era minha função comentar o que ia sendo dito, excepto quando não conseguia mesmo resistir, pelo que me mantive firme e progressivamente menos hirto à medida que a transpiração aumentava e as horas passavam.

Passadas 24 horas, ultrapassado mais um dia de trabalho, achei por bem fazer o meu comentário à sessão e à intervenções das candidaturas, sendo que em três casos estiveram presentes os cabeças de lista (Bloco, CDU e PSD) e em outros três estiveram representantes das candidaturas por problemas de agenda dos candidatos (CDS, IOMAF e PS).

Para lançar a conversa, usei as declarações de Isaltino Morais transcritas nesta notícia para questionar se está tudo feito ou se há ainda muito para fazer, tendo aproveitado para recordar que Oeiras – apesar dos sucessivos destaques como concelho com alguns dos melhores índices de qualificação académica da população – é o concelho com a pior cobertura pública do pré-escolar (apenas 20% do total) de todo o país.

Numa segunda intervenção, após a primeira rodada de declarações dos candidatos, apresentei três áreas concretas de intervenção e o que cada candidatura tem a apresentar a esse respeito: redução das assimetrias existentes no concelho, falta de uma rede de transportes escolares independente da rede de transportes públicos e situação da Educação Escolar.

Passo agora a uma apreciação muito holística e pessoal das intervenções (conjunto de três por cada interveniente).

Moita Flores (PSD) – fez apenas a primeira intervenção da sua candidatura, por motivos de agenda, tendo-se prolongado muito em considerações de ordem muito geral e vaga, sublinhando muito a questão dos tempos livres e falando na necessidade de “democratizar o direito ao acesso”, seguindo-se a sua proposta de criar (?) o Conselho Municipal de Educação (no prolongamento do debate percebi que o CME de Oeiras não reúne desde 2008, sendo ridículo no concelho que foi presidido pelo autor da legislação das Cartas Educativas), de reforçar as AEC (Inglês, natação) e de criar uma bolsa de livros escolares gratuitos até ao 9º ano, sendo esta a proposta mais polémica. No resto do debate foi substituído por António Seixas, director do agrupamento de escolas de Carnaxide/Valejas, com ganhos de clareza do discurso e da concretização de medidas.

Carlos Gaivoto (Bloco de Esquerda) – apresentou um discurso muito teórico, recorrendo a citações diversas (Sérgio Niza, António Nóvoa), dissertando sobre o sentido da Educação e insistindo muito – como se de um programa para o caso específico de Oeiras – no conteúdo da Carta das Cidades Educadoras, visto não ter Oeiras aderido à Rede das Cidades Educadoras. Padeceu daquele problema muito próprio a alguns sectores do Bloco sempre que falam de Educação: muito boas intenções, muitos conceitos fofinhos, uma ligação à terra muito particular (neste caso ao Bairro dos Navegantes), mas pouco mais. Talvez o discurso mais teórico e ideológico da noite.

Daniel Branco (CDU) – a primeira intervenção a descer mais ao plano da realidade mais terrena, mas muito formalista de início ao descrever as competências das autarquias de acordo com a novíssima lei 75/2013. Em seguida, e na tradição dos autarcas da CDU com um bom conhecimento da realidade, norteou as suas intervenções e comentários por um grau de concretização de situações problemáticas existentes, em especial ao nível das assimetrias existentes na rede escolar. Adicionalmente, fiquei fascinado pela forma excepcional como foi tomando apontamento, com uma organização e uma grafia que fazem parecer os meus rabiscos ainda pior do que já parecem. Intervenção muito equilibrada e com alguns toques de humor, por exemplo ao nível da clara admissão que não espera ganhar.

Domingos Santos (IOMAF) – em substituição de Paulo Vistas que tinha reunião plenária da Câmara,director da Escola Secundária Sebastião e Silva e presidente em exercício da Assembleia Municipal, falou da obra feita e dos quase 18.000 alunos distribuídos pelas escolas do concelho. afirmou que a autarquia não se pode substituir à autonomia das escolas nem às funções do Estado central. Apresentou cálculos para combater a proposta de manuais gratuitos apresentada pelo PSD. Foi uma intervenção contida, apesar de reactiva, que me espantou pelo espanto que pareceu revelar em relação aos dados que apresentei sobre a fraquíssima oferta pública ao nível da rede pré-escolar. Na intervenção final sublinhou o desejo de requalificar a rede escolar do 1º ciclo.

Pedro Lara (PS) – em representação de Marcos Sá, fez uma intervenção aguerrida, apresentada como sendo em defesa da escola Pública e evocando o legado do PS nessa matéria e de medidas como a introdução das AEC e as obras da Parqus Escolar, atribuídas explicitamente a Maria de Lurdes Rodrigues, o que provocou em mim a primeira ligeira reacção de pouca moderação. apresentou a ideia de alargar as AEC ao 2º ciclo e de promover actividades relacionadas com a natação. Reconheceu a falta de transportes escoalres e a má oferta pública ao nível do pré-escolar. Numa posterior intervenção comentou como os alunos com NEE no concelho (cerca de 800 numa população escolar perto dos 18.000 alunos) parecem desaparecer progressivamente do 1º ciclo para o Secundário por falta de acompanhamento.

Magda Dias (CDS) – em representação de Paulo Freitas do Amaral, fez uma intervenção muito viva e crítica dos colegas de mesa e de algumas das suas proposta, assumindo-se como oposição às iniciativas despesistas, em especial as relacionadas com a natação e não só 8ao que lhe foi respondido por Pedro Lara que o mesmo se passava em Cascais com um vereador do CDS). No estilo e em alguns momentos no conteúdo parecia estar ali a representar a facção aguerrida do Bloco, insurgindo-se contra as PPP locais e os interesses instalados em torno das empresas municipais. Fez a defesa de algo que me soou a CAO’s – Centros de Acompanhamento Ocupacional (ou parecido) – e que me pareceu algo muito próximo, na apresentação teórica, de umas novas oportunidades com menos diplomas e mais trabalho

Nas intervenções do público foram mais frequentes as preocupações com a situação das AEC, as possíveis parcerias entre a autarquia e as associações de pais, a falta de oferta pública ao nível da rede pré-escolar e as questões relacionadas com a Educação Especial, neste caso através de uma participação concisa de David Rodrigues da Pró-Inclusão.

Excluo deste resumo menção mais detalhada às trocas de opiniões particulares, em especial após o debate, acerca de assuntos tão interessantes como quem deve representar as escolas nos Conselhos Municipais e até que ponto os directores interiorizaram que são eles o rosto único das escolas e o legado de Maria de Lurdes Rodrigues e da sua Parque escolar, que deixou a rede de escolas públicas a 2 ou 3 velocidades (opinião minha).

IMG_2339

Página seguinte »

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 832 outros seguidores