Não posso já com ervas nem com árvores;

Prefiro os lisos, frios mármores

     Onde nada está escrito.

 

Meu gosto da paisagem fez-se escuro;

Nenhures é o lugar que mais procuro

     Como homem proscrito.

 

Eu bem sei: A verdura! A flor! Os frutos!

Mas não posso passar de olhos enxutos,

     Meu campo verde aflito.

 

Porventura cegaram os meus olhos

Porque há nos silveirais flores aos molhos

     – Tanta flor me tem dito.

 

Mas eu bem sei que movediços lodos

Que são o chão, as lágrimas de todos,

     Meu coração contrito.

 

Eu não sei se amanhã será meu dia;

Recolho-me furtivo na poesia,

     Incerto o chão que habito.

 

Ai de mim! Ai de mim, nuvem medonha!

Os homens conheci, bebi peçonha,

     E é por isso que grito.

[Afonso Duarte]  Grito

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