Este é daqueles temas que muita gente que frequenta o blogue achará despropositado. Eu sei disso e muitas vezes evito. Mas a custo, porque há sempre aquela faceta que me puxa a veia e o teclado para a alcova e há coisas que são absolutamente sublimes na sua corriqueira e desprezível mundanidade.

Eu concretizo.

O ex-presidente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, é agora uma figura controversa, mas que fez um trajecto de sucesso durante décadas. Pelos vistos, todos sabiam que o homem era o que é, mas só agora passou a incomodar. E passou a incomodar por motivos que parecem ser justos (a confirmar-se a faceta de agressivo predador), mas também por outros que só lembrariam a maternas e moralistas figuras bragantinas (os seus hábitos sexuais).

Vejamos o caso recente de uma entrevista na Vanity Fair espanhola de um casal proprietário de um bordel belga e que a Lux desta semana reproduz no essencial com o conteúdo da peça online com o título “Mi orgia con Dominique Straus Kahn”.

Resumindo e baralhando o homem teve relações sexuais quatro vezes com uma profissional de sexo durante meia hora, tendo usado para isso Viagra e sendo feito o pagamento de 500 euros pelo serviço prestado, acrescentando-se que a “festa sexual” terá durado hora e meia.

Ora, caramba que isto é triste.

É triste, antes de mais, porque mesmo um tipo de origens humildes e suburbanas, com escassa (para não dizer, apenas por vergonha, nula) experiência em bordéis europeus quanto eu tem de uma “orgia” uma ideia bem mais alargada do que meia hora de sexo pago com uma rapariga.

E é triste porque tudo me parece consensual e do foro privado do homem e do resto dos participantes a começar pela rapariga que “estava bem“, de acordo com a notícia.

Perante um não-caso destes, que a mim parece delicioso pela irrelevância (acho bem pior se foi verdade a investida sobre a funcionária do hotel norte-americano), acho que só existem alguns aspectos que convém esclarecer:

  • Numa perspectiva de esquerda, espero que a rapariga tenha, pelo menos em algum momento, tido a possibilidade de estar por cima, de modo a demonstrar que uma assalariada e trabalhadora precária pode dominar um representante do capitalismo neoliberal global. Consta que não foi bem assim, o que entristece a minha faceta esquerdista.
  • Numa perspectiva de direita, preocupa-me a questão da liberdade de escolha, pois não sei se estiveram garantidos todos os mecanismos de mercado necessários para que DSK pudesse fazer a melhor escolha e se lhe foi possível fazer alguma prospecção que permitisse aferir da melhor oferta qualidade/preço. Porque 500 euros por meia hora ou pouco mais, embora não sejam o topo da tabela para serviços deste tipo no mundo cosmopolita de DSK e afins, ainda implicam que o serviço tenha um certo nível. E preocupa-me ainda se houve alguma fuga ao fisco, pois sabemos como as finanças dos países europeus não podem perdoar uma evasão flagrante à declaração de rendimentos deste tipo.
  • Por outro lado, apraz-me perceber que alguém com os meios económicos de DSK tenha recorrido aos serviços de um bordel Low Cost, adaptando-se, portanto, aos tempos de crise que vivemos e não tendo preferido um bordel de luxo com tarefas bem mais elevadas.
  • Por fim, a minha compreensão para a postura da sua esposa, que continua a apoiar DSK e percebe-se porquê. Enquanto o homem anda a chatear profissionais do sexo, não a chateará a ela, para mais com cavalgadas alimentadas a Viagra que devem ser psicologicamente muito difíceis de suportar.

E pronto. Que a eurodeputada portuguesa Ana Gomes considere que DSK deveria estar num hospital a ser tratado é uma ideia por demais generosa, pois sabemos o quanto enfermeiras devidamente (des)fardadas são estimulantes para certos perfis fetichistas de homens de mais de meia idade (e não só).

Já agora, façam lá o favor de ler, no mínimo, os escritos de Catherine Millet sobre as suas experiências sexuais no mundo da elite política e cultural francesa (aqui e aqui, sendo que pelo menos o primeiro  tem edição nacional), a ver se percebem que isto são amendoins em comparação com…

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