O Dirigismo Sindical Docente

Tempos atrás, escrevia Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof: “Percebemos que já não havia margem de manobra para mais. E os aspectos positivos pesavam mais do que os negativos. Não ficávamos bem com a nossa consciência, tendo a possibilidade de servir os interesses de milhares e milhares de professores, de não aproveitar esta oportunidade” (Público, 08/01/2010). De que oportunidade  e de que interesses  de milhares e milhares de professores anunciava a boa-nova de Mário Nogueira, pergunto?

Quiçá por isso, dei comigo em vasculhar uma artigo da jornalista Helena Matos com o sugestivo título “Para que servem os sindicatos?” No essencial, relata o seu conteúdo o seguinte (salvaguardando a necessária actualização de dados): “Quando José Sócrates resolveu reenquadrar a relação do Governo com os sindicatos, foram revelados alguns dados, não muitos, mas os suficientes, para que a opinião pública percebesse que os sindicatos e respectivos dirigentes são uma extensão da administração pública e por ela devidamente sustentada: ‘Os 450 professores que estão destacados nos sindicatos representam uma despesa superior a oito milhões de euros. No ano lectivo passado, estavam destacados 1327 docentes (…) que custavam por ano 20 milhões de euros, segundo estimativa do Governo’, informava, em 2006, a agência Lusa” (Público, 21/10/2008).

Acontecendo que o vento do justo descontentamento dos professores não continua de feição para um sindicalismo arcaico, que se revê nas manifestações ruidosas das grandes massas operárias, importa fazer o retrato de uma actividade que continua, umas vezes, desorientada no rumo a seguir, outras vezes, com uma determinação de verdadeiro pombo-correio ao serviço de determinadas orientações políticas. Acresce, ainda, o facto de haver dirigentes sindicais que se perpetuam nos respectivos cargos, fazendo disso uma verdadeira profissão, embora evocando um espírito de sacrifício que ultrapassa a condição terrena para entrar no domínio de uma santidade merecedora, segundo eles próprios, do maior louvor por parte de ingratos que não compreendem a missão transcendente que unge um destino que perseguem como o caçador que corre atrás da lebre pelo simples prazer estético de a ver correr ágil pelos campos fora!

Merecem as bases sindicais, com o seu voto de uma fidelidade canina, uma crítica feroz, por egoisticamente obrigarem os dirigentes sindicais, manietados de pés e mãos, a um trono vitalício em tempos republicanos. Já é mais que tempo das bases sindicais deitarem para trás das costas um egoísmo tirânico, exigindo às respectivas cúpulas um sacrifício desumano de anos a fio nesses cargos, implorando-lhes: “Continuem nos vossos postos !”

Depois de muito instados, como quem concede a graça de um favor senhorial, chega, finalmente, a generosa cedência: “Está bem! Por esta vez (e as vezes sucedem-se), continuamos, embora a contragosto, porque do que gostamos, gostamos mesmo, é de dar aulas o mais longe da nossa residência, com alunos problemáticos vendo em nossos rostos a alegria de não podermos faltar, quer respiremos saúde quer nos arrastemos pelas salas de aula com penosas maleitas. Vós não sonhais sequer a mágoa que nos causa ser-nos vedado estarmos a vosso lado a sofrer na carne o látego impiedoso do Ministério da Educação e dos seus algozes. Apesar de tudo, é-nos pedido que acatemos este destino de sofrida tristeza, embora mitigada pela alegria de um cumprimento cívico. Cumpra-se, portanto,  a vossa vontade!”

Desta forma, só há uma maneira de mudar este “status quo”: os dirigentes sindicais adesivos, eles próprios,  que só descolam com acetona e, mesmo assim, em doloroso arrancar de pêlos, tomarem consciência de que não há pessoas insubstituíveis. É o mínimo que se lhes pode e deve exigir!

Rui Baptista