Não esperava ter de tratar as entrevistas de Nuno Crato como as de Maria de Lurdes Rodrigues, no que a desconformidades diz respeito.
Vejamos o caso da escolaridade obrigatória de 12 anos, que não significa necessariamente até ao 12º ano.
Quando o PS apresentou a proposta com intuitos eleitoralistas, toda a oposição foi a reboque por ser incapaz de contestar o que parecia ser uma medida popular. A unanimidade foi estratégica, mas ninguém analisou a coisa com um mínimo de seriedade. Em si é uma daquelas medidas que até parece mal contrariar, mas a verdade é que foi aprovada sem alicerces sólidos. Não pelos encargos, mas porque seria mais importante apostar num Ensino Básico de boa qualidade, antes de lhe atirar com um Secundário mais ou menos obrigatório.
Mas o PSD Ve CDS votaram ao lado do PS. E do PCP e do Bloco.
E agora está, como se costuma dizer, à rasquinha para manter a medida em funcionamento. Uma escolaridade de 12 anos implica investir e não desinvestir. Implica um orçamento expansionista e não um onde ser corta 10-15-20% do orçamento do MEC de uma facada.
E vai daí começa aquilo que poderia ser criatividade se não fosse apenas uma tentativa de encontrar o caminho no nevoeiro.
Eis o que afirma Nuno Crato (Público de hoje, p. 2, logo a abrir a entrevista):
No próximo ano lectivo chega ao ensino secundário o primeiro grupo de alunos abrangido pela escolaridade obrigatória até aos 18 anos. Num contexto de contenção de custos vai ser possível cumprir este objectivo?
Está tudo em aberto. Estamos a estudar como será possível prolongar a escolaridade obrigatória com o que isso significa em número de turmas, de alunos, de professores. Não queremos que este prolongamento seja, pura e simplesmente, a continuação do ensino tal como existe hoje. Precisa de ser repensado em termos de oferta profissional. Estamos a ver quais são as possibilidades de diversificar a oferta também para que alguns alunos possam iniciar uma vida profissional ao mesmo tempo que continuam na escola.
Esta ideia de iniciar a vida profissional ao mesmo tempo que continuam na escola quer dizer o quê? Que há empresas interessadas em receber estagiários neste contexto de recessão e crescimento do desemprego? Como? Trabalhando de borla desde os 15 anos? Ou será só a parir do 11º ou 12º ano?
E em que moldes vai isto funcionar?
Será que é para reduzir a componente lectiva, poupando umas horas de pagamento aos docentes, justificando a coisa com um estágio profissionalizante em exercício?
E que sectores da economia estarão interessados em receber jovens com escassa qualificação? Centros comerciais, supermercados, a restauração?
Que empresas com capacidade de expansão pretendem este tipo de mão de obra, por barata que seja?
Num outro contexto, de expansão económica e do emprego, isto teria a sua lógica e possibilidade de implementação, mas em ambiente de profunda recessão, o que resta?
Apenas a vontade de não aumentar os encargos com o alargamento da escolaridade, aprovado há um par de anos porque ficava mal votar contra.
Agora, na impossibilidade de inverter a marcha sem danos substanciais, procura-se uma forma de andar, não andando. Tirar o carro novo da garagem, lavá-lo, mostrá-lo aos vizinhos mas fazer todos os possíveis por não o colocar a andar que a gasolina está pela hora da morte do matusalém.
Outubro 31, 2011 at 9:28 pm
Parece-me que isto não anda muito distante do que já se faz. Ao contrário do que acontece nos CEFs, onde o estágio tem lugar no final do curso, nos Profissionais o estágio decorre ao longo do curso, alternando com as aulas. Mas claro que muitos desses estágios são mais para entreter do que outra coisa, tal como muitas das aulas também, aliás…
Outubro 31, 2011 at 9:32 pm
#1,
Pode ser em diferentes anos, mas em regra é no final dos anos lectivos.
Mas depende muito.
Outubro 31, 2011 at 9:36 pm
Não percebo nada.
Então mas o outro não veio dizer que os jovens deviam era emigrar?
Agora este quer que comecem a trabalhar enquanto estudam?
Outubro 31, 2011 at 9:40 pm
A entrevista de Crato, hoje no público, não é uma entrevista, é uma espécie de manifesto de intenções e objectivos já há muito traçados, o denominado “corte cego economicista”. Quando se refere a EVT, o ministro usa a alusão ao desperdício de recursos, “…Percebo que seja bom ter dois professores na sala, mas não estamos em época de o fazer…” e a posterior aclamada “reorganização curricular” é referida como a salvadora desse dito esbanjamento louco. Na escolha formativa e educacional a “palhinha” saiu a EVT mas mais se seguirão a seguir. Qual? Quem sabe?
Outubro 31, 2011 at 9:44 pm
#3
E estava acompanhado de outros membros do governo quando fez essas declarações, que não são mais do que uma constatação da realidade nua e crua! Já não há lugar a mais ilusões e fantasias.
http://economico.sapo.pt/noticias/governo-incentiva-jovens-desempregados-a-emigrar_130198.html
http://www.agenciafinanceira.iol.pt/economia/jovens-desemprego-desempregados-emigrar-agencia-financeira/1294064-1730.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+iol%2Fagenciafinanceira+%28Ag%C3%AAncia+Financeira%29
Outubro 31, 2011 at 9:50 pm
Curiosamente os cursos de FP financiados pelo IEFP continuam a admitir alunos a partir dos 16 anos.
Por outro lado, subscrevo integralmente as críticas do Guinote ao pavlovismo político em relação ao prolongamento da escolaridade obrigatória de 9 para 12 anos.
Tudo feito no ar dos castelos ideológicos partilhados pelos funcionários políticos que transformaram os partidos em agências de interesses das respectivas seitas.
A extensão da escolaridade obrigatória foi algo de irrecusável, qualquer coisa como a oferta de implantes mamários a adolescentes em busca de afirmação sexual.
A auto estima falou mais alto do que a inteligência e o bom senso, qualidades que escasseiam cada vez mais nos aparelhos partidários.
Outubro 31, 2011 at 9:52 pm
Aparentemente, o sucesso é maior nas vias profissionalizantes, daí a aposta na diversificação da oferta educativa. Agora, como é que isto se articula com os cortes radicais? Presumo que usarão técnicas de (re)engenharia (social).
Outubro 31, 2011 at 10:00 pm
No PIEF pode optar-se por uma modalidade de estágio denominada “40/60″, significando com isso que o estágio cumprido fora da componente lectiva ocupa a maior percentagem (60) do tempo semanal, com frequência, três dias (o nº de horas por dia depende do acordo com a entidade empregadora).
Mas sejamos claros: isto funciona num âmbito muito limitado, seja pela fraca qualificação de base dos estagiários (funcionando as mais das vezes pela “boa vontade” das entidades disponíveis), seja pela assumida diminuição da exigência ao nível do processo ensino-aprendizagem.
Atendendo às condições objectivas de funcionamento das nossas escolas e da mentalidade empresarial dominante, com mais ou menos voltas que se dê a este esquema, ou a outro qualquer que queira casar aulas e estágio, mormente de “profissionalização em serviço”, o que acabará por ocorrer é a franca redução do rigor e da qualidade do ensino e a incipiente profissionalização. Faz-se um “dois em um” para nivelamento por baixo.
Mas estas propostas de Crato não surpreendem; são, antes, a confirmação da sua concepção utilitarista/mercantilista de educação e de ensino, e do seu alarmante desconhecimento da realidade nacional.
Outubro 31, 2011 at 10:19 pm
Talvez o segredo esteja em tirar o ensino profissinal da escola pública (e nesta haverá quem aplauda, convencido de que o liceu voltará). Consta que algumas forças “bibas” das comunidades estão em marcha para abocanhar o que resta do poph (mete autarcas e isso).
Outubro 31, 2011 at 10:24 pm
#0,
«Não esperava ter de tratar as entrevistas de Nuno Crato como as de Maria de Lurdes Rodrigues, no que a desconformidades diz respeito.»
Só fica desiludido quem se deixa antes iludir.
Temos pena.
Outubro 31, 2011 at 10:28 pm
Paulo,
a entrevista diz muito pouco. Mas há algo que me ficou na memória como manchete de 1ª página:
“gostaríamos muito de ter um alargamento dos contratos de associação e autonomia”
Esta frase é todo um programa (talvez o único)…
Outubro 31, 2011 at 10:30 pm
#11,
Não vai longe…
#10,
Olha o sonso deu as caras depois da figura triste feita na 6ª feira quando ridiculamente afirmou que a(o)s jornalistas presentes deveriam ter o seu número ou email (ou lá o que foi) e depois quando se pôs a andar todo(a)s ficaram a perguntar quem era a figurinha…
Outubro 31, 2011 at 10:32 pm
Estágios pagos?
Isso já não existe.
Paga-se é às empresas para deixarem os miúdos lá irem umas horas por semana.
Outubro 31, 2011 at 10:34 pm
#11
Exactamente. Foi também o que mais me chamou a atenção, como referi na minha visita matinal ao blogue!…
O “ir além da troika” não tem sido interpretado pelo que representa verdadeiramente: as medidas da troika são o necessário para controlar o défice. O que vai mais além destina-se a aplicar o programa neoliberal do governo, leia-se, gerar fundos públicos para aplicar no financiamento da economia privada.
Outubro 31, 2011 at 10:36 pm
#10 Tens sabido novas do sofrimento do povo saruí ou lá o que é???
É que nem tenho dormido a pensar no bem que os sindícos portugueses têm feito, para eles e para nós…
Outubro 31, 2011 at 10:45 pm
Venho apenas recordar que o alargamento da escolaridade obrigatória para doze anos foi alvo de acordo, em sede de concertação social, no último mandato do então primeiro ministro Cavaco Silva (1991-1995).
Outubro 31, 2011 at 10:53 pm
#15
Essa era escusada. A situação do povo saraui não é muito diferente daquela em que viveu o povo timorense sob ocupação indonésia. O sofrimento dos povos sem pátria, vítimas da lei do mais forte e da hipocrisia que continua a dirigir as relações internacionais, poderia merecer-nos um pouco mais de respeito. E neste caso concreto, o que está errado não é a atenção que os sindicatos da Fenprof procuram dar-lhe, mas sim o desprezo que outras organizações sociais e políticas têm demonstrado.
Um país que enche a boca com os direitos humanos, que anda a mexer cordelinhos para entrar para o Conselho de Segurança da ONU mas que depois não é capaz de ter uma palavra clara e corajosa sobre o que se passa no Saara Ocidental. Que envia tropas para distantes Iraques e Kosovos mas ignora o que se passa aqui ao pé da porta.
Pode atacar-se o comentador que desagrada e o sindicato que aborrece sem meter os Sarauis ao barulho…
Outubro 31, 2011 at 10:54 pm
Posteriormente, quem se opôs ao alargamento da escolaridade obrigatória foi… Jorge Sampaio.
Novembro 1, 2011 at 12:41 am
Este é o país do TUDO À GRANDE mas que quem paga é o pequeno.
Ele são:
- escolaridade em grande,
- estádios em grande,
- expo´s em grande,
- requalificações em grande,
- urbanismos em grande,
- auto-estradas em grande,
- pontes e aeroportos em grande,
- barragens em grande, escolas em grande,
- computadores e net em grande,
- centros comerciais em grande,
- PPP em grande,
- empresas públicas em grande,
- Institutos/Fundações e similares em grande,
- negociatas em grande,
- derrapagens em grande,
- remodelações em grande,
- nomeações em grande,
- chefias/assessorias/ adjuntos/… em grande,
- remunerações de cargos dirigentes (administração pública/ empresas públicas/ autarquias…)
prémios/ suplementos/ ajudas de custo e representação/ acumulações em grande,
- desvios e desaparecimentos em grande,
- …,
– IMPUNIDADE À GRANDE!!!
Quem paga tudo isto? Quem paga os custos intermináveis directos e indirectos / sociais e económicos/ actuais e futuros de tanta megalomania/ entropia/ disfunções/ faz-de-conta e corrupções? – o pequeno, a quem roubam continuamente remunerações, aumentam horários de trabalho e aumentam impostos, reduzem ordenados, roubam direitos sociais e laborais … a escravatura para servir os poderosos incapazes é já ali… já ao dobrar da esquina.
Não entendo como estes energúmenos não propõem trabalho durante 24h/dia, 7 dias/semana, gratuito durante 1 ano (para começar)… é que os coitados não distinguem produção de produtividade… é exactamente por isto que nunca seremos competitivos: o que outros produzem com o mesmo tempo de trabalho é muito mais… e é-o tanto mais quanto maior a sua capacidade organizacional, é-o tanto mais quanto mais organizado e funcional é o estado, é-o tanto mais quanto mais claros e inequívocos os objectivos … mas por lá a sociedade é mais crítica/ interventiva e exigente e os gestores, dirigentes e patrões são, segundo os resultados, inequivocamente melhores e, comparativamente, muito mais mal pagos.
Novembro 1, 2011 at 2:08 am
“Não esperava ter de tratar as entrevistas de Nuno Crato como as de Maria de Lurdes Rodrigues, no que a desconformidades diz respeito.”
Andou muito distraído, Paulo…
Novembro 1, 2011 at 5:02 am
http://margarida-alegria.blogspot.com/2011/11/bla-bla-bla-comeca-fase-das-super.html
O resumo da entrevista, versão Zandinga!
Novembro 1, 2011 at 10:19 am
A escolaridade até aos 18 anos é uma falácia. Alunos muito maus que se negam a ir para os profissionais e no normal não deixam aprender quem o deseja…e os pais dos alunos carenciados com dificuldades querem que sejam DOUTORES….país de pobres…….
Novembro 1, 2011 at 10:20 am
quis dizer “dificuldades de aprendizagem”
Novembro 1, 2011 at 3:48 pm
Pelo pouco que ouvi na TVI24 hoje de manhã, trata-se de trabalho em part-time a partir dos 16 anos…
Não me pareceu que se pensasse em estágios ou coisa semelhante.
Mais estilo: é preciso começar desde cedo a pensar na vidinha…
Sim, que isto de sustentar burros a pão de ló (sem ofensa) tem muito que se lhe diga…