Ontem, na Buchholz, alguém (não interessa quem), dizia que parecia que muita gente está à espera que se passe com a sociedade em geral o que se passou com os professores em 2008 e 2009. Uma faísca, uma causa comum, uma circulação do protesto em rede, em grande parte espontânea, que une a contestação, mobiliza quase toda a gente e a traz para a rua, erguendo uma voz que assusta o poder.
Pois…
Mas…
Se o que se passou foi exemplar, também foi uma lição, pela forma como a contestação conseguiu ser encaminhada para a irrelevância de resultados e como foi adormecida em 2010 às mãos dos negociadores profissionais.
Para além de que, na altura, havia do outro lado os rostos óbvios da contestação. Agora há uma espécie de esquizofrenia, em que os responsáveis estão, mas também não estão. E alguns dos que agora querem contestar, estiveram ao lado de muitos que também devem ser contestados. Enquanto os que contestaram e ergueram esse direito, agora o contestam. Porque a coreografia posicional define as convicções e não o inverso.
E a maioria percebe isso. Há quem queira cavalgar uma onda que antes fez tudo por quebrar.
Por vezes, na sua aparente ou real anomia, o povo não é completamente idiota.
Porque sabe que, como a generalidade dos professores que encheram a Avenida da Liberdade, pode ser deixado a si mesmo numa qualquer esquina da pequena história, sacrificado à real politik negocial.
E encolhe-se.
E faz mal.
Mas por outro lado, racionalmente e em termos individuais, os zés-povinhos não podem ser assim tão criticados.
Porque a confiança está irremediavelmente quebrada nos actores. Que são isso mesmo… actores. E querem as massas para servirem de figurantes. Da Esquerda à Direita. Uns querem-nos a contestar na rua a uma voz, os outros quer-nos a sacrificar-nos uma outra vez.
E o que foi o (bom) exemplo dos professores também serve de (má) lição.
Outubro 29, 2011 at 6:42 pm
Ok, imagine-se que vêm 5 milhões para a rua. A dívida desaparece? O Estado fica com liquidez? As reformas da malta ficam todas garantidas?
Se sim, vamos todo; com 10 milhões, até o cancro bate em retirada…
Outubro 29, 2011 at 6:43 pm
Post para levar porrada, porquê?
Acho que não é caso para isso.
Só umas notas:
Há o ir para a rua, ou para outro lado qualquer, manifestar o descontentamento, exteriorizar a revolta, exigir a mudança.
Mas também há, mais tarde ou mais cedo, o inevitável sair da rua.
E quando se sai, convém que a força, a vontade, a determinação manifestadas se traduzam no ganho de alguma coisa. Sabendo que nunca se ganha tudo, convém não perder o que se pode ganhar.
É aqui que entram os negociadores…
Outubro 29, 2011 at 6:47 pm
#1
Se chegarem à conclusão que é mais fácil ir cobrar o pagamento aos motengis ou renegociar os prazos e pagamentos com os troikos do que sacá-lo ao bom povo, é por esse caminho que irão.
Estamos a lidar com gente cobarde, que se faz forte com os fracos e que tem medo dos fortes. Quanto mais nos agacharmos, mais eles nos caem em cima…
Outubro 29, 2011 at 6:52 pm
#2,
Enganei-me na tag.
Outubro 29, 2011 at 6:55 pm
#4
Quando o barco está a afundar talvez a solução não surja porque toda a gente veio protestar para o convés…
Outubro 29, 2011 at 7:05 pm
#5,
Penso que será mais ou menos óbvio que não sou o maior defensor dos protestos habituais, tipo maralhal a rufar tambores com cartazes de políticos com bigodinhos à Hitler e refrões de gosto duvidoso.
Chegava-me que o protesto fosse mansamente paralisante.
Que cada um, no seu local de trabalho, soubesse (não) fazer o que interessa.
E, como diria o Octávio Machado, “voc~es sabem do que eu estou a falar”…
Outubro 29, 2011 at 7:11 pm
Esta ideia de que a população está amorfa e não reage não é verdadeira. E a prova é que as taxas de emigração estão em niveis enormes, os maiores de que há memória. A população mais jovem, e acima de tudo a população com mais capacidades profissionais está claramente a reagir. Reage votando com os pés e virando definitivamente costas a tudo isto. A emigração em grande número, de forma definitiva, é claramente uma forma de reagir à situação em Portugal.
Um exemplo tipico…com a afirmação de que tentará por todos os meios não voltar a Portugal e recomeçará a vida noutro país.
http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/1237/sair-para-nao-mais-voltar
http://sicnoticias.sapo.pt/economia/article760905.ece
http://blog.opovo.com.br/portugalsempassaporte/revista-reporta-a-vida-fantastica-dos-portugueses-que-vieram-para-o-brasil-fugindo-a-crise-vivem-bem-e-faturam-milhoes/
Outubro 29, 2011 at 7:18 pm
#7,
Está a fazer o que fez nos anos 60.
O problema é que há quem considere “apatia” o não ir para a rua gritar atrás dos “representantes”.
Outubro 29, 2011 at 7:19 pm
#6
E essa sabedoria de cada um provém de alguma alma colectiva, equitativamente distribuída?
Se isto fosse um plano de saída de emergência em caso de incêndio, prevejo que morreríamos todos queimados.
Outubro 29, 2011 at 7:28 pm
#8
Relativamente aos anos 60 há uma diferença fundamental. Nesse tempo a taxa de natalidade em Portugal era elevada. Agora é uma das mais baixas do mundo.
Ainda há um ou dois dias o Paulo Guinote fez um post acerca dessa noticia.
Sem natalidade e com a juventude mais capaz a emigrar em grande número, com pouca vontade de cá voltar…uma combinação suicida para Portugal.
Outubro 29, 2011 at 7:35 pm
Bastonário da Ordem Dos Engenheiros critica burocracia brasileira que dificulta a emigração dos jovens engenheiros portugueses para o Brasil.
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=511443
Outubro 29, 2011 at 7:57 pm
A palavra usada foi “genuíno”.
Houve uma revolta genuína dos professores, não controlada nem comandada.
Serviu para pouco, em termos de ganhos, mas abriu a mente a outros grupos.
Se os profs saem todos para a rua, pq não nós tb?…
Outubro 29, 2011 at 7:58 pm
Continuo na minha: falta fazer História da luta de professores.
Aconteceu. Foi, de facto, genuína, espalhou-se, com a ajuda dos blogs ( em especial do Umbigo).
Desta vez foi controlada, da próxima talvez não…
Outubro 29, 2011 at 8:37 pm
A questão é que os professores atingiram o limite de saturação, de paciência, com tudo o que já vinha a acontecer há vários anos.
Se a sociedade em geral já atingiu o seu ponto de saturação ou não, isso é o que se verá…
Outubro 29, 2011 at 8:58 pm
#13,
Resta saber se haverá próxima.
Outubro 29, 2011 at 9:15 pm
#6
A mim o que me custa ver é professores envolvidos em todo o tipo de projetos da treta! Ainda na 4.ª feira houve, na minha escola, uma reunião, de mais de 2h para discutir um projeto da treta, reunião para a qual foram convocados todos os professores do agrupamento. Dá-me uns vómitos… ver que nos lixam diariamente e haver colegas que parecem não ter consciência disso e andarem envolvidos em atividadezinhas! Eu faço o estritamente necessário e apenas em proveito dos meus alunos mas em sala de aula. Maináda!
Outubro 29, 2011 at 9:46 pm
«erguendo uma voz que assusta o poder.»
Este pressuposto enferma de um problemazito: o poder nunca se assusta, muito menos com vozes.