Outubro 2011


Propellerheads/Shirley Bassey, History Repeating

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O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES E POUCO MAIS

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Cada vez mais pobres…

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O achismo

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Entrevista de Nuno Crato ao PÚBLICO

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O paradigma do rigor

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Crato: quer destruir de vez a já débil unidade entre docentes

Baseando-se num estudo encomendado (?), Ministério de educação pretende reduzir 1500 milhões de euros e acabar com as disciplinas de TIC no 9º ano e EVT. Albino Almeida e Mário Nogueira falam sobre as medidas.

Uma medida em que o governo “vai além da Troika”, o dobro do exigido. Estado vai dispensar 15 mil funcionário públicos até ao fim de 2012, os despedimentos não estão excluídos.

Não esperava ter de tratar as entrevistas de Nuno Crato como as de Maria de Lurdes Rodrigues, no que a desconformidades diz respeito.

Vejamos o caso da escolaridade obrigatória de 12 anos, que não significa necessariamente até ao 12º ano.

Quando o PS apresentou a proposta com intuitos eleitoralistas, toda a oposição foi a reboque por ser incapaz de contestar o que parecia ser uma medida popular. A unanimidade foi estratégica, mas ninguém analisou a coisa com um mínimo de seriedade. Em si é uma daquelas medidas que até parece mal contrariar, mas a verdade é que foi aprovada sem alicerces sólidos. Não pelos encargos, mas porque seria mais importante apostar num Ensino Básico de boa qualidade, antes de lhe atirar com um Secundário mais ou menos obrigatório.

Mas o PSD Ve CDS votaram ao lado do PS. E do PCP e do Bloco.

E agora está, como se costuma dizer, à rasquinha para manter a medida em funcionamento. Uma escolaridade de 12 anos implica investir e não desinvestir. Implica um orçamento expansionista e não um onde ser corta 10-15-20% do orçamento do MEC de uma facada.

E vai daí começa aquilo que poderia ser criatividade se não fosse apenas uma tentativa de encontrar o caminho no nevoeiro.

Eis o que afirma Nuno Crato (Público de hoje, p. 2, logo a abrir a entrevista):

No próximo ano lectivo chega ao ensino secundário o primeiro grupo de alunos abrangido pela escolaridade obrigatória até aos 18 anos. Num contexto de contenção de custos vai ser possível cumprir este objectivo?
Está tudo em aberto. Estamos a estudar como será possível prolongar a escolaridade obrigatória com o que isso significa em número de turmas, de alunos, de professores. Não queremos que este prolongamento seja, pura e simplesmente, a continuação do ensino tal como existe hoje. Precisa de ser repensado em termos de oferta profissional. Estamos a ver quais são as possibilidades de diversificar a oferta também para que alguns alunos possam iniciar uma vida profissional ao mesmo tempo que continuam na escola.

Esta ideia de iniciar a vida profissional ao mesmo tempo que continuam na escola quer dizer o quê? Que há empresas interessadas em receber estagiários neste contexto de recessão e crescimento do desemprego? Como?  Trabalhando de borla desde os 15 anos? Ou será só a parir do 11º ou 12º ano?

E em que moldes vai isto funcionar?

Será que é para reduzir a componente lectiva, poupando umas horas de pagamento aos docentes, justificando a coisa com um estágio profissionalizante em exercício?

E que sectores da economia estarão interessados em receber jovens com escassa qualificação? Centros comerciais, supermercados, a restauração?

Que empresas com capacidade de expansão pretendem este tipo de mão de obra, por barata que seja?

Num outro contexto, de expansão económica e do emprego, isto teria a sua lógica e possibilidade de implementação, mas em ambiente de profunda recessão, o que resta?

Apenas a vontade de não aumentar os encargos com o alargamento da escolaridade, aprovado há um par de anos porque ficava mal votar contra.

Agora, na impossibilidade de inverter a marcha sem danos substanciais, procura-se uma forma de andar, não andando. Tirar o carro novo da garagem, lavá-lo, mostrá-lo aos vizinhos mas fazer todos os possíveis por não o colocar a andar que a gasolina está pela hora da morte do matusalém.

Lê-se na página 2 do Público de hoje:

Uma das medidas previstas é a reorganização e racionalização dos currículos. Quais são os princípios que vão presidir a essa reorganização?
A lógica geral é independente desta lógica monetária. Defendo, independentemente de todos estes cortes, que é necessário reduzir o número de disciplinas no ensino básico, que é necessário concentrar nas disciplinas essenciais, que é necessário eliminar a dispersão na oferta curricular, que é necessário reforçar o Português e a Matemática, que é necessário dar mais atenção à História, à Geografia, às Ciências, ao Inglês. O princípio da reorganização é este: como é que vamos conseguir que os jovens saibam mais nestas questões centrais?

O que infere qualquer pessoa medianamente racional desta resposta acerca das disciplinas nomeadas?

Que precisam de mais atenção e que os jovens devem saber mais nestas questões centrais.

A reacção em muita gente foi, não é exagerado admiti-lo, de alívio nestas áreas disciplinares, a começar pela História e Geografia, ameaçadas de casamento forçado à laia dos arranjos de outrora.

Mas então como se coaduna isso com o que foi dito numa reunião aparentemente (escrevo assim só porque…) realizada hoje de manhã no MEC em que foi apresentada novamente a hipótese de fusão das duas disciplinas sem quase contestação alguma por parte dos presentes?

Mas, afinal, o que se diz numa entrevista ao finalizar de uma semana é branco, mas na 2ª feira já é preto? Ou será que o branco foi para o público consumir e o preto para auscultar das resistências que alguns (incluindo um profblogger que por lá acenou que sim a tudo) consideram corporativas?

Ou, pura e simplesmente, não se tem uma linha de rumo e se está refém da herança dos cursos bolonheses valterianos de formação de professores generalistas e híbridos?

Ou será que o navegar ao sabor do vento resulta da influência próxima de quem tem essa forma de estar como regra?

Será que Nuno Crato, como MLR, não se importa de perder os professores para (de forma transitória) ganhar o apoio de alguma opinião publicada?

Bozar. Rem bozar alinquinfe, eeuf quivta noort gtigar bozar. Icf bozar.

Afirma Nuno Crato na sua entrevista ao Público (p. 3, colunas do meio):

Qual a poupança com a supressão de Estudo Acompanhado?
No 3.º ciclo é de cerca de 17 milhões.No 2.º ciclo, cerca de 15 milhões. Mas substituímos estas áreas [Área de Projecto e Estudo Acompanhado] pelo reforço de Português e Matemática, o que representa um acréscimo de despesa de 40 milhões. Foi obtida alguma poupança, mas sobretudo reforçaram-se as disciplinas fundamentais. O Estudo Acompanhado era dado por dois professores no 2. º ciclo. Uma turma de Matemática tem um professor. Uma hora de Estudo Acompanhado custava o dobro de uma hora de Matemática. Se utilizarmos de forma mais racional os professores do quadro, estamos a proteger o seu emprego e a evitar contratações suplementares.

Isto é embaraçoso.

Porque, não o nego, não troco as tintas, tenho estima intelectual e pessoal por Nuno Crato.

Só que é penoso ler algo assim. Porque está escrito no pretérito perfeito. “Foi obtida alguma poupança”, “O Estudo Acompanhado era dado…”, “Uma hora (…) custava o dobro”.

Meu caro ministro Nuno Crato: o Estudo Acompanhado ainda é leccionado no 2º ciclo por dois professores e custa o mesmo que custava. Por favor, mas mesmo por favor, informe-se antes de falar sobre os specifics da Educação Básica. Sei lá… Tente que a sua secretária de Estado apareça. A menos que ela ainda saiba menos sobre o assunto.

Ora bem:

  • O Estudo Acompanhado no 2º ciclo está como estava, não houve poupança nenhuma. O que aconteceu foi a redistribuição das horas de Área Projecto. Apenas.
  • Quando deixar de existir, substituído por uma hora de Matemática e outra de Língua Portuguesa é impossível que gere, em simultâneo uma poupança de 15 milhões e um acréscimo de despesa de 40 milhões.

Vamos lá: 90 minutos de EA com dois professores representa pagar 4 horas lectivas aos professores. Se ficar uma hora para cada disciplina, isso representa pagar apenas 2 horas lectivas. Nunca pode representar um encargo maior do que a despesa, mesmo que EA fosse leccionado por contratados e agora a Matemática e a LP passassem a ser por docentes no escalão salarial mais alto.

O ministro Nuno Crato é matemático e formado em Economia. Certamente percebe o que acima fica demonstrado.

Repito: isto é embaraçoso.

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