Direitos humanos: os mínimos éticos para a sociedade intercultural, de hoje
As grandes concepções teóricas para a vida e a organização social há muito que deixaram de responder a um mundo cada vez mais aberto e multicultural. Uma racionalidade pós-moderna invade tudo, instala-se um relativismo que deixa pouca margem para a crença em dias melhores, ao mesmo tempo que a globalização e seus efeitos, seja qual for o contexto para que olhemos, parecem inexoráveis. Crescem os desenraizamentos e as exclusões, já não somos verdadeiramente de lado nenhum, embora vivamos com a sensação de que somos de todos os lugares. Este sentimento de insegurança e de não pertença faz toda a diferença, quando se trata de pensar as questões da convivência entre as diferentes culturas.
Em meu entender, essa convivência é possível a partir de um compromisso com os direitos humanos e a solidariedade mundial, de que as organizações internacionais são parte integrante. Os direitos humanos não são abstracções; legitimam práticas sociais e cívicas concretas, enquadram leis e definem políticas e planos de acção, envolvendo pessoas reais – grupos sociais, culturais, étnicos, religiosos, linguísticos…
Quando os colocamos como pano de fundo, vêm-nos de imediato, à mente, conceitos como dignidade humana, justiça, democracia, primado da lei, tolerância, pluralismo, respeito, interdependência, cidadania… sem os quais, dificilmente, podemos enquadrar e conceber o diálogo e a acção entre as culturas. Aliás, talvez tenha sido a ausência de alguns destes valores que levou os modelos anteriores, quer os etnocêntricos quer os multiculturais, a darem respostas insuficientes, quando não criticáveis, nalguns dos seus aspectos.
Aponta-se, hoje, para um modelo de convivência intercultural que considere, ao mesmo tempo, a existência de valores comuns a todos os seres humanos (a dignidade da pessoa e os seus direitos inalienáveis) e a existência de valores relativos a cada uma das culturas (língua, história, costumes, tradições…). Esta fundamentação, em valores universais e particulares, permite pensar uma espécie de terceira via, entre o universalismo e o relativismo, conciliando o melhor dos modelos referidos.
Terceira via que não é uma síntese ou um consenso simples, mas, antes, um compromisso, em que as diferentes culturas reconhecem a existência de uma base comum, para a convivência e a organização sociais, consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), no Pacto dos Direitos Civis e Políticos e no Pacto dos Direitos Civis Económicos e Sociais (1966), entre outras declarações e convenções internacionais – e se empenham em construir juntas, em pé de igualdade, uma sociedade aberta e plural.
Trata-se, por isso, de um compromisso dinâmico e complexo, de natureza ética (envolvendo a decisão e a responsabilidade de cada indivíduo), de natureza política (envolvendo a decisão e a responsabilidade dos Estados e das instituições) e de natureza educativa (envolvendo a aquisição de competências culturais). É neste último ponto que o papel da educação, em geral, e não apenas da escola em sentido restrito, se torna fundamental, sensibilizando para a protecção e a vivência dos direitos humanos – esses mínimos de acção ética que todos os indivíduos e todas as sociedades se devem reciprocamente exigir.
Maria Rosa Afonso, professora
Agosto 27, 2011 at 3:54 pm
CHile crece a 8 por cento mas as desigualdades continuam..a contestação acentua-se…logo crescimento económico não é sinónimo de bem estar nem de justiça social..bem longe disso…..pena não termos uma camila por cá…ou camilo..
Agosto 27, 2011 at 3:56 pm
Avaliação está a ser recusada a docentes grávidas..seguem-se quem tiver cães e gatos de estimação ou mesmo tarântulas…se isto não é de dementes não sei mais que dizer…fui…
Hoje
Muitas escolas negam avaliação de desempenho mesmo às docentes que a solicitam. Resultado: não avançam na carreira. Sindicato dos professores pede alterações a lei “discriminatória”.
O jornal “Público” escreve que há agrupamentos de escolas que se têm recusado a avaliar professoras e educadoras de infância forçadas a interromper as aulas devido a gravidez de risco ou em gozo de licença de maternidade e que, deste modo, se vêem impedidas de progredir na carreira. O argumento é o de que as professoras não cumpriram o tempo mínimo de serviço com a entidade avaliadora (escola), que é de seis meses.
A denúncia partiu do Sindicato dos Professores do Norte (SPN), que garante ter vindo a deparar-se com “inúmeras situações de discriminação de professores que, por razões de gravidez de risco e/ou gozo de licença de maternidade, estão a ser penalizadas, nomeadamente na sua posição na lista graduada para concurso, na progressão na carreira e na colocação em cursos de oferta de escola”.
Agosto 27, 2011 at 4:12 pm
Então ninguém diz nada sobre este belíssimo texto?!!
Parabéns, colega Rosa!
Agosto 27, 2011 at 5:02 pm
Não se percebe então o que terá falhado no dito “multiculturalismo”.
Tentemos ser mais concisos.
Os discursos que fazem apelos à convivência e à tolerância, tipo Boaventura Sousa Santos, pecam sempre por algum unilateralismo.
Alertam sempre para os perigos do fascismo, do nazismo e do colonialismo, mas encobrem os perigos e os crimes do comunismo, elogiando abertamente a esquerda pelo seu legado histórico e social (ver o último n.º da revista Visão. o artigo “Carta às esquerdas”), como se a democracia na Europa não se devesse aos gregos e aos americanos, e não ao estalinismo, que é sempre deixado na penumbra da crítica, em nome do sacrifício do povo russo e do esforço do Exército Vermelho (apesar do seu cortejo de saques e violações).
Mas voltando ao multiculturalismo, é preciso denunciar a visão da esquerda que quis transformar a escola num supermercado onde cada um trazia o “seu produto” cultural para mostrar e trocar com os outros (Stoer), reduzindo assim a educação a um “lugar estrutural” animado pelos professores com “preocupações emancipadoras” (BSS), que deveriam zelar pelas “mini-racionalidades” (BSS) onde cada um negoceia com todos.
Este pântano ideológico espalhou-se por todos os media e por todas as escolas e universidades, lobotomizando a maioria dos seres humanos com responsabilidades educativas e formativas.
Todo este paleio irresponsável e fantasista asfaltou a estrada do multiculturalismo, criando um imenso quebra-cabeças de exclusão social (enquanto anunciava o contrário) difícil de remediar.
Como diz Habermas, os conflitos de valores, ao contrário dos conflitos de interesses, não são negociáveis.
Esta verdade simples e inexorável é sistematicamente baralhada e esquecida pelos animadores do multiculturalismo.
Lamentavelmente o texto de Maria Rosa Afonso não adianta muito em relação ao que falhou no multiculturalismo.
Agosto 27, 2011 at 5:49 pm
#4
Reconhecendo o valor intrínseco do texto e das opiniões da colega Maria Rosa, não posso deixar de concordar com a opinião do colega h5n1. O multiculturalismo atirou e atira milhões de pessoas para a marginalidade, para a exclusão social, perpetuando a pobreza e costumes, tradições absolutamente inaceitáveis!
Agosto 27, 2011 at 7:42 pm
#4
Onde se lê ” e não ao estalinismo”, deveria ler-se “mas sim ao estalinismo”, como se depreende de uma leitura/escrita mais atenta.
Agosto 27, 2011 at 7:47 pm
#3
Acho melhor estar “calado”. Demasiado soft. Perdão, molengas.
Agosto 27, 2011 at 8:33 pm
Não sendo eu professor e não tendo portanto um conhecimento profundo do que se vai passando nas escolas portuguesas, tenho no entanto a ideia de que os programas e as práticas pedagogicas em vigor apontam no sentido de que os professores devem utilizar a escola como veiculo de transmissão da ideologia do multiculturalismo, apresentando aos alunos este conceito ideologico como sendo uma verdade absoluta e inquestionavel. Duvido muito que haja escolas e professores em Portugal que se atrevam a apresentar aos alunos pontos de vista contraditorios relativamente a esta questão, por convicção ideologica esquerdista nalguns casos, por medo de represálias por terem cometido uma heresia ideologica em muitos outros . Basta, por exemplo, ver a frequencia com que o dirigente do Bloco de Esquerda e da Associação SOS Racismo José Falcão é convidado para palestras nas escolas portuguesas, palestras essas onde os professores esquerdistas apresentam aos alunos os pontos de vista do BE como sendo ideais inquestionaveis. Se algum aluno se atrever a contestar vigorosamente a validade do que lhe está a ser impingindo á força pelos professores e pelo Zé Falcão….é capaz de arranjar chatices (e depois no tempo do fascismo é que havia repressão e doutrinação ideologica nas escolas!). E se algum professor não esquerdista se atrever a exigir pluralismo numa actividade dessas…..vocês que são professores sabem o que é que lhe vai acontecer. É a ditadura do politicamente correcto esquerdista e da imposição do pensamento unico obrigatório em pleno funcionamento.
Por falar em sessões de propaganda politica sem direito a contraditório nas escolas:
http://esateca.blogspot.com/2009/11/palestra-sos-racismo.html