Versão original, com os 3800 caracteres solicitados inicialmente, do texto hoje publicado no Sol:

Está um novo ano lectivo para começar e continuamos enredados, no que à Educação Não-Superior diz respeito, no novelo infindável da avaliação do desempenho docente (ADD).

As peripécias anteriores são conhecidas, assim como as posições pré-eleitorais dos protagonistas que formam a actual coligação governamental. O modelo foi adjectivado de forma generosamente depreciativa por todos, de deputados de ontem e hoje ao actual primeiro-ministro quando ainda era candidato. Do actual MEC ouviram-se declarações menos vigorosas a este respeito, mas são conhecidas as suas opiniões firmes contra uma cultura de facilitismo e favoráveis a uma prática de rigor visando a excelência nos mais variados aspectos da Educação.

Ganhas as eleições por tão vocais críticos da ADD, esperou-se que o novo Governo assumisse as posições anteriores. Ilusão rapidamente desfeita, com argumentos fracos, esgrimidos por figuras de segunda ordem da nova situação. Entre os destroços ficou apenas a promessa de um novo modelo, o que fez manter alguma esperança, em especial entre os que acreditavam que o novo ministro optaria por uma solução de rigor e que rasgasse com as más práticas detectadas e denunciadas.

Surpresa das surpresas, após vagos sete princípios anunciados com pompa desnecessária, surgiu, quando uma noite de Verão já ia avançada, aquilo que se esperava ser uma proposta que surpreendesse pelas razões certas. Só que, pelo contrário, surpreendeu pelas razões erradas, pois apenas se descobriu a terceira simplificação do modelo existente, o que fora sucessivamente remendado por se revelar inaplicável em diversos aspectos, injusto em outros e incoerente no seu todo.

Como novidades a proposta do MEC trouxe apenas o alargamento dos ciclos avaliativos, a instituição como regra dos avaliadores externos (que antes era opção) e a isenção de avaliação para os docentes posicionados nos escalões mais elevados da carreira.

Tudo o resto revela continuidade com o passado, apenas simplificando ou renomeando: os objectivos individuais passam a ser designados como projecto docente, as aulas assistidas permanecem para os professores de dois escalões da carreira, mas apenas num ano do ciclo avaliativo, as quotas não desaparecem, assim como não desaparece a possibilidade de cada escola definir um conjunto próprio de parâmetros para a avaliação, gerando situações de manifesta injustiça. O relatório de autoavaliação bianual que deveria ter seis páginas passou a ser anual e a ter três. Quando se lê parece brincadeira mas, infelizmente, não é.

O modelo ficou mais simples, é certo, mas isso apenas reforçou a artificialidade do que já só era um simulacro de avaliação de desempenho.

Se há algo oposto à imagem que tínhamos de Nuno Crato, investigador e analista crítico da Educação, é este modelo de ADD. É um modelo injusto (porque isenta muitos professores de qualquer avaliação), facilitista (porque reduz a avaliação em vários escalões a meros relatórios anuais) e economicista (porque o que interessa é estrangular o acesso à metade superior da escala salarial e reduzir encargos com a própria ADD).

Do lado dos sindicatos as reacções foram as esperadas:

Ø      Não há nada nesta proposta que impeça um entendimento ou acordo com a FNE. Afinal, o governo é do PSD.

Ø      Não há nada nesta proposta que possa levar a um entendimento ou acordo com a Fenprof, embora seja quase igual ao que levou aos sorrisos de 8 de Janeiro de 2010. Afinal, o governo é do PSD.

Ø      Não há nada nesta proposta que torne relevante um entendimento ou acordo com qualquer outra pequena organização sindical.

Até parece que demos quase um salto no tempo e voltámos décadas atrás em coreografia negocial. Em boa verdade, poder-se-ia já passar, sem danos, para a última ronda negocial, na qual se acertam as vírgulas e a ordem das (não) assinaturas.