Reflexão Sobre A ADD
A reflexão que passo a apresentar sobre a ADD pretende apenas ajudar a sistematizar e a circunscrever com maior nitidez o horizonte de sentido em que me parece dever ser colocada a discussão desta temática. Discussão que, como é público e notório, tem sido inquinada pelas posições sectárias e pela “argumentação” ad hominem, e não pelo debate franco e aberto sobre ideias.
- 1. Porquê, aqui e agora, o tema da “Avaliação” e, em particular, da ADD?
A insistência neste tópico parece querer conduzir-nos ao reconhecimento da sua “naturalização”. A Avaliação, porém, não é uma actividade ou uma “coisa natural”, mas o produto (e o confronto) de concepções políticas, ideológicas e culturais, assumindo-se, do ponto de vista operatório, como uma “tecnologia social”.
“A cultura de avaliação” emergiu, sem dúvida, como uma das figuras ideológicas mais recorrentes, tão impositiva que se alçou à constelação do “politicamente correcto”, a ponto de “não (querer) ser avaliado” se volver um anátema…
O conceito de “meritocracia” deixa porventura perceber melhor as ressonâncias morais (moralistas) aqui implicadas.
A ADD erigiu-se como tema de primeiro plano em resultado da hegemonia de uma formação ideológica, na qual se enlaçam a razão técnica instrumental e o economicismo neoliberal.
- 2. Convirá, entretanto, distinguir “avaliação” de “classificação”.
Avaliar significa, antes de mais, atribuir um valor (mais da ordem do essencial do que do material), reconhecer uma qualidade, conferir um sentido. Classificar remete para operações de seriar, padronizar, hierarquizar.
- 3. Construir um modelo administrativo para classificar professores afigura-se tarefa menor, preenchidas que sejam algumas condições básicas:
- Ensino e aprendizagens instalados no nível do gesto técnico-procedimental e da produtividade, reconduzindo no mesmo passo os docentes para a condição de reféns do sucesso estatístico fácil;
- Burocratização de alto a baixo da função docente, subordinando-a a regulamentos, a rotinas e a padrões de desempenho, facilitando o constrangimento formal e hierárquico.
O processo de classificação institui-se, assim, numa lógica circular: o “objecto” a classificar é, simultaneamente, o pressuposto e o resultado do processo.
A “classificação” constitui, por outro lado, um dispositivo de normalização e de controlo, em que a arbitrariedade e a iniquidade são induzidas a título de condições imanentes do funcionamento do modelo sob a máscara de “necessidades administrativas”ou de objectivos meritocráticos.
O resultado está já à vista de todos, promoveu-se um tipo de “docência gerencial de situações de aprendizagem”, mesclada – para responder à pressão das disfuncionalidades sociais crescentes – com técnicas de pendor assistencial ou ocupacional, num espaço cada vez mais desumanizado e desterritorializado.
- 4. Todavia, ensinar é a mais humana – e por isso a mais nobre e complexa – das actividades, o que significa que a pedagogia pertence mais ao domínio da arte do que ao da técnica, tal como o trabalho intelectual é da ordem da qualidade e não da quantidade. E isto tem que ter consequências sobre a ADD, sobre a construção do seu “modelo” – este ponto parece-me capital.
Quando já se reduziu o conhecimento a algo da ordem do coisificável, do objectivável, o ensino não passa de uma pedagogia procedimental, traduzida numa série de operações técnicas, mais ou menos padronizáveis, que se podem decompor, quantificar e seriar, i. e, classificar, e cuja “produtividade” pode ser aferida por “objectivos” e “metas”, processo que encontra nas “ciências da educação” o seu dispositivo de “legitimação científica”.
Mas, se o conhecimento for entendido, fundamentalmente, como uma actividade do espírito, uma forma de comunicação humana, de apropriação simbólica e cultural do mundo (cosmovisão), em que se forjam a identidade e a presença mas também a heteronomia e a alteridade – , então quando nos abeiramos disso que se designa por “ensinar” ou “educar” (pressupõem-se mutuamente) , entramos no domínio da intuição, do proximal, da contingência, da afecção. E o paradoxo, constitutivo da educação – que Rousseau percebeu, mas que os divulgadores apressados da pedagogia dita “romântica” ignoram – é que essa arte não exclui, antes implica, o rigor e a exigência, porque educar não é aceitar o “dado natural”, mas transformar em nome de um ideal, de um dever-ser.
As categorias operatórias e os parâmetros que um procedimento classificatório está habituado a reconhecer na sua lógica circular não conseguem, manifestamente, dar conta desta actividade fundamental, “humana, demasiado humana”.
- 5. Podemos admitir que o conceito de “modelo” aplicado ao processo de classificação do desempenho docente faz sentido, se – como frisei – abordarmos o exercício da docência de um ponto de vista administrativo e técnico-burocrático. Neste caso, o modelo classificar permitirá distinguir, hierarquizar, promover, excluir, tendo por base parâmetros assumidos como “objectivos”, como sejam o cumprimento de “metas” (de sucesso ou outras), de taxas de assiduidade, cumprimento de tarefas, frequência de formações, etc. O “modelo” de professor associado será, em síntese, correspondente ao perfil de um “funcionário do ensino”.
Se se quiser “avaliar a competência científica” do docente, é o sistema que o formou e lhe reconheceu as habilitações para ensinar que deve, antes de mais, ser avaliado ou classificado…
Avaliar o desempenho docente, quer pelo significado próprio – como precisei no ponto2 -, da operação de “avaliar”, quer sobretudo pela natureza mesma do objecto da avaliação, a docência (no seu sentido nobre), não é uma actividade passível de ser cingida a um simples “desempenho” e constrangida a um “modelo”.
«Num modelo bem construído, de facto, cada detalhe deve ser condicionado pelos outros, pelo que tudo se mantém em absoluta coerência, tal como num mecanismo (…); ao passo que, em relação à realidade, podemos facilmente verificar que ela não funciona, que se espapaça por todos os lados; portanto, nada mais resta do que obrigá-la a tomar a forma do modelo, a bem ou a mal.
(…) Mas quando, momentaneamente, deixava de fixar a harmoniosa figura (…), saltava-lhe à vista uma paisagem humana em que as monstruosidades e os desastres não tinham de algum modo desaparecido, e as linhas do desenho apareciam deformadas e distorcidas.
O que era preciso, então, era um subtil trabalho que trouxesse graduais correcções ao modelo, para o aproximar de uma possível realidade, e à realidade, para a aproximar do modelo; (…) agora, necessitava de uma grande variedade de modelos, talvez até de modelos transformáveis uns nos outros, segundo um processo combinatório, para encontrar o que assentasse melhor sobre uma realidade que, por sua vez, era sempre feita de realidades diferentes, quer no tempo quer no espaço.
(…) Escrúpulo bastante natural, dado que o que os modelos tentam modelar é sempre de qualquer modo um sistema de poder; mas se a eficácia do sistema se mede pela sua invulnerabilidade e capacidade de durar, o modelo torna-se uma espécie de fortaleza, cujas espessas muralhas escondem aquilo que está de fora (…).
Nesta conformidade, o modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter modelos transparentes, diáfanos, subtis como teias de aranha; talvez mesmo para dissolver os modelos, aliás, para se dissolver. (…).
Para fazer isto, é melhor que a mente permaneça vazia, mobilada apenas pela memória e fragmentos de experiência e de princípios subentendidos e não demonstráveis. (…) Assim, prefere manter as sua convicções num estado fluido, verificá-las caso a caso e fazer delas a regra implícita do seu próprio comportamento quotidiano, no fazer e no não fazer, no escolher e excluir, no falar e no calar-se.».
(Italo Calvino, Palomar, “O modelo dos modelos”).
Farpas
Julho 23, 2011 at 10:27 pm
Boa reflexão! (tenho de ir praticando a avaliação para que, quando chegar a Setembro, consiga desenvolver, com alguma capacidade, todas as “démarches” da avaliação dos vários relatados, a par das imensas tarefas inerentes ao arranque do ano lectivo. A qual dos dois trabalhos darei prioridade?)
Julho 23, 2011 at 10:39 pm
A burocratização de certas funções e o estabelecimento de objectivos foi o que aconteceu, um pouco por todo o lado, em determinadas classes profissionais, antes avaliadas de outras formas. A quantificação, muitas vezes discricionária, estendeu-se aos desempenhos inerentemente qualitativos, à semelhança do que aconteceu com a análise das componentes sociais do custo/benefício de projectos. Tudo são números. Infelizmente. É como somar 2 braços partidos, 3 guerras e uma depressão e dizer que o total é 6. É simplesmente uma maneira errada de usar a matemática.
Julho 23, 2011 at 10:51 pm
Reflexão sobre a ADD: Já chateia até ao infinito.
E esta que está a terminar FOI ESPECTACULAR, nomeadamente pelo facto de,por exemplo, se ter nomeado avaliadores SEM QUALQUER FORMAÇÃO PARA ISSO!!!
Venham-me cá falar do mérito de avaliar e classificar colegas!!!!
Julho 23, 2011 at 10:55 pm
Excelente entrevista com Philip Roth na RTPN
Julho 23, 2011 at 10:56 pm
Outra reflexão: como compreender que o GAVE, num ano em que há mais alunos a fazer exames e mais pedidos de reapreciações (nem vou falar dos critérios motivadores), tenha REDUZIDO o número de professores classificadores sobrecarregando-os com 60 provas na 1ª fase e mais um bom número na 2ª?
ISTO É QUE É BOM TRABALHO A MERECER UMA AVALIAÇÃO DE EXCELENTE!!!!
Julho 23, 2011 at 10:57 pm
A reflexão de Farpas levanta-me várias questões, que vou sintetizar nesta:
1- Se não há o modelo perfeito ( existe, apenas, enquanto utopia), os professores não devem ser avaliados?
Julho 23, 2011 at 11:04 pm
“facilitar o constrangimento formal e hierárquico.”
Dar portanto poder aos diretores e estrututas intermédias noemadas por ele.
Mas também criar um clima conflitual permanente com consequencias negativas no trabalho letivo.
Julho 23, 2011 at 11:04 pm
Este é um país de avaliadores e avaliandos (não falo dos profs) que o deixaram chegar à bancarrota e que, mesmo assim, vão progredidndo na carreira!
A isto chama-se recompensar o mérito. Isto está na lama e as preocupações maiores relacionam-se com a treta da ADD que, se houvesse gente de palavra, já teria terminado há muito.
Como nos próximos 10 anos não vai haver progressões para ninguém e a idade da reforma vai aumentar para os 70 anos, vamos lá trabalhar para o Excelente, passarmos o tempo em avaliações entre colegas e esquecer o trabalho com os alunos.
Julho 23, 2011 at 11:10 pm
Acredito que nisto da avaliação há uma forte motivação de sadismo e masoquismo, é ver programas de televisão como o master chef, a prepotência e a humilhação justificadas pela selecção dos melhores, sem preocupação de justiça ou da utilidade, o que interessa é o espectáculo. Há gostos para tudo.
Julho 23, 2011 at 11:18 pm
Alguém me consola, informando-me do nome de outros países europeus e civilizados onde os professores começam o ano lectivo lendo relatórios de auto-avaliação de colegas, fazendo reuniões para escolher quem terá direito a quota para progredir na carreira, fazendo aplicações electrónicas para ministério ver, a par da preparação das actividades lectivas?
e que não somos os únicos a subvalorizar o trabalho de ensinagem.
Digam-me, p.f., que eu fico mais feliz se souber que há outros a sofrer, como eu
Aproveito para agradecer à Isabel Alçada, aos sindicatos e a este governo – que não cancelou o processo- o facto de fazer de nós super qualquer coisa….
Julho 23, 2011 at 11:24 pm
Ao ler isto fiquei pasmado (ou será “plasmado”, como se diz agora?), mas decididamente atónito! Lacan (ou mesmo Derrida) não escalpelizaria (bonita palavra) melhor esta ADD do descontentamento dos professores.
Não é fácil seleccionar mas escolho esta “fatia”:
“ensinar é a mais humana – e por isso a mais nobre e complexa – das actividades, o que significa que a pedagogia pertence mais ao domínio da arte do que ao da técnica”
Quantas conclusões se podem tirar desta frase… Para já tiro apenas esta: foi um artista que aescreveu!
Julho 23, 2011 at 11:28 pm
boa boa…
Julho 23, 2011 at 11:49 pm
esta tb é boaaaaaa..boa boa
http://www.canalbenfica.com/index.php?topic=521.0
Julho 24, 2011 at 12:00 am
Se todos somos professores e somos “artistas”, como é que aceitámos que este modelo de avaliação fosse posto em prática, martirizámos outros colegas, martirizámo-nos a nós, e se calhar ainda vamos aceitar outro modelo pior?Esta é a reflexão sobre a reflexão…
Julho 24, 2011 at 12:00 am
Bom texto do Farpas, a colocar o dedo na ferida que mais dói: a de constatar que já repetimos, em piloto automático, o quanto é preciso uma ADD, e no mesmo passo assumindo, imlicitamente, que “antes” não havia ADD (o que é uma falsidade).
Não concluo daqui que a proposição “É necessário haver avaliação de desempenho” seja verdadeira ou falsa. Tão-só que já ninguém se questiona sobre a legitimidade da pergunta: deve ou não haver ADD?
É que, como o Farpas demonstra, a resposta a essa pergunta (seja afirmativa ou negativa) é todo um programa. Mas essa discussão é demasiado radical para o frenesim acritico que se vive.
Discordo, porém, do Farpas no seguinte: é possível classificar, o âmbito institucional, utilizando critérios objectivos de carácter administrativo, como a assiduidade, o cumprimento de formação, a antiguidade, a classificação académico-profissional, etc.
Nada disto deve, todavia, confundir-se com a classificação do ´”mérito”. A excelência não é mensurável, nem visa a premiação. Não é mensurável porque não temos uma medida (qual é o modelo do professor excelente?), não visa a premiação porque seria a sua própria negação.
Julho 24, 2011 at 12:24 am
Só mesmo artistas para se deixarem avaliar duas vezes por tal coisa.
Julho 24, 2011 at 12:25 am
# 10 O mesmo se vai passar comigo e mais uns milhares que iremos iniciar o ano lectivo a ler relatórios, e tanta outra burocracia sem fim. Os alunos serão vítimas da continua cegueira do ME. Até quando???
Julho 24, 2011 at 12:27 am
Errata ” (…) e a mais uns milhares que irão(…)”
Julho 24, 2011 at 1:23 am
Parece-me que há muita gente esquecida do que se passou há 2 anos e nem foi assim há tanto tempo, pois não? Combinadíssimo para não se entregar objectivos individuais e vai daí…..viu-se. Para mim chegou e sobrou.
Colegas,
Venha o que vier já não acredito em ninguém. Se for esta ADD, parecida, melhor ou pior (não é fácil) os profs alinham da mesma forma que alinharam com esta e com as anteriores.
Boas férias
Julho 24, 2011 at 2:15 am
Funções do Relator, Júri de avaliação e Comissão de Coordenação…vejam posição assumida pelas escolas secundárias de Braga em http://www.esas.pt
Julho 24, 2011 at 3:46 am
Tudo o que é dito sobre esse acto ignóbil que é avaliar, fazêmo-lo todos os dias enquanto professores…
e recorremos a esse “dispositivo da normalização” que é a classificação … malditos sistemas de poder…
maldita cultura…
a culpa deve ser do hemisfério esquerdo….
maldita filogénese.
Julho 24, 2011 at 4:29 am
Bom texto, apesar de um pouco extenso e ainda melhor comentário, o de #15.
Julho 24, 2011 at 9:46 am
#20 Um diretor “adesivado” resolve que lhe enviem as notas atribuidas antes do juri reunir depois é só usar truques tipo “Luis de Matos” e aparece tudo sem empates.
Como vêem a imaginação para dar corpo a uma lei incompleta não tem limites.
Julho 24, 2011 at 10:22 am
Farpas presta um excelente serviço com esta reflexão. Seria bom que muitos colegas colocassem a mão na consciência e refletissem sobre o seu efetivo papel nesta podre add. Nos próximos tempos a relação entre os pares não será a mesma.
#3…bravo! simples e assertivo. Mais blá blá para quê???
Julho 24, 2011 at 10:23 am
A paranóia da avaliação irá levar-nos a muitos burn outs…a avalição em si mesmo é necessária mas em muitos países a mesma existe sem esta trama kafkiana…simples objective e com o peso diferenciado em relação à progressão na carreira…nada no que toca a concursos e muito mais formativa..enfim caminhamos a passos largos para um sociedade que de tão avaliativa se irá esquecer dos valores..no fundo a Lurditas ganhou..tipo a mordidela do vampiro…transformou-nos naquilo que tanto criticamos em relação ao modelo que ela implantou…a escola caminha a passos largos para um admirável mundo novo…..fui…
O QUE DEVIA SER A ESCOLA…
Não podemos negar que a escola não deu aos seus alunos todas as possibilidades que lhes devia dar, desprezou os mal dotados, obrigou-os a actos ou tarefas que lhes depuseram na alma as primeiras sementes do despeito ou da revolta, lhes deu, pelo quase exclusivo cuidado que votou ao saber, deixando na sombra o que é o mais importante — formação do carácter e desenvolvimento da inteligência —, todas as condições para virem a ser o que são agora; se não saíram da escola com amor à escola, a culpa não é deles, mas da escola. Acresce ainda que, lançados na vida, a escola nunca mais procurou atraí-los, nunca mais foi ao encontro dos seus antigos alunos, para lhes aumentar a cultura, os informar e esclarecer sobre novas orientações de espírito, para lhes pedir a sua colaboração, o seu interesse na educação das gerações mais moças. Houve um corte de relações, quando a sua manutenção poderia ainda de algum modo apagar as más lembranças que os alunos levavam. Que admira que sintamos agora à nossa volta paixão e rancor? Tivemo-los nas nossas mãos e não fizemos por eles tudo quanto podíamos, mesmo com as possibilidades económicas e pedagógicas de que nos cercara o meio; em nós temos de reconhecer o principal defeito; por consequência, também em nós a principal causa do ataque.
Agostinho da Silva
Julho 24, 2011 at 11:35 am
17, Obrigada, colega.
Como ninguém me indicou o nome de outro país europeu, vou alargar a pesquisa a todo o planeta e a todos os planetas do sistema solar e a outras galáxias: alguém conhece lugar, país ou sistema de ensino onde os professores tenham de iniciar um ano lectivo com a avaliação dos seus pares?
O PISA (ou outro qualquer organismo) tem em conta que os alunos portugueses não têm professores a eles dedicados a 100%, quando analisa os resultados escolares?
Julho 24, 2011 at 1:48 pm
SIM …NO BURKINA FASO ESE BASTIÃO DO PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO MUNDIAL…
Julho 24, 2011 at 2:51 pm
Na blogosfera, começa-se a ler comentários e posts, já não de crítica a este ou àquele modelo de avaliação de desempenho, mas contra a própria ideia e prática de avaliação de desempenho. Se essa posição começar a generalizar-se, ter-se-á um problema ainda mais complicado do que aquele que se viveu durante os dois Governos de Sócrates, uma vez que esse dizia ainda e apenas respeito ao modelo de avaliação e não ao princípio de avaliação.
Julho 24, 2011 at 2:59 pm
“Nesta altura não restava a Palomar mais do que eliminar da sua mente os modelos e os modelos dos modelos. Concluído também mais este passo, Palomar encontra-se cara a cara com a realidade pouco contolável e não homogeneizável, a formular os seus ‘sim’, os seus ‘não’, os seus ‘mas’.
(…)Falta-lhe apenas expor estes belos pensamentos de forma sistemática, mas um escrúpulo detém-no: e se resultasse daí um modelo?”.
Julho 24, 2011 at 3:11 pm
O que é que se pode perguntar das pessoas com palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?… Vale pouco (…) São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o fenómeno mais raro da vida. Na altura, ainda não o sabia. Agora não me refiro aos mentirosos, aos safados. Só penso que conhecer a verdade, adquirir experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter. Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o carácter pessoal. É a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não seríamos mais sábios, nem mais protegidos…
Sándor Márai, in ‘As Velas Ardem Até ao Fim’
Julho 24, 2011 at 3:57 pm
Os professores eram avaliados? ou auto avaliavam-se ? antes de se iniciar este psicodrama sobre a ADD?
O que é que decorria desse processo de auto avaliação?
Não sejamos pantanosos, porque não se pode limpar a sujidade com lama.
Vamos conceder que o professor é um artista. Ainda assim é legítimo questionar: os artistas não podem ser avaliados?
Não há melhores e piores? Uns mais competentes e mais criativos do que outros?
Não me incomoda nada que existam escolas com melhores artistas e outras com piores.
Desde que quem lá entra saiba antecipadamente ao que vai! Tal como nos espectáculos e nos concertos.
O que impressiona é a ideia de que todos são competentes e merecem exercer a sua profissão/arte, quando sabemos que mesmo nisto da arte se exige muito trabalho e dedicação, inclusivé para aqueles que nascem já dotados para o exercício daquilo em que são excelentes e únicos.
Portanto as divisões forçadas entre “áreas” de exercício profissional, não justificam, só por si a existência ou não de “avaliação”.
Porque existe muita maneira de avaliar, de forma honesta e justa, o exercício de uma determinada arte ou profissão, mas têm de ser os outros, aqueles que são sujeitos dessa acção, a poderem avaliar aquilo que os afecta enquanto seres humanos e cidadãos.
Por isso acho que já é altura de acabra de vez com a fraude da auto avaliação enquanto “prova” de qualquer tipo decente de avaliação, uma vez que mais não representava do que uma combinação de interesses narcisistas e corporativos para manter os professores num mundo à parte, sem qualquer escrutínio dos restantes mortais.
Julho 24, 2011 at 4:07 pm
H5N1 SERÁ QUE CONCORDAS COM ESTA FIRMAÇÃO… E DA FORMA DE A USAR ATÉ AOS LIMITES…? SE FOSSES TU A ESCREVE-LA ENCAIXAVA QUE NEM UMA LUVA…
Uma pessoa com convicção tem a força equivalente a 100 mil que tenham apenas interesses.
STUART MILL
Julho 24, 2011 at 4:17 pm
Para se avaliar algo ou alguém é necessário estabelecer uma norma a que esse algo ou alguém deve obedecer. E é aqui que se colocam as dificuldades em avaliar integralmente a actividade docente. Será pacífica a ideia da avaliação científica (domínio das áreas do saber específicas de cada professor e domínio da língua portuguesa, por exemplo), ou a avaliação final em acções de formação. Já outros parâmetros de avaliação, como assiduidade (que deve estar legalmente enquadrada e não deverá existir um segundo juízo sobre a mesma ocorrência), produção de materiais didácticos (um dos melhores professores da minha vida, a Filosofia no 10º ano, nunca apresentou um acetato ou distribuiu apontamentos), para já não falar dos disparates quase pidescos do actual modelo que dão pelo nome de “evidências”, dificilmente podem ser entendidos como indicadores da “norma” a que o professor excelente deve obedecer.
Para se possuir uma avaliação justa, é imprescindível que seja objectiva. Para ser objectiva, é necessário que seja comparável. Para ser comparável tem que ser quantificável. Tem, por isso, que ser expurgada dos factores subjectivos relacionados com a personalidade de cada um e incidir no que é essencial na actividade de um professor. O que resta?
Aulas observadas? Nada contra, mas com que parâmetros de avaliação e com que ponderação do meio-turma?
Julho 24, 2011 at 5:19 pm
#31
O que a maioria, afinal, pretende é ver os professores como outro funcionário qualquer, a ter de cumprir um horário de trabalho como os demais, a enfrentar os problemas de educação que esses lhe atiram para cima, a estar nas aulas, não para ensinar mas apenas para tentar impor algumas regras de comportamento e de sociabilidade, a despachar os seu papéizinhos lá para os chefes e pronto. E claro, serem “avaliados” por isso. Como, não interessa, desde que sejam “avaliados como todos os outros”, que não “subam” na carreira como lhes apetece, isso é que se quer…
Que o professor possa (deva) ser uma pessoa de cultura, de espírito, que precise de tempo e de espaço para tal, porque isso se cultiva e não aparece por acaso, que deva ter uma mundividência que vá para além da do simples burocrata, para abrir outos horizontes e mostrar outros valores (que não os do simples hedonismo consumista) aos seus alunos, que possa até precisar (escândalo!) de respirar para sacudir o stress do trabalho que as famílias se dispensam de ter (“ai os meus filhos!, fico com a cabeça em água, não consigo aturá-los, eu que tanto preciso de descanso…”), já isso parece ser difícil de aceitar.
Há, em sentido paralelo, um preconceito que não deixa perceber que o trabalho intelectual é da ordem da qualidade e não da quantidade. Essa modalidade de trabalho – que é de algum modo menos visível, palpável -não se desenvolve proficuamente pela sua “extensão”, e não pode ser medido pela simples “rentabilidade” ou “produtividade”. Gostava que me indicassem o modelo para avaliar realmente (não digo “classificar”, para isso chegam as aulas terapêutico-assistenciais ou as “assistidas” e as tarefas burocráticas) esse tipo de trabalho.
Se há conquista que a psicologia genética trouxe (as ilações que daí se tiraram é outra coisa…) foi ter mostrado que as crianças não são adultos em ponto pequeno, mas que precisam de tempo próprio – de etapas graduais – para crescer; e quem diz isso, diz oportunidade para brincar, para jogar, para terem tempo e espaço para si e para estarem com a família.
Sociedades sem lugar para se ser criança ou jovem (que não seja robotizado), Escolas-fábrica-a-tempo-inteiro que infantilizam pelo eduquês, famílias que não eduquem e não responsabilizem: podem produzir alguma coisa, talvez até alguns cidadão com “competências”, mas dificilmente produzirão bons cidadãos.
O potencial de violência que se percebe nas actuais sociedades, designadamente nas tidas por mais desenvolvidas (como a Noruega…) devia já ter mostrado o plano inclinado por onde vamos…
Ah!, pois, mas então e a “cultura de avaliação”, a avaliação dos professores?…
Julho 24, 2011 at 7:28 pm
Mas quando tanto notável e representante dos professores se vira para o Estado, a implorar por melhores condições, tal como os muculmanos de viram para Meca, não estaremos a passar a mensagem de que a classe se identifica precisamente pela sua fidelidade e funcionarização em relação a esse poder que os instrumentaliza?
O que têm feito os partidos e sindicatos senão criar laços de dependência absoluta e total em relação a um Estado paternalista e simultaneamente cumplice da actual situação na educação?
Tal como os alunos revelaram nos exames de LP que não conseguem “pensar” para além dos enunciados e dos textos que lhes são apresentados, assim também os professores parece terem desistido de reflectir sobre a sua própria situação.
Aceitam os “memorandos de entendimento” e todas as propostas cozinhadas, sem pestanejar, porque estão habituados a que tudo lhes corra sem problemas, sem se esforçarem e sem se empenharem na construção da sua narrativa pessoal e profissional.
Lá está o Estado todo poderoso e os seus aparelhos de guarda para os pastorearem.
Agora, basta ver como muitos se entregaram à tarefa que lhes foi confiada, de forma alegre e confiante, a bem da Nação.
Foram bem treinados, lá isso foram.
Julho 24, 2011 at 10:36 pm
Parabéns ao Farpas pelo texto tão elaborado e filosófico mas dentro da realidade.
Julho 24, 2011 at 11:46 pm
“Tal como os alunos revelaram nos exames de LP que não conseguem “pensar” para além dos enunciados e dos textos que lhes são apresentados, assim também os professores parece terem desistido de reflectir sobre a sua própria situação.” (#35).
h5n1: não lhe parece que questionar a pertinência de avaliações de desempenho formais é precisamente uma prova de que, afinal, os professores ainda “reflectem sobre a sua própria situação”?
Julho 24, 2011 at 11:51 pm
#34 absolutamente de acordo
contudo, e voltando ao texto, avaliar é tão incontornável como o carácter intrínseco de atribuir valor… e não vale a pena incorrer na falsa dicotomia natural/cultural… qualquer que seja a dimensão da “avaliação” a questão premente é realmente a do “modelo”…
não sei que ciclo é este, e se é consequência ou variante da pós-modernidade, mas no meio do imenso ruído e pluralidade das perspectivas, falta a “ética do agir comunicacional”, esse velho pressuposto a priori, que nos torna diferentes quando se fala entre outras coisas de “avaliação”, e perante a qual temos muita dificuldade com o particípio passado, quando a nós se refere… para além do problema comum à natureza humana, acresce a ausência de propostas credíveis… um modelo precisa-se…
para a avaliação de professores… e já agora para a Europa, economia, política…
Julho 25, 2011 at 12:42 am
No fundo, uma grande parte dos professores não quer avaliação nenhuma! Essa é a grande e dura verdade!
Julho 25, 2011 at 1:28 am
39,
Parabéns pela “brilhante” conclusão!
Nem aos calcanhares de La palisse chegou, julgando -se Deus, conhecedor de todas as almas!
Se o seu argumento para defender esta ADD é esse, enfie a cabeça na areia!