O subtil, o reflexo, o vago, o indefinido,
Tudo o que o nosso olhar só vê por  um momento
Tudo o que fica na Distância diluído,
Como num coração a voz do  sentimento.
Tudo o que vive no lugar onde termina
Um amor, uma luz, uma  canção, um grito,
A última onda duma fonte cristalina,
A última nebulosa  etérea do Infinito…
Esse país aonde tudo principia
A ser névoa, a ser  sombra ou vaga claridade,
Onde a noite se muda em clara luz do dia,
Onde o  amor começa a ser saudade;
O longínquo lugar aonde o que é real
Principia  a ser sonho, esperança, ilusão;
O lugar onde nasce a aurora do Ideal
aonde a luz começa a ser escuridão…
A última fronteira, o último  horizonte,
Onde a Essência aparece e a Forma terminou…
O sítio onde se  muda a natureza inteira
Nessa infinita Luz que a mim me deslumbrou!…
indefinido, a sombra, a nuvem, o apagado,
O limite da luz, o termo dum  amor,
Tornou o meu olhar saudoso e magoado,
Na minha vida foi minha  primeira dor…
Mas hoje, que o segredo oculto da Existência,
Num momento  de luz, o soube desvendar,
Depois que pude ver das cousas a essência
E a  sua eterna luz chegou ao meu olhar,
Meu infinito amor é a Alma  universal,
Essa nuvem primeira, essa sombra d’outrora…
O Bem que tenho  hoje é o meu amigo Mal,
A minha antiga noite é hoje a minha aurora!…

[Teixeira de Pascoaes]