A História é escrita pelos vencedores ou pelos sobreviventes? Depende.

O sucesso da revolução de 25 de Abril pode atribuir-se a uma personalidade acima de outras? Alguém fez o 25 de Abril?

Otelo acha que foi ele. Eu acho que foi tanto ele quanto Salgueiro Maia. Sem Salgueiro Maia avançar quando tudo parecia estar a correr mal (um pouco como Machado Santos em 1910), dificilmente os planos de Otelo teriam servido para alguma coisa.

Otelo fala como se fosse uma espécie de dono do 25 de Abril. Percebe-se esta forma de exaltação própria num processo que teve muito mais gente decisiva, embora não se possa falar em massas, que essas chegaram depois.

Aliás, de tudo aquilo que nas últimas semanas tem sido atribuído a Otelo Saraiva de Carvalho ou que o próprio disse, eu encontro especial lucidez nesta passagem:

“O povo está sempre à espera que alguém faça alguma coisa”. E continua pouco preocupado em ser politicamente correcto, explica: “O povo está sempre nas encolhas, e dizem: ‘É preciso que vocês façam, que nós apoiamos.’”

Porque isto é verdade. Para o presente, com base no próprio passado. Só quem tem da História uma visão muito parcial, enviesada ou lacunar é que não é obrigado a reconhecer que entre nós não há, há mais de 150 anos, qualquer movimento revolucionário de sucesso que tenha sido empurrado pelas massas.

Aliás, até a própria revolução liberal de 1820 parte de um pronunciamento militar. Se é verdade que a primeira metade do século XIX assiste a movimentos populares de revolta, nenhum deles foi capaz de fazer inflectir o regime existente de forma duradoura. E em alguns casos, as massas foram manifestamente contra-revolucionárias (na Maria da Fonte, por exemplo).

No século XX, a regra é mesmo essa: as mudanças de regime de tipo revolucionário só aconteceram quando as forças armadas – ou parte delas - aderiram ou promoveram um movimento insurreccional planeado a partir de um grupo restrito. Em 1910, 1926 e 1974, a revolução foi resultante de um golpe (militar) de Estado. As massas ou apareceram a apoiar (1910, 1974) de forma mais ou menos entusiasmada ou primaram pela ausência (1926).

Otelo tem razão no que diz sobre as massas nacionais, sempre demasiado prudentes para avançarem sem uma vanguarda que faça o trabalho mais pesado.

Por isso é interessante, mas apenas isso, ler certos apelos à revolta das massas como motor de uma espécie de mudança de regime.

Não tenhamos ilusões: não é por aí que se passará seja o que for.

Mas também não passa por nenhum homem providencial, por muito que o busquemos (e o não encontremos).

A regeneração disto só pode passar por outra via e não é um qualquer Otelo que o conseguirá fazer, mesmo se ajudado por um determinado Salgueiro Maia.

Entre algumas vanguardas iluminadas, quantas vezes em busca de cooptação, e as massas que se satisfazem com a Avenida da Liberdade, pensando que basta mostrarem-se e desfilar, terá que existir uma terceira via.