A base de dados do PISA é um manancial de informações, umas pouco relevantes, outras interessantes. Neste caso, fui em busca da influência dos portefólios no desempenho dos alunos.
Antes de mais é curioso que na OCDE a proporção dos alunos que não usam portefólios duplica a que se verifica em Portugal.
Depois há um detalhe que acho muito interessante – até porque justifica (hélas, olhem-me a usar o PISA em proveito próprio!) a minha prática – que é o facto de em Portugal os melhores resultados se obterem claramente no caso dos alunos cujos portefólios são verificados 3 a 5 vezes por ano e em média na OCDE os resultados decaírem crescentemente a partir da utilização 1 ou 2 vezes por ano.
Que os portefólios podem e são úteis, não tenho dúvidas nenhumas. Que a obsessão com eles é prejudicial também acho. Por mim chega uma verificação a meio dos períodos mais longos e outra no final. Parece que é a prática mais sensata e, pelos vistos, a que menos prejudica os alunos…


Dezembro 19, 2010 at 9:35 pm
Desculpem o despropósito, mas acabo de receber por mail e não resisto a divulgar
CONFISSÃO DE UM PROFESSOR
O Diário do Professor Arnaldo – A fome nas escolas
Publicado em 19 de Novembro de 2010 por Arnaldo Antunes
Ontem, uma mãe lavada em lágrimas veio ter comigo à porta da escola. Que não tinha um tostão em casa, ela e o marido estão desempregados e, até ao fim do mês, tem 2 litros de leite e meia dúzia de batatas para dar aos dois filhos.
Acontece que o mais velho é meu aluno. Anda no 7.º ano, tem 12 anos mas, pela estrutura física, dir-se-ia que não tem mais de 10. Como é óbvio, fiquei chocado. Ainda lhe disse que não sou o Director de Turma do miúdo e que não podia fazer nada, a não ser alertar quem de direito, mas ela também não queria nada a não ser desabafar.
De vez em quando, dão-lhe dois ou três pães na padaria lá da beira, que ela distribui conforme pode para que os miúdos não vão de estômago vazio para a escola. Quando está completamente desesperada, como nos últimos dias, ganha coragem e recorre à instituição daqui da vila – oferecem refeições quentes aos mais necessitados. De resto, não conta a ninguém a situação em que vive, nem mesmo aos vizinhos, porque tem vergonha. Se existe pobreza envergonhada, aqui está ela em toda a sua plenitude.
Sabe que pode contar com a escola. Os miúdos têm ambos Escalão A, porque o desemprego já se prolonga há mais de um ano (quem quer duas pessoas com 45 anos de idade e habilitações ao nível da 4ª classe?). Dão-lhes o pequeno-almoço na escola e dão-lhes o almoço e o lanche. O pior é à noite e sobretudo ao fim-de-semana. Quantas vezes aquelas duas crianças foram para a cama com meio copo de leite no estômago, misturado com o sal das suas lágrimas…
Sem saber o que dizer, segureia-a pela mão e meti-lhe 10 euros no bolso. Começou por recusar, mas aceitou emocionada. Despediu-se a chorar, dizendo que tinha vindo ter comigo apenas por causa da mensagem que eu enviara na caderneta. Onde eu dizia, de forma dura, que «o seu educando não está minimamente concentrado nas aulas e, não raras vezes, deita a cabeça no tampo da mesma como se estivesse a dormir».
Aí, já não respondi. Senti-me culpado. Muito culpado por nunca ter reparado nesta situação dramática. Mas com 8 turmas e quase 200 alunos, como podia ter reparado?
É este o Portugal de sucesso dos nossos governantes. É este o Portugal dos nossos filhos.
Dezembro 19, 2010 at 9:40 pm
O que é um portfolio?
Os alunos pioram se tiverem um dossier ou um caderno e uma capa com micas?
Dezembro 19, 2010 at 9:43 pm
Desculpem a minha ignorância, mas a que é que chamam “portefólio”?
Será a mesma coisa que caderno diário, só que em mais fino, com umas bolsas de plástico não reciclável para evitar que os meninos tenham de furar as folhas a arquivar?
Ou será coisa mais complicada, daquelas que dão para fazer teses nas escolas eduquesas e que obrigam o professorzeco a “fazer formação” se quiser perceber o alcance?…
Dezembro 19, 2010 at 9:44 pm
#3, tenho a mesma dúvida que tu, como podes ler em #2.
Dezembro 19, 2010 at 9:51 pm
A Ministra não sabe quais foram as escolas portuguesas seleccionadas para o PISA mas o GAVE já descobriu.
http://www.publico.pt/Educação/escolas-poderao-conhecer-resultados-dos-seus-alunos-no-pisa_1471552
Dezembro 19, 2010 at 9:51 pm
xiuuu…
Dezembro 19, 2010 at 9:51 pm
Portefólio é, teoricamente, um dossier ou outro “aparato”, distinto do caderno diário, onde o aluno coloca os materiais adicionais de estudo, informação, avaliação, etc.
Na minha opinião, a separação entre caderno e portefólio pode ser prejudicial.
Prefiro a “incorporação” de tudo num dossier.
Se o dossier for para várias disciplinas, percebo o problema, mas mesmo assim, que tal um dossier-portefólio para as “letras” e outro para as “ciências”?
Isto para não falar nas Expressões, que têm portefólios específicos…
Dezembro 19, 2010 at 9:52 pm
#1
Isto é tão horrível!
Dezembro 19, 2010 at 10:00 pm
Uma questão parecida com esta é o dilema entre o dossier do DT, que sempre existiu, e o Projecto Curricular de Turma (PCT), que começou a fazer-se há uns anos atrás, quando um eduquês-burocrata qualquer decidiu que era preciso.
Já houve anos em que tive de organizar dois dossiers, já houve outros em que o PCT tinha uma existência mais ou menos virtual: estava arquivado num computador ou numa pen e só saía de lá se fosse necessário.
Esta ano a minha escola resolveu o problema: o dossier do DT passou a chamar-se oficialmente PCT…
Dezembro 19, 2010 at 10:05 pm
Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se? (…) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida – da sua, claro – para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal… sempre foi.
Alexandre O’Neill
Dezembro 19, 2010 at 10:08 pm
Estava para fazer a mesma pergunta sobre portfólios. Concordo com o Paulo; chamem-lhe portfólio ou outra coisa qualquer, o que o aluno deve ter é tudinho arquivado. Mas há muitos que não o fazem. Noutros tempos também muitos não tinham o caderno organizado. Vai dar no mesmo. Agora, há mais papelada, informação, fichas e outras coisas.
Dezembro 19, 2010 at 10:25 pm
Cada vez dou menos fichas.
Aborrece-me gastar papel.
Há os manuais, os cadernos de exercícios, o quadro e a nossa imaginação para inventar sempre exercícios novos.
Dezembro 19, 2010 at 10:27 pm
Os meus alunos tb usam dossier, embora eu ache que alguns têm dificuldade em organizar-se no meio de tantas disciplinas ( sobretudo no 5º ano).
Este ano, permiti cadernos diários e uma capa de micas para os testes e fichas.
Pesa menos nas costas e rasgam-se menos as folhas.
Dezembro 19, 2010 at 10:28 pm
#7, o problema das “letras” e “ciências” é que eles têm, no horário, disciplinas das duas “áreas” várias vezes por semana. Acabam por carregar, quase sempre, os 2 dossiers…
Dezembro 20, 2010 at 1:09 am
1- O problema da fome não é um problema de somenos. Há crianças que têm fome e por isso estão nas aulas com dores de barriga e com dores de cabeça e isto já para não falar do seu estado de alma. Mas o primeiro ministro diz que denunciar a fome é demagógico, por isso, na cabeça dele não há fome. Se fosse apenas uma questão de ilusão inócua, não haveria problema, mas há! É que há fome a dar um nó no estômago de muitos que não sabem como mitigá-la. (Peço desculpa por não ter relação com o post)
Dezembro 20, 2010 at 3:23 am
Patacoadas da modernidade.
Dezembro 20, 2010 at 9:49 am
Lecciono uma disciplina em que ele é obrigatório (Área de Projecto do 12º ano)e útil. É também uma espécie de caderno diário com um Sumário mais alargado. Descrevem todas as actividades desenvolvidas nas aulas com a respectiva reflexão crítica e planeamento da aula seguinte (semanal). Contém também tudo o que foi referido pelo Paulo.
Vejo-o e classifico-o no final de cada período. Quando necessário, também a meio. Não necessitam de o levar para as aulas, apenas os docs que vão usar.