Não se trata propriamente de memória selectiva, aquela que apaga e acende os acontecimentos conforme. Trata-se de uma forma algo diferente, de obliterar a memória por motivo de conforto e deixar que quem parece que aguenta se aguente. É uma forma cobarde de viver, mas que se percebe, num tempo de medos vários e receios, muitos, de solidão.
É complicado quando se depende deste tipo de memória para reconstituir uma verdade, restituir os factos à sua realidade, recuperar uma parcela de dignidade ao que se perdeu.
É complicado ter de ignorar que o nosso carácter pode ser vítima desse súbito nevoeiro que acomete quem teria o poder de fazer justiça onde ela desapareceu.
E tanto mais custa quanto se sabe que não foi esquecimento, confusão, o que aconteceu. Falta de coragem, apenas. Medo de. Opção por agarrar o que há, não arriscando ser.
Custa ver isso. Saber que há quem viva assim.
Aos poucos desiste-se. De quem assim é. Porque se sabe que apenas temos ali um simulacro. De vida. De pessoa.
Novembro 1, 2010 at 12:35 am
“São raros os homens que se apoderam do futuro com mãos criadoras”
Novembro 1, 2010 at 12:36 am
Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade – pois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?
O animal quer também responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas também já esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem também se admira de si mesmo por não poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e rápido que ele corra, a corrente corre junto. É um milagre: o instante em um átimo está aí, em um átimo já passou, antes um nada, depois um nada, retorna entretanto ainda como um fantasma e perturba a tranquilidade de um instante posterior. Incessantemente uma folha se destaca da roldana do tempo, cai e é carregada pelo vento – e, de repente, é trazida de volta ao colo do homem. Então, o homem diz:«eu lembro-me», e inveja o animal que imediatamente esquece e vê todo o instante realmente morrer imerso em névoa e noite e extinguir-se para sempre. Assim, o animal vive a-historicamente: ele passa pelo presente como um número, sem que reste uma estranha quebra.
Friedrich Nietzsche
Novembro 1, 2010 at 1:08 am
“simulacro de pessoa”. Gostei do texto.
Simpático! Eu chamo-lhes outra coisa…
Novembro 1, 2010 at 3:22 am
Não foi o Paulo que disse – faz anos – ter memória curta, mas de boa qualidade? E então?
Novembro 1, 2010 at 9:14 am
Gostei muito destas palavras.
Pela tristeza que encerram, pq é um texto de tristezas e desânimos. DE nevoeiros, como diz o paulo.
Mas também de máscaras, de conformidades, de conformismo.
Sobre operações plásticas, eu diria.
Novembro 5, 2010 at 4:45 pm
Também “gosto” do texto. Pelo mistério que dele emana e porque entendo o sentimento desiludido que encerra…
A forma cobarde de viver, o “simulacro de vida. De pessoa.”