Ouvi mais uma bateria de especialistas a falar dos problemas do orçamento e daquilo que deve ser feito do lado da despesa e da receita e tal, aquelas coisas que eles falam como se estivessem a fazer contas no papel almaço da mercearia.
Aliás, tomara nós que eles fossem bons merceeiros, que nem isso são, meros adivinhões sempre falhados, não fosse a econometria a medição dos falhanços entre as previsões dos economistas e aquilo que depois eles dizem saber corrigir.
Mas em toda sua sabedoria, apesar da rotunda discrepância, a maioria clama, com indignação, tremor e quase chispa no olhar: não se pode sacrificar mais o rendimento das famílias, há que cortar na despesa do Estado!!!
Por despesa do Estado entende-se quase sempre – que outra coisa não querem dizer – corte nos rendimentos dos funcionários públicos, seja reduzindo-lhes o emprego, seja reduzindo-lhes o salário.
O que me levanta uma questão, quiçá bizantina, quiçá otomana: mas será que funcionário público não tem família? Será que cortando nos salários dos funcionários públicos não se está a diminuir o seu rendimento disponível?
Interrogo-me: família de funcionário público é coceira em genitalia alheia, como quem diz colírio ardente em olho terceiro?
Outubro 31, 2010 at 10:40 pm
Poema dum Funcionário Cansado
A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.
António Ramos Rosa
Outubro 31, 2010 at 10:40 pm
Adorei!
Só o Paulo G para escrever assim!
Abraço!
Outubro 31, 2010 at 10:47 pm
5 estrelas!
—
“Por despesa do Estado entende-se quase sempre – que outra coisa não querem dizer – corte nos rendimentos dos funcionários públicos, seja reduzindo-lhes o emprego, seja reduzindo-lhes o salário.”
Que mais se pode esperar destes políticos obtusos que mais não fazem do que papaguear a sua inteligência abjecta?
Outubro 31, 2010 at 10:50 pm
O papel almaço da mercearia …q saudades! lembro-me, era pequenita e ia à mercearia fazer recados, o sr. Daniel fazia as contas com mestria no tal papel almaço.
Outubro 31, 2010 at 10:55 pm
#4,
Há quem se esqueça.
Eu ainda não.
A contabilidade das mercearias era uma maravilha do rigor perante as contas dos OE.
Outubro 31, 2010 at 11:00 pm
#5
Outubro 31, 2010 at 11:05 pm
Outubro 31, 2010 at 11:10 pm
Convém não esquecer que o Grande Inspirador da tese “fuck the public officials” foi um tal de Medina Carreira.
Que, estranhamente ou talvez não, nunca mais foi visto por aí desde que anunciaram os cortes “médios” de 5% na F.Pública.
Será que aprovaria um cortezinho de 10% nas suas reformas douradas?
Outubro 31, 2010 at 10:13 pm
Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade – pois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?
O animal quer também responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas também já esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem também se admira de si mesmo por não poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e rápido que ele corra, a corrente corre junto. É um milagre: o instante em um átimo está aí, em um átimo já passou, antes um nada, depois um nada, retorna entretanto ainda como um fantasma e perturba a tranquilidade de um instante posterior. Incessantemente uma folha se destaca da roldana do tempo, cai e é carregada pelo vento – e, de repente, é trazida de volta ao colo do homem. Então, o homem diz:«eu lembro-me», e inveja o animal que imediatamente esquece e vê todo o instante realmente morrer imerso em névoa e noite e extinguir-se para sempre. Assim, o animal vive a-historicamente: ele passa pelo presente como um número, sem que reste uma estranha quebra.
Friedrich Nietzsche
Novembro 1, 2010 at 1:31 am
Os políticos aí estão para nos cortar o vencimento: ao Zé povinho.
A má administração do Estado não dá origem à responsabilização de ninguém. O Tribunal de Contas que o diga…
Mas vamos ao que nos interessa.
Podem o PS e o PSD (lá estarão os mesmos nas próximas eleições, claro…) cortar os salários através da lei do orçamento, sem mais?
Eu acho que não.
Leiam e julguem!!!
«Os salários gozam de garantias especiais, nos termos da lei», Constituição da República, artigo 59.º n. º3.
«O conteúdo negativo subjacente a qualquer princípio que, no caso, prevalece sobre o positivo, refere-se à imposição ao legislador de, ao elaborar os actos normativos, respeitar a não-supressão ou a não-redução, pelo menos de modo desproporcional ou irrazoável, do grau de densidade normativa que os direitos fundamentais sociais já tenham alcançado por meio da legislação infraconstitucional, isto é, por meio da legislação concretizadora dos direitos fundamentais sociais insertos na Constituição» –
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:qhQBxAG6zCgJ:jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp%3Fid%3D12359+acord%C3%A3o+tribunal+constitucional+proibi%C3%A7%C3%A3o+do+retrocesso+social&cd=5&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt
O bem comum justifica esta medida dos cortes salariais?
Qual é o critérios constitucional da hierarquização dos bens? É aquilo que o legislador ordinário decide por maioria simples (atenção à abstenção do PSD)?
Se isto passa, passa tudo.
Há uma directiva europeia que exige lei especial para se reduzir os salários (está enunciada no código do trabalho mas não foi transposta esta parte concreta, claro…).
Apesar das normas europeias se sobreporem às leis internas ordinárias, os nossos políticos vão avançar, com a bênção da Comissão Europeia.
Greve!!! Greve!!! Greve!!!!
Tamos fartos de engravatados incompetentes.
Basta de Varas e amigos pessoais.
Novembro 1, 2010 at 2:06 am
Ou pimenta no cu do outro… é refresco…
Novembro 1, 2010 at 2:01 pm
Claro que não!!! São, na opinião desta gentalha (perdoou-se-me a expressão… já não tenho paciência), meras excrescências inúteis dos funcionários públicos… que o que o país carece é precisamente ( e tão só e ao que parece pelas palavras e pelos actos destes protegidos) da função pública política – que ocupa os cargos de decisão e chefia sem competência técnica e profissional ou de provas dadas, alapada ao poder e a regalias intermináveis, saltitando daqui para acolá e “acoli”, podendo prescindir dos funcionários de carreira (técnicos…) que não servem para nada e por vezes ainda se atrevem, a exigir o cumprimento da lei e a criar empecilhos …
PQP… trabalham uns para outros engordarem… não iremos a lado algum… iremos sim: cada vez mais ao fundo e cada vez mais depressa!
GREVE, GREVE, GREVE
Novembro 2, 2010 at 2:37 pm
O engraçadíssimo José de Pina apela ao suicídio dos funcionários públicos. Já o Cavaco, mais moderado, esperava apenas que estes morressem.
Jornal “i”:
especialista Humor
Suicídio por razão atendível
por José de Pina, Publicado em 29 de Setembro de 2010
Nunca gostei dos franceses mas tenho de admitir uma coisa: têm classe, finesse. Em França, os trabalhadores de empresas recentemente privatizadas, como a Renault e especialmente a France Telecom, suicidam- -se às primeiras adversidades, como um chefe quando perde uma estrela Michelin. São uns manientos estes franceses; preferem saltar de um sétimo andar a saltar de local de trabalho. Na Portugal Telecom, por exemplo, não há nada disso. Somos uns simples! Na típica empresa tuga não são os trabalhadores que são levados ao suicídio, são os clientes! E sei do que falo. Há muitos meses que nem a TMN me resolve os erros de facturação da banda larga nem a PT me consegue instalar a linha fixa. Percebo o slogan “Até já!” Eles sabem que o cliente voltará passado pouco tempo para nova reclamação. Já o slogan da France Telecom deve ser “Até sempre!” Agora entendo o que se passa em Cuba. Tendo presente o caso francês e por questões humanitárias, Fidel e o mano, para evitarem um suicídio colectivo, decretaram o despedimento de um milhão de funcionários públicos. Em Portugal é que nada! Não se pode despedir à bruta, como na avançada democracia cubana, e nem as malfeitorias que sucessivos governos de PS e PSD fazem aos funcionários públicos resultam. Obviamente, os funcionários públicos portugueses nem se dão ao trabalho de pôr termo à sua triste existência. O PSD é que está certo, temos de ter uma Constituição mais liberal, que, em vez do despedimento por justa causa, inclua o suicídio por razão (legalmente) atendível. À grande e à francesa!
Argumentista/humorista
Escreve à quarta-feira