Outubro 2010


Não se trata propriamente de memória selectiva, aquela que apaga e acende os acontecimentos conforme. Trata-se de uma forma algo diferente, de obliterar a memória por motivo de conforto e deixar que quem parece que aguenta se aguente. É uma forma cobarde de viver, mas que se percebe, num tempo de medos vários e receios, muitos, de solidão.

É complicado quando se depende deste tipo de memória para reconstituir uma verdade, restituir os factos à sua realidade, recuperar uma parcela de dignidade ao que se perdeu.

É complicado ter de ignorar que o nosso carácter pode ser vítima desse súbito nevoeiro que acomete quem teria o poder de fazer justiça onde ela desapareceu.

E tanto mais custa quanto se sabe que não foi esquecimento, confusão, o que aconteceu. Falta de coragem, apenas. Medo de. Opção por agarrar o que há, não arriscando ser.

Custa ver isso. Saber que há quem viva assim.

Aos poucos desiste-se. De quem assim é. Porque se sabe que apenas temos ali um simulacro. De vida. De pessoa.

Só nós sabemos porque o Garrido tem aquele ar tão feliz. É uma questão de posicionamento…

Foto da Margarida Soares Franco. Aguardo mais material sobre a parte inicial (acho que a Ana e Olinda também registaram a actividade e passividade alheias), pois quando cheguei já parte do happening tinha escorrido.

O pós-evento também foi interessante, mas já com postura mais dentro do armário.

… pois é a resposta a um mail de 10 de Setembro (se quiserem, também anda por aí, algures no gmail…). Esta cronologia hipotética levanta-nos algumas questões sobre declarações e novidades recentes que, confirmando-se datação por Carbono 14, não seriam novidades para todos, mas apenas para a larga maioria:

Caro Senhor Secretário-Geral,

Em resposta à vossa mensagem abaixo pede-me o Senhor Secretário de Estado Adjunto e da Educação que informe que de acordo com o disposto nos artigos 28.º e 29.º do Decreto Regulamentar n.º 2/2010, de 23 de Junho, na avaliação dos docentes no exercício das funções de coordenador de departamento e de relator só está excluída a qualidade científica do trabalho desenvolvido pelo docente, sendo aplicáveis todas as outras dimensões de avaliação constantes do n.º 2 do artigo 45.º do ECD.

Assim sendo nada obsta a que possa haver observação de aulas dado que a mesma é facultativa.

Com os melhores cumprimentos,

Célia Chamiça

Chefe do Gabinete do Secretário de Estado Adjunto e da Educação

Ouvi mais uma bateria de especialistas a falar dos problemas do orçamento e daquilo que deve ser feito do lado da despesa e da receita e tal, aquelas coisas que eles falam como se estivessem a fazer contas no papel almaço da mercearia.

Aliás, tomara nós que eles fossem bons merceeiros, que nem isso são, meros adivinhões sempre falhados, não fosse a econometria a medição dos falhanços entre as previsões dos economistas e aquilo que depois eles dizem saber corrigir.

Mas em toda sua sabedoria, apesar da rotunda discrepância, a maioria clama, com indignação, tremor e quase chispa no olhar: não se pode sacrificar mais o rendimento das famílias, há que cortar na despesa do Estado!!!

Por despesa do Estado entende-se quase sempre – que outra coisa não querem dizer – corte nos rendimentos dos funcionários públicos, seja reduzindo-lhes o emprego, seja reduzindo-lhes o salário.

O que me levanta uma questão, quiçá bizantina, quiçá otomana: mas será que funcionário público não tem família? Será que cortando nos salários dos funcionários públicos não se está a diminuir o seu rendimento disponível?

Interrogo-me: família de funcionário público é coceira em genitalia alheia, como quem diz colírio ardente em olho terceiro?

Existem. Borbulham. Chegam à superfície, porque os ar as impele. Apercebemo-nos dos contornos. Questionamos. É necessário o silêncio. Estratégia, mas não só. Agora anoitece mais cedo e os gatos, mais do que pardos, movem-se com rapidez na escuridão. Ouvem à distância.. Nada é seguro até (o) ser.

(…) tal vez la mejor manera de definir a una sociedad cerrada sea diciendo que en ella la ficción y la historia han dejado de ser cosas distintas y pasado a confundirse y suplantarse la una a la otra cambiando constantemente de identidades como en un baile de máscaras.
En una sociedad cerrada el poder no sólo se arroga el privilegio de controlar las acciones de los hombres —lo que hacen y lo que dicen—; aspira también a gobernar su fantasía, sus sueños y, por supuesto, su memoria. En una sociedad cerrada el pasado es, tarde o temprano, objeto de una manipulación encaminada a justificar el presente.
(…)
Organizar la memoria colectiva; trocar a la historia en instrumento de gobierno encargado de legitimar a quienes mandan y de proporcionar coartadas para sus fechorías es una tentación congénita a todo poder. Los Estados totalitarios pueden hacerla realidad. En el pasado, innumerables civilizaciones la pusieron en práctica.
(…)
Al mismo tiempo, un estricto sistema de censura suele instalarse para que la literatura fantase e también dentro de cauces rígidos, de modo que sus verdades subjetivas no contradigan ni echen sombras sobre la historia oficial, sino, más bien, la divulguen e ilustren. La diferencia entre verdad histórica y verdad literaria desaparece y se funde en un híbrido que baña la historia de irrealidad y vacía a la ficción de misterio, de iniciativa y de inconformidad hacia lo establecido. (Vargas Llosa, pp. 27-29 da edição acima)

Talvez o meu registo favorito de Bolaño. A imaginação à solta sem excessos barrocos.

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