Agosto 2010


Numa dessas conversas que escorrem para a circunstância e que comigo por vezes levam as outras pessoas a apelar a imensos conselhos para que eu seja mais fofinho e confortável e acomodatício, alguém me dizia há coisa de uma semana que por vezes há várias maneiras de levar a água ao nosso moinho.

Ora o problema está mesmo aí.

Eu não tenho água para levar a nenhum moinho, nem moinho a que me apeteça levar água.

Se há dois anos ou mesmo até final de 2009 ainda existia um objectivo que me parecia claro nesta coisa da blogosfera docente, ou blogosfera tout court, e na produção de opinião sobre Educação com objectivos vagamente políticos, desde o início de Janeiro deste ano que arrumei as botas a esse respeito. Estamos acordados, estamos acordados e não se acorda mais disso.

Se há quem tenha ainda água que pretenda depositar em algum moinho desejado, eu não, para além de saber que espécie de horário concreto me espera a 1 de Setembro. Mas noto que há perturbação por aí, pois de quando em vez há quem leve os baldes com muito cuidado mas seja obrigado a mudar de direcção ou a parar a meio de caminho e a perguntar afinal qual a direcção certa. E lá se espalha parte da água. Confesso que por vezes sinto aquela maldade intrínseca que me leva a abanar o tapete ou a dar um grito mais alto para assustar quem anda em cuidados.

Mesmo se não é completa novidade (referência graças ao Luís Ferreira):

Microsoft Office Student License key for Portuguese MOPTC, 2009

Summary

This document, a Microsoft license-key, comes with every computer distributed in the e-escolas programme (and possibly e-escolinhas programme as well).

The document provides proof of spending by the Portuguese government (MOPTC is one of the main Ministry offices) in favour of Microsoft. Our source states that this ministry, in particular, claims to have bought nothing.

No I de hoje vem uma peça com autoria tripartida sobre os concursos para ingresso na Função Pública que não se percebe bem ao que anda.

No fundo trata-se dos concursos para o que agora se conhece por assistentes operacionais e que há uns anos eram as prosaicas funcionárias das Escolas.  Estão a ser abertos para que as ditas Escolas possam funcionar normalmente. Se não abrissem e faltassem as operacionais/funcionárias, existiria um bruá mediático porque isto e aquilo, muito em especial se a descendência de alguém da redacção levasse uns sopapos no corredor ou se acontecesse outra inconveniência. Abrindo, queixam-se que vem aí o monstro do défice e quem é que vão ouvir sobre o assunto? Claro, o ex-ministro Eduardo Catroga (1993-95 com o cavaquismo no seu declínio), dos tempos em que o défice galopava sem problemas, nem havia dúvidas em aumentar a dívida pública de 52% para 62% em apenas dois anos. Ou em aumentar os efectivos da Função Pública Central em mais de 80.000 indivíduos de 1991 a 1996 (e 130.000 com a administração local).

Portanto, continuo a interrogar-me se este tipo de notícia é notícia ou se é outra coisa. E já agora, adicionalmente, se continuamos a depender de oráculos cuja obra passou exactamente pela criação dos alicerces do edifício que agora dizem ser isto e aquilo.

Acho que é – mesmo evitando ao máximo – das conversas de Verão, aquela conversa mole, carregadinha de lugares-comuns, coisas que ficam entre o provérbio para toda as estações e o horóscopo da Maya ou o oráculo da Dica da Semana.

Vai daí e estou com vontade de sacudir esta pasta mental que nos vai cobrindo sempre que é necessário justificar a inacção, sob a aparência de algo que se deveria mesmo fazer, mas não se faz porque a unha encravou à última da hora. Acho que, em acumulação, estou a desvincular de geração, mas não sei em que sentido. Ou isso, ou é a velhice mental a instalar-se e o tédio que se lhe associa. Em língua mais amaneirada, ainda se me dá um spleen que não se pode.

Não sei, não, mas acho que o Fafe ainda se arrisca a ser o postador mais cordato e fofinho aqui do lugar. Sinto-me áspero e não é de faltarem apenas oito dias.

Desculpa lá Buli, que eu sei que contigo até é sincero. Mas se há algo que me deixa assim a modos que urticário é toda aquela gente que por nada e por tudo, saca do motto do carpe diem, como se isso fosse uma enorme verdade e uma prática efectiva de vida. Nas redes sociais é do que há mais quando alguém se quer armar em grande despreocupado(a), gajo(a) todo(a) liberal e dado(a) a tudo e mais alguma coisa.

É tudo treta porque, se fosse mesmo assim, não precisavam de o anunciar e inscrever na badana do perfil. Em boa verdade, nem estariam a perder tempo com isso. Quem evoca muito carpe diem é porque está a desperdiçar tempo.

Há de dois tipos: a jubentude que só ouviu falar na frase e acha bué giro dizer ou escrever qualquer coisa em estrangeiro antigo, como poderiam dizer uma frase qualquer dos Morangos com Açúcar ou de um filme do Vin Diesel com carros, e os papás da jubentude que viram em seu tempo O Clube dos Poetas Mortos e pensaram que aquilo era mesmo a sério e o Robin Williams seria feliz para sempre. E agora acham que, só por evocar a máxima, se tornam uns rebeldes sem calças. Mas lá estão todos a picar o ponto na segunda-feira de manhã, achando que é o máximo fazerem uma tatuagem que lhes dizem ter um significado místico no braço, ombro ou canela, beberem umas margaritas ou umas caipirinhas à noite num bar perto de uma qualquer praia de veraneio.

Só que eu, por aquela altura e por muito estimável que tenham vindo a ser o Ethan Hawke ou o  Robert Sean Leonard (afinal é o melhor amigo do Hugh Laurie) já tinha ficado encravado com o andróide reflexivo do Blade Runner quando dizia:

I’ve done . . . questionable things. Nothing the God of biomechanics wouldn’t let you into heaven for.

ou

All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.

Qual João Moutinho, qual Roberto, qual Maniche!

As contratações que fizeram e farão vibrar o Verão do país real foram as do Tony Carreira pelo Modelo/Continente e de Pedro Abrunhosa pela Festa do Avante.

Ahhh… tanto frisson por esses finais de tarde e noite… porque são as duas faces mentais da mesma moeda em decadência acelerada…

Mas desde que algo estremeça… carpe diem!

:evil:

Para além da quase completa ausência de estímulo. Basta ler o ECD na sua nova versão e perceber que o investimento num doutoramento, mesmo com facilidades, é uma enorme treta.

Podia concretizar aqui até com o meu exemplo, a quem foi aplicada em 2007 uma regra transitória retroactiva para transformar a equiparação de um doutoramento pré-Bolonha (feito em 2001-2006) em bolonhês mas depois os abraxes, leonéis e carlosmarques da treta acusam-me de estar a defender interesses pessoais.

O que interessa mesmo é fazer formações e pós-graduações em gestão e avaliação, que é considerado como formação especializada e dá fast-lane para órgãos de gestão e cargos de supervisão e avaliação.

Artigo 54.º
[...]
1 — A aquisição por docentes profissionalizados, integrados na carreira, do grau académico de mestre em domínio directamente relacionado com a área científica que leccionem ou em Ciências da Educação confere direito à redução de um ano no tempo de serviço legalmente exigido para a progressão ao escalão seguinte, desde que, em qualquer caso, na avaliação do desempenho docente lhes tenha sido sempre atribuída menção qualitativa igual ou superior a Bom.
2 — A aquisição por docentes profissionalizados, integrados na carreira, do grau académico de doutor em domínio directamente  relacionado com a área científica que leccionem ou em Ciências da Educação confere direito à redução de dois anos no tempo de serviço legalmente exigido para a progressão ao escalão seguinte, desde que, em qualquer caso, na avaliação do desempenho docente lhes tenha sido sempre atribuída menção qualitativa igual ou superior a Bom.

… como a prática comum do desenrascanço. Mas, como nas estatísticas desportivas, o resultado final é que conta e depois teremos carradas de diplomados para exibir na Europa.

Venda de teses movimenta milhares de euros por ano

A única vantagem é que é uma hipótese de negócio para quem não consegue emprego e até tem mais competência técnica e académica do que os mestres e doutorados de aviário que agora começam por aí a cacarejar.

E depois há estudos como estes… feitos por politólogos… e outros ólogos que escrevem coisas como estas, que nem é das piores que a nova geração de opinadores especializados conseguem produzir com base em clichés.

E com os conhecimentos certos, arranjam-se bolsas da FCT para fazer pós-doutoramentos e pertencer a centros de estudos onde se inspiram em trabalhos anteriores, com a complacência generalizada, criam conferências-padrão e correm o país à sombra de comissões, comités e organizações diversas. E há sempre centenários por comemorar…

De Margarida Louro Felgueiras ao Correio da Manhã sobre a evolução dos graus académicos, a bolonhização do Ensino Superior e o que passa por ser a democratização de uma Educação de nível superior com recurso a uma contração no tempo necessário para se fazer um mestrado e atingir um doutoramento.

Cumprindo prazos, sem adiamentos, foram 13 os anos do meu trajecto do Ensino Superior. Agora isso é possível em 9 anos, por vezes em 8. Assinala-se, e muito bem, que em algumas áreas como a História da Educação (nem de propósito a minha) é impossível fazer trabalhos com a profundidade como eram feitos com os prazos actuais.

Afirma-se que as instituições devem apostar num maior rigor, mas não é isso que noto. Também se faz uma defesa (não muityo convencida) do sistema bolonhês de mestrados, mas há por ali umas incorrecções factuais: os anteriores mestrados não tinham 3 ou mesmo 2 anos. Nos anos 90 ainda tinham 2 anos ou 4 semestres de aulas e mais 18 a 21 meses para apresentar a tese. Agora despacha-se tudo em 3 semestres e temos a orientar teses quem mal conseguiria fazer uma tese outrora, porque a sua formação de base já foi bem mais escassa e metodologicamente vulnerável, exactamente porque se deixou de exigir trabalhos de pesquisa e/ou síntese com um mínimo de fôlego.

Podem acusar-me de estar a dizer que existiu uma época dourada e que agora é a decadência e que isso é recorrente desde sempre. Pode ser. Mas também pode ser que se esteja a criar uma enorme mistificação de qualificações e a propagandear-se uma democratização do acesso que é apenas isso, não é uma elevação real no nível de competências dos certificados, diplomados e doutorados.

Regras básicas de pesquisa, recolha, tratamento e referenciação da informação são estranhas a muitos mestrandos e começa a notar-se isso nos próprios doutorandos. E as universidades, para limitarem encargos, estão a enveredar por esquemas de atribuição de créditos pela mera presença de doutorandos em conferências e seminários, de que é feito um relatório crítico final, inferior ao de uma qualquer acção de formação para docentes.

Se esta é uma tendência que vem lá de fora, se quem promove isto já conheceu este modelo muito flexível de mestrados e doutoramentos em algumas américas e europas não duvido.

O problema é que as universidades internacionais de excelência não me parece que optem por esta ficção.

Há coisa de cinco dias em que o JN não faz nenhum título de 1ª página a culpar professores, enfermeiros ou outros funcionários públicos or qualquer malfeitoria, com base em informações das Finanças.

Ainda pensei que surgisse algo com base no caso da herança Feteira, mas…

Não devemos perder por esperar. Para a próxima deve ser algo em grande, do género extrapolação das faltas dos docentes a partir de uma visita a três corredores de uma escola em obras.

… que nos dão os responsáveis por gerir a coisa pública. E depois querem que sejamos nós a poupar e a ser responsáveis por salvar a Pátria.

Verba para as três Scut quase esgotada em Junho

Lou Reed, Pale Blue Eyes

Notícia:

Comentário de Marcelo Rebelo de Sousa, com uma luminosidade feérica… mas um belo comentário sobre o despacho retroactivo.

Agradecimentos renovados ao Calimero Sousa do Blog do Cão.

De ensino: nada.

[aqui]

  • Alguém falou no Pontal.
  • Alguém falou em Mangualde.
  • Alguém arrulhou na Madeira.

Nada de relevante foi dito, logo este é quase um não-post.

Cambada de retrógrados.

Afinal, Se Encerrar 2.500 Escolas Foi Uma Medida De Bom Senso, Como Afirma o Ramiro

Arronches – Escola de Mosteiros resistiu à tempestade que varreu o país

Desertificação cultural !

encerramento de escolas a)

Encerramento de escolas b)

Encerramento de escolas primárias

Encerrar o país aos poucos

O ALANDROAL NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

O(s) conto(s) do protocolo

Polémicas que chateiam

… encerramento de escolas. Há que dar lugar ao contraditório…

O encerramento de escolas

pré-conceitos

O Livresco consegue encontrar de tudo.

Mesmo quando X é muito superior a zero:

Fecho das escolas é gradual

Cerca de metade das escolas só fecham quando os centros escolares estiverem a funcionar

Das sete escolas apontadas para fechar este ano em Tomar, quatro só fecham quando o centro escolar de Casais estiver a funcionar. A mesma situação acontece em Ferreira do Zêzere e noutros concelhos do distrito de Santarém.
A primeira lista de escolas publicada era constituída por escolas com menos de 21 alunos, mas o seu encerramento é gradual e vai depender por exemplos da abertura de centros escolares e dos transportes escolares, entre outros factores.
No concelho de Tomar está concretizado o encerramento das escolas básicas da Cerejeira (Asseiceira), Vila Nova (Paialvo) e Montes (Olalhas), transitando os alunos, respectivamente, para as escolas básicas da Linhaceira, Curvaceiras e Olalhas.
As escolas de Alviobeira, Casais, Torre e Venda Nova só fecham quando o centro escolar de Casais estiver concluído, ou seja, em Janeiro próximo.

A questão já nem é o encerramento ou o número, mas sim a maneira completamente apalermada de insistir num número que parece ter propriedades místicas para alguém.

Não serão antes 666?

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