… já sei que vem por aí um grosso equívoco ou distorção completa do conceito ou dos factos.
Na entrevista que dá hoje ao Público, Fernando Nobre envereda por esse caminho que vai fazendo escola, mas que não passa de uma desvinculação com a realidade.
Citou Barack Obama e tem o livro dele em cima da secretária. É uma das suas referências políticas?
Sem dúvida que sim. O Presidente Barack Obama representa a mudança no paradigma da governação do primeiro império da actualidade. Se nós tivéssemos tido uma outra presidência semelhante à de George Bush por mais oito anos, assistiríamos à implosão do planeta em conflitos diversos. É um homem que demonstra particular solidariedade com os mais desfavorecidos, daí o seu programa de saúde. Demonstra vontade de terminar guerras que herdou, em melhorar o conflito no Médio Oriente entre Israel e a Palestina, apetência e alto interesse pelo que está a acontecer no continente mais desfavorecido que é a África. É um homem que voltou a recolocar os Estados Unidos no multilateralismo, que já não se isola sendo o único império, que dialoga. Por outro lado, é um homem que demonstrou que, com todas as diferenças que ele tinha – gostam de dizer que ele é negro, mas ele não é negro, é mulato -, é possível, numa sociedade como a norte-americana, um cidadão com o seu percurso de vida muito próprio mas com ideias humanísticas bem vincadas poder chegar onde chegou. Acredito que ele é apenas o primeiro de muitos que vão chegar a lugares essenciais para conseguirem uma mudança global porque uma mudança global de paradigma é absolutamente essencial. Eu alinho-me na mudança desse paradigma.
Vá lá… não usemos o paradigma Obama por dá cá aquela palha. Barack Obama foi eleito não por ser um outsider do sistema político americano, mas sim por tê-lo sabido usar, e muito bem, para a sua ascensão, conseguindo nesse particular derrotar as máquinas internas do Partido Democrata (em especial a dos Clinton) através do estabelecimento de laços e alianças de diversos tipo, tudo típico da actividade política tradicional.
Só que, em virtude da combinação de uma forma atraente e carismática de estar e falar com a sua cor de pele, Obama transformou-se em mais do que Obama, em especial na Europa. Porque Obama sucedia a Bush-filho com tudo o que de negativo esteve associado à sua presidência.
E todo o bicho-careta que se acha diferente do sistema, gosta de arengar com o paradigma Obama.
Mas no que é que Fernando Nobre se pode comparar a Obama? Em boa verdade, Fernando Nobre deveria – até certo ponto – achar-se mais outsider do que Obama, pois não tem carreira política e não aparece (numa primeira leitura) como emanação de uma luta partidária interna, como as primárias do sistema partidário americano, mas como um independente (mesmo se secundado por um aparelho semi-oculto com ligações óbvias).
A partir daí não há mais nada a comparar, porque não é comparável.
- Obama é um político profissional, com uma carreira política conhecida e com um trajecto lógico, porventura acelerado nesta fase mais próxima que o levou a Presidente. Fernando Nobre é uma figura da sociedade civil, meritória pela sua conhecida acção humanitária, que decidiu a ceder a uns cantos de sereia e candidatar-se a Presidente com uma plataforma indefinida, híbrida (nem sempre no bom sentido) e que não desperta – nem de perto, nem de longe – os amores e ódios que Obama despertou.
- Obama afastou da corrida à presidência a teórica favorita do Partido Democrata, Hillary Clinton. E no ticket para a presidência cooptou Joseph Biden, um liberal tradicional do Partido Democrata. Já Fernando Nobre apareceu para um grupo ligado ao PS diminuir ou eliminar as hipóteses de Manuel Alegre ser eleito para a Presidência.
- Obama chegou à Presidência para apagar ou limitar os estragos da administração Bush/Cheney. Fernando Nobre conviveu e conviveria (ou conviverá) de modo pacífico com a presidência de Cavaco Silva.
- Obama chegou à Presidência com uma enorme carga de problemas militares e diplomáticos por resolver, mais uma brutal crise financeira que chegou logo a seguir e foi preciso gerir de um ponto de vista executivo. Em portugal, o Presidente, compõe o ramalhete das flores do sistema político, interroga-se sobre os seus poderes, raramente exerce os que tem e faz discursos entre o bonacheirão (Soares) e o incompreensível (sampaio), passando pelo se é assim porque não fazes nada? (Cavaco).
Não é bem a mesma coisa. Não há por aqui rupturas em nada… excepto na origem política do candidato.
Não chega ler um livro e colocá-lo na cabeceira, para o paradigma coiso e tal.
Se Fernando Nobre dissesse que tinha uma antologia de Robert Crumb na cabeceira ou a obra completa de José Vilhena na estante, isso sim seria uma mudança de paradigma.
Enquanto nos ficarmos pelo discurso fofinho… nada mudou, muda ou mudará.
Agosto 21, 2010 at 3:40 pm
Pois é, nada mudou nem mudará enquanto esse “paradigma” for o do pensamento (?) único, tão “fofinho” porque é incapaz de pensar e pôr em causa seja o que for que tenha realmente imporância.
Trata-se de um “pensamento” fora do qual não parece ser possível respirar, dominado pelo primado da economia – “são os números, estúpido!” -, enfeitado por umas superficiais preocupações “humanistas” – a retórica viscosa dos direitos humanos, sobretudo para os “outros”- e coroado com umas pincelada de cor verde “ecologista” – a natureza é tão bela, não era…
A isto juntem-se umas notasinhas simpáticas de cor local – as reformas “indispensáveis” que o país carece, mas a que não se apontam filosofia, prioridades, metodologia ou finalidades tangíveis – e teremos, já pronto a vender e usar, um esplêndido “pacote eleitoral” – candidato e programa incluídos.
Agosto 21, 2010 at 4:51 pm
O Fernando Nobre é mais-do-mesmo. Ponto final.
Portugal necessita, como pão-para-a-boca, de rupturas-de-facto. De renovação. De inovação.
Agosto 21, 2010 at 4:52 pm
O Nobre é um tipo dum sistema-de-coisas-em-Portugal que é urgente eliminar.
Agosto 21, 2010 at 5:12 pm
Não estou nada de acordo. Enquanto não há rupturas (q tardam em chegar) fiquemos com o melhor do q há, pelo menos com o deferente, fora das convenções. FN marca a diferença e tem um percurso, fora da política, o que lhe dá também vantagens.
Agosto 21, 2010 at 6:26 pm
#4,
Também acho.
Mas querem mesmo rupturas de facto, mesmo?
Vamos nessa?
Então que tal uma reforma agro-pecuária e das pescas para Portugal?
É muita ruptura, não é?
Pois!
Agosto 21, 2010 at 6:28 pm
Porque é que este homem me faz sempre lembrar o PRD, um partido de virtuosos que também estavam acima da política e dos políticos, cujo programa era a ética e mais não sei quê, que chegaram a ser a terceira força política em Portugal e que hoje os mais novos nem sequer sabem que existiu?…
Agosto 21, 2010 at 6:30 pm
Entretanto, estou à espera de mais candidatos e candidatas (esta ruptura é que era boa) à presidência da República……..
Agosto 21, 2010 at 6:32 pm
#5
Nem fale nisso!
Aqui há uns tempos fiz aqui uma referência à reforma agrária e caiu-me tudo em cima…
Agosto 21, 2010 at 7:22 pm
#4 e 5,
Desde quando o clã soarista faz uma ruptura com o status quo? Só se for uma rotura…,
#8
Como se reforma o que não há?
Para além de que uma coisa é uma reforma na agricultura outra uma reforma no regime da propriedade fundiária.
Podem ir lado a lado, mas não é indispensável…
Agosto 21, 2010 at 7:27 pm
#9
Pois, a referência que fiz foi à reforma agrária do PREC, do tempo em que, boa ou má, ainda havia agricultura. Mas houve logo aí uns “reaccionários” que não gostaram…
Agosto 21, 2010 at 9:46 pm
#9,
Apesar de tudo, tenho de dar alguma credibilidade a FN, pelo que sei dele.
#10,
Ainda nos expulsam do convívio umbiguista que isto por aqui é maioritariamente tudo muito conservador.
Ainda pensavam que lhes iam nacionalizar os quintais e as hortas e os montinhos.
Entretanto, não nos sustentamos mas vamos tendo turismo rural, campos de golf e florestas para arder.
Enfim, parece que se vai safando a cortiça, sei lá…….
Agosto 21, 2010 at 9:53 pm
#9,
“Como se reforma o que não há?”
Não entendi bem.
O que é que não há?
Agosto 21, 2010 at 9:55 pm
Um homem excelente que se enterra (politicamente) cada vez que abre a boca.
Uma pena!
Inicialmente ainda pensei que poderia ter o meu voto. Parece que estou condenada a votar em branco.
Agosto 21, 2010 at 9:57 pm
Assisti a uma forte discussão entre 2 pequenos proprietários de terrenos vizinhos.
Mais um bocadinho e havia desgraça.
O burro de um tinha ultrapassado ligeiramente a linha divisória e deliciava-se a comer umas ervitas ali mesmo ao lado!
Um dos problemas é mesmo o das mentalidades…….
Agosto 21, 2010 at 9:59 pm
#13,
É verdade.
Mas os outros não são excelentes e sempre que abrem a boca ainda sobra espaço para se enterrarem mais. Isto é que acho estranho.
Agosto 21, 2010 at 10:00 pm
#14,
Cont.
O burro é que está certo!
Agosto 21, 2010 at 10:11 pm
#12,
Agricultura. Não há.
Quanto ao resto, gosto sempre de ver candidaturas que “entusiasmam”. Aliás, que são delineadas para o fazer.
Mas eu cá já decidi: assim consiga as assinaturas, Manuel João Vieira é a minha opção.
Num país que não se dá ao respeito, um verdadeiro artista é que faz falta.
Agosto 21, 2010 at 10:50 pm
A candidatura de FN e daquelas que vai acabar com a frase do costume:
” Mas o projecto continua!”.
Agosto 21, 2010 at 11:36 pm
#1,
Pensei que tivesse sido o Fafe a escrever o comentário depois é que li melhor e vi que era mais longo do que o costume.
Ai que me ias enganando…
)
Agosto 21, 2010 at 11:39 pm
#17,
Tem a certeza que é um dado adquirido e pronto?
Quanto ao resto, conte comigo para mais uma assinatura para a candidatura do MJV.
Agosto 21, 2010 at 11:54 pm
Temos que dar crédito a quem não tem vicios de
política. Os outros são viciados e só fizeram porcaria, agora vamos dar o beneficio da duvida a quem ainda não foi corrompido p’lo poder.
Agosto 22, 2010 at 2:36 am
# 21
Do clã Soarista saiu a IA (tenho a certeza).
Do clã Soarista saiu o FN.
PUM!