Maria de Lurdes Rodrigues teve uma missão ingrata no mandato anterior e levou-a até ao fim. Foi recompensada por isso, de forma muito notória até pela data em que isso foi tornado público, com a presidência da FLAD.

Foi uma enorme recompensa, até porque virtualmente vitalícia, dada pelo primeiro-ministro José Sócrates. Todos sabemos e percebemos isso. Foi um pagamento enorme pelo sacrifício que fez e por ter ajudado a piorar o desempenho do nosso sistema educativo, como agora se percebe pelos resultados em provas de aferição (e quase por certo nos exames), na ressaca da blitzkrieg que tentou e acabou por transformar numa longa e mortífera guerra de trincheiras entre ME e professores.

Eu sei que é inevitável que lhe perguntem o que acha da nomeação. E compreendo que tenha aceite. Afinal merece mesmo ser recompensada pelo que desfez. Pelas vidas de professores que estragou, pela forma como ajudou a destruir o ambiente de trabalho nas nossas escolas e como – achando que fez uma revolução - apenas encetou formas de terror.

O que a mim me dá algum incómodo é que se transforme uma evidência num dever. Essa parte é que me faz embrulhar o estômago.

Considerei que era meu dever aceitar e também uma honra ser distinguida para a direcção de uma instituição com tanto prestígio, com trabalho feito e reconhecida por muitos portugueses que beneficiaram da sua ação.

Maria de Lurdes Rodrigues sabe que numa sociedade meritocrática e não baseada no favor pessoal e político, nunca chegaria à presidência da FLAD. Sabe que num sistema de avaliação e progressão como o que defende para os professores, nunca passaria de investigadora candidata a apoios da FLAD para fazer os seus estudos.

Mas, como a sociedade em que vivemos nem sequer é a utopia em que todos são iguais, mas sim a distopia em que uns são mais iguais do que outros devido a factores que não interessa aqui desenvolver, Maria De Lurdes Rodrigues chegou onde chegou.

Dou-lhe os meus parabéns.

Mas aconselharia o recato e o pudor que não voltasse a apresentar a sua aceitação como um dever.

(mas, que fique claro, comprarei o livro o mais depressa que puder, para me deliciar com a prosa de alguém com uma auto-imagem claramente em elevação estratosférica)