Fernanda Câncio anuncia, entusiasmada, o lançamento de um livro de Maria de Lurdes Rodrigues sobre Educação. Se a segunda teve tempo para, no exercício do cargo, aceder a muita informação e documentação, já a primeira continua incrivelmente ignorante e entrega-se a meros chavões nestas matérias.

Basta ler esta passagem da sua crónica:

É um livro que analisa o sistema e a sua evolução, que assume os seus fracassos e ineficiências e principais dificuldades, contextualizando-os e tentando apontar saídas, que critica a falta de informação e conhecimento da realidade que permitiu, durante décadas, não só uma gestão ineficiente — gastar muito mais dinheiro em muito menos alunos – como decisões desfasadas das necessidades e dos objectivos programáticos. Fá-lo com recurso a dados, números, quadros, referência legislativa (e como é interessante constatar por exemplo que a decisão legislativa de fechar todas as escolas com menos de 10 alunos é de 1988, do governo de Cavaco, mas não avançou por aparente incompetência) e a descrição das acções (incluindo reuniões) havidas, no curso de um mandato ministerial, para chegar a diagnósticos, concertar posições e pô-las em prática.

Dizem-me que Fernanda Câncio fez o curso paredes-meias comigo, ali pela avenida de Berna, pelo que teremos a mesma idade, mas trajectos muito diferentes. E certamente não nos lembramos um do outro, de tão invisíveis que seríamos, apesar de no 2º ano me dizerem que as aulas eram mesmo lado a lado no corredor.

Mas o que aqui interessa é mesmo que Fernanda Câncio, no seu trajecto de rebelde cheia de causas justas.muito justas.as mais hustas de todas, raramente se dedicou a analisar a Educação e, portanto, coisas como a descoberta do alfabeto devem deixá-la emocionada.

Por isso, descobre com maravilhamento que a decisão de fechar escolas com menos alunos é de 1988 – do “governo de Cavaco” – e que não foi colocada em prática por incompetência.

Não vou defender o “governo de Cavaco”. Apenas esclareceria que foram efectivamente fechadas escolas com menos de 10 alunos nessa altura, pois em 1989-90 fui técnico para a área da Educação numa câmara (Alcácer do Sal) com imensas escolas isoladas e, entre pouca coisa que fiz pois o meu chefe tinha-me uma certa animosidade, fiz um pequeno estudo publicado sobre a evolução da população escolar num concelho com quase 1500 km2 e um plano de transportes escolares para levar as crianças das aldeias já sem escola ou que iam ficar sem escola, para as mais próximas, assim como de todas essas povoações para a sede de concelho, para a EB2/3.

Para o bem e o mal, sei há 20 anos o que é este processo.

Fernanda Cãncio, não. Fernanda Câncio interessou-se por Educação quando foi para a porta de uma Secundária sentir-se jovem e inquirir alunos sobre o uso do telemóvel e a incompetência dos setores no rescaldo do episódio Carolina Michaelis de Vasconcelos.

Percebe-se, pois, que Fernanda Câncio se entusiasme por Maria de Lurdes Rodrigues se escudar numa decisão legislativa de Cavaco Silva, o presidente que tanto a amparou. Mas que Câncio abomina.

Mas não deixa de ser curioso que – mas esperarei para ler o livro – pelo menos nesta crónica a ignorância chegue ao ponto de apagar da História que foram decisões como esta de Cavaco e a sua aplicação (bem como a questão das propinas), que fizeram nascer em Guterres e no PS a paixão pela Educação, fruto também de muito dinheirinho europeu a chegar a Lisboa e ao Orçamento de Estado.

Paixão essa e dinheirinho esse que permitiram travar esses encerramentos durante bastante tempo e, em minha opinião, até de forma correcta.

Só que Fernanda Cãncio – e não sei até que ponto Maria de Lurdes Rodrigues – gosta de evocar Cavaco para o demonizar quando convém, assim como para legitimar decisões que não se percebe se acha boas (quando aplicadas por MLR) se mãs (quando legisladas por Cavaco). E esquecer que os “governos de Guterres” (com o jovem Sócrates em ascensão, mas objecção de consciência em relação a tanta coisa…) foram aqueles que não reordenaram a rede escolar.

De uma coisa podemos estar certos: sobre Educação a jornalista Fernanda Câncio tem apenas uma visão instrumental, servindo-lhe para defender ou atacar, Conforme os seus interesses ocasionais. Normalmente muito personalizados.

Maria de Lurdes Rodrigues foi uma má ministra da Educação e isso será ainda mais visível a médio prazo e não apenas pela sua gritante falta de cultura democrática.

Já Fernanda Câncio é uma boa jornalista, mas nunca sobre temas de Educação. Por estar carregada de preconceitos, fruto da sua assinalável ignorância sobre os factos relacionados com o sector.

Mas acha-se gira, acutilante, fracturante, firme. Talvez por isso encontre em MLR uma irmã mais velha… Com jeitinho ainda  aencontramos – na falta da Champalimaud – a colaborar activamente com a FLAD…

Dêem-lhe um tempinho…

(se esta última parte é um processo de intenções? o tempo a isso responderá… porque há tanto estudo sobre a realidade portuguesa a fazer…)