Eu ainda não divulguei ainda uma troca de mails que tive com o colega Manuel Henrique Figueira, adepto da corente da Escola Moderna e que muito parece ter-se aborrecido com umas declarações que fiz há um par de semanas paera o Expresso contra as aulas de 90 minutos nos 2º e 3º CEB por considerá-las contraproducentes.

Escreveu-me ele (e mandou para a jornalista) um conjunto de considerações em que acusava a minha visão de estar parada no tempo do modelo do mestre-expositor na sala de aula, que debita na matéria e não sabe como aproveitar o tempo de uma aula mais longa.

Nada de mais errado, disse-lhe eu. Aquilo de que tenho consciência é que, com uma aula semanal de 90 minutos de História nenhum método funciona de molde a tornar atractiva a disciplina e eficaz a leccionação de um programa extenso. Respondi-lhe, e reafirmo, que prefiro 2 aulas de 50 minutos do que uma semanal de 90, 100 ou 120, exactamente para ser possível abordar uma tema de forma teórica não muito alongada, com trabalho prático complementar.

Dito isto, não é que hoje leio, nas páginas do Público, o especialista João Formosinho, afirmar que as aulas de 90 minutos é que são óptimas, porque as de 50 minutos no 3º CEB só dariam «para transmtir matéria, não dando espaço a outras actividades em sala de aula»?

Mas em que mundo vive João Formosinho? Acaso ele supõe que, no contexto de uma turma de 3º CEB, na generalidade das disciplinas, alguém, em algum momento, faz exposições de 50 minutos, ou 40 ou mesmo 30? Acaso ele pensa que se vive, nos 7º a 9º anos, o ambiente sereno (estou a esconder o sorriso…) e reflexivo de uma aula de um curso universitário, daquelas de 2 ou 3 horas, em que o mestre debita, perante o tédio geral, a sua sapiência, quantas vezes servida em tons mornos?

Ressalve-se desde já que nunca assisti a nenhuma aula ou conferência de João Formosinho (falha minha), investigador que respeito e admiro por alguns dos seus estudos. Mas duvido que, por muito cativante que seja, consiga lidar de modo satisfatório, por poucas semanas que seja, com uma turma média (nem falo das problemáticas), real, de uma qualquer EB 2/3 ou Secundária.

E é essa clivagem imensa que divide os teóricos que abordam estas questões do lado da reflexão livresca, com base em números, estudos e experiências-piloto controladas , e quem trabalha no terreno com os alunos reais, com rosto, voz, corpo e olhar, sem que isso implique perda de capacidade de reflectir sobre a sua profissão.

Há quanto tempo não assiste João Formosinho a aulas no Ensino Básico? Tem João Formosinho, em mãos, algum estudo que, com base na opinião de professores e alunos, demonstre a justeza do modelo único da aula de 90 minutos para o currículo do 3º CEB?

Ou será mais isento – nas suas palavras – ouvir apenas os especialistas, sem o ruído da vida real?

Não me venham dizer que os professores básicos só conseguem ver o seu quintal, como há uns anos alguns comentadores e opinadores gostavam de dizer. Mesmo que assim fosse, o seu (meu) quintal é exactamente o quintal onde as coisas se passam.

Sim, é verdade que os 90 minutos funcionam em algumas disciplinas e em alguns momentos de outras.

Mas sim, também é verdade que é muito difícil achar adeptos desta modalidade, em especial com currículos fragmentados em fatias disciplinares semanais de 90 minutos ou mesmo com duas fatias dessas.

Afirmo com toda a clareza que, exactamente para combater a tentação do vício do magister dixit me são muito mais úteis 3 ou 4 aulas semanais de 50 minutos do que duas de 90 e por ceerto duas de 50 minutos distribuídas numa semana são muito mais eficazes, sob quase todos os pontos de vista, do que uma aula isolada de 90 de semana em semana.

O problema é que os especialistas, pelo menos alguns, do alto da sua cátedra, dizem que não. Que as aulas de 90 minutos servem porque 50 deles são para «transmitir matéria».

Querem exemplo maior de magister dixit?