Já se percebeu que os reajustamentos do currículo do 3º CEB estão a seguir uma metodologia de preparação que deixa imenso a desejar.

Na peça de hoje do Público a esse respeito, João Formosinho tece considerações verdadeiramente admiráveis para tudo ser delineado no sossego dos gabinetes e sem consultar os chatos dos professores, esses meros executores dos projectos de uma elite iluminada pela leitura.

Isolo dois argumentos que considero dignos de uma antologia de como não fazer as coisas, para além daquele que abordei mais detalhadamente no post abaixo.

Para João Formosinho, ouvir os especialistas é uma maneira mais “isenta” do ME trabalhar. Explica: apesar de a maioria dos professores pensar que os currículos são muito extensos e há demasiadas disciplinas, já não há consenso sobre onde e o que cortar.

E continua dizendo que seria perda de tempo ouvir as associações profissionais de professores. Ora bem, isto é a passagem de um atestado público de menoridade intelectual e facciosismo aos professores, esquecendo-se que TAMBÉM há consenso sobre onde e como cortar: desde logo nas ACND e nas excrescências curriculares – essas sim  – criadas para alimentar algumas clientelas particulares. Para além disso, ficamos a perceber que os especialistas não têm sexo disciplinar e que são muito neutros, isentos e tudo o mais, algo cujos efeitos estamos fartinhos de comnprovar na prática, a cada reforma ou reajustamento feito desta maneira.

Mas há ainda melhor:

    Se em outras alturas, como nas reformas de Roberto Carneiro ou de Marçal Grilo, houve a preocupação de ouvir os professores, desta vez ainda não se sabe como a tutela irá gerir este processo, que deverá entrar nas escolas já no próximo ano lectivo. João Formosinho pensa que “a sociedade não está mobilizada”. E diz que “a situação actual é muito diferente” da das reformas anteriores.

      Numa coisa concordo: a situação é diferente. Mas é diferente exactamente no sentido inverso. Nunca a sociedade esteve tão mobilizada e atenta às questões educacionais.

      Aliás, acho que o receio da tutela e dos especialistas é mesmo esse. Que os professores ou a sociedade façam saber de forma clara e directa o que pensam dos erros cometidos no passado e quais os responsáveis. Assimé mais fácil fazer tudo em circuito fechado e, perante eventual novo falhanço, acusar os executores das belas ideias por as não terem sabido entender e implementar devidamente. De forma isenta, claro.