Quarta-feira, 20 de Janeiro, 2010


Bonde do Rolê, Solta O Frango

Já postei, mas foi há mais de um ano…

Governem-se, diz ele.

Ando a ficar um bocado farto de assobiar para o lado e fingir que não sei disto ou daquilo, que não percebo que o outro ou esta dá duas no cravo e três na ferradura, que afinal a coerência quando nasce é só aos sábados e outras coisas assim.

Não é que esteja com vontade de desatar a atirar sobre tudo o que mexa, mas já faltou mais porque há coisinhas da treta que me irritam assim como que por debaixo da pele. Deve ser a tal doença do protagonismo.

Por isso mesmo pergunto-vos e respeitarei se não quiserem responder, que eu decida e me desenrasque sozinho.


Há notícias incompreensíveis. Não percebo a razão do destaque dado a coisas que são óbvias. É mais do que natural que nas escolas TEIP se mantenham problemas de insucesso e indisciplina após três anos de intervenção.

Esse é um período de tempo que não chega para resolver problemas estruturais.

Mas, verdade se diga, o projecto TEIP tem muito mais de 3 anos. Complicado é se ao fim de 5 ou 10 anos os resultados ainda escassearem, apesar do reforço de meios técnicos e humanos.

E seria ainda mais complicado se daqui a alguns anos se percebesse que a contratação directa de docentes não deu resultados. Mas por enquanto ainda é cedo para tais conclusões. Porque o sucesso não se constrói com facilidade e há que ter paciência.

Sou interessado na questão porque lecciono numa escola que deixou de ser TEIP há pouco tempo, apos uma década ou mais dessa experiência, exactamente por ter conseguido melhorar bastante os seus resultados, assim perdendo algumas das vantagens que esse estatuto permitia, desde logo ao nível da dimensão das turmas.

A divulgação pública destes dados é muito importante, em especial se for feita om critérios uniformizados. Sei do que falo porque precisei de usar os dados relativos a todo o século XX e sei o que penei para relacionar algumas das séries de dados.

São mais de 1000 páginas de dados que merecem análise detalhada, daquele tipo que torna algo irrelevantes ou laterais conclusões como estas, pois a distribuição geográfica do sucesso por grandes unidades territoriais (Norte, centro, Sul) é algo que passa ao lado do essencial, que talvez seja mais a questão da democratização do acesso à Educação.

Redundantes e pouco compreensíveis são ainda as declarações de Roberto Carneiro na apresentação dos três volumes desta obra, pois é estranho que um ex-ME que nos últimos anos se tem feito notar pelo apoio às políticas desenvolvidas pelo PS, surja a criticar a qualidade de reformas a que deu uma anuência mais ou menos activa em diversos momentos.

Perante tal, as declarações, em forma de resposta, da actual ME primam pela sensatez:

Falou da importância dos elementos quantitativos para as decisões das políticas. Se analisarmos os elementos quantitativos sem uma visão alargada do que é a realidade não os compreendemos.

Para quem se lembra o título é a evocação de um dos primeiros hinos dos Stranglers, banda que apanhei no declinar da adolescência.

No presente, serve para dizer que  um erro recorrente, mas desnecessário, em muita gente é o de procurar ídolos a que seguir, faróis que iluminem o caminho, sempre firmes nas convicções e certeiros nas opções.

Isso é coisa que não existe.

Claro que cada um de nós julga ter razão nos juízos que faz e atitudes que toma, caso contrário faria diferente. Não é muito comum ver alguém a fazer algo que ache ser o pior para si ou mesmo algo menos bom.

Por isso mesmo, acho deliciosa esta declaração em que ainda não tinha reparado, na barra lateral do blogue do Octávio:

Não vale a pena o Octávio chatear-se. Apenas percebi que ele fez o mesmo que eu. Dou-lhe os meus parabéns. Ao contrário dele, eu não adjectivo com muita facilidade, nem me auto-designo isto ou aquilo. Eu sei que ele também só declarou, em devido tempo, que não entregava a FAA. E foi o que fez. Só que eu é que de vez em quando ainda levo umas pedradas e remoques em cima da parte de quem acha que é culpa minha não ter sido avaliado(a).

Disclaimer: Pensei muito antes de escrever este post, para não ser acusado disto ou daquilo. Só que ando com a corda solta e com pouca vontade de conter o que me apetece.

Público, 20 de Janeiro de 2010

Discordo de parte deste artigo, em especial da parte em que afirma que os professores mais ousados foram abandonados na sequência do acordo ME/sindicatos Esta questão, para mim muito sensível por variadíssimas razões, merece um comentário adicional perfeitamente contrário à posição de Santana Castilho: sem o acordo é que esses professores não teriam qualquer hipótese de serem recuperados para o grosso do exército.

Porquê? Muito simples – e espero que percebam o que estou a escrever tal como o escrevo e não como algumas cabeças o queiram ler -: porque a não entrga de qualquer documento de autoavaliação carece de qualquer suporte jurídico para ser defendido (contraria, aliás, o ECD que estava em vigor antes de 2007 e que a generalidade desses colegas sempre cumpriu) e entra na esfera do debate político.

Sendo uma questão política, só algo como o acordo conseguido pode abrir vias negociais para resolver a situação dessas centenas ou milhares de colegas (não sei exactamente quantos, embora conheça vários).

Por isso mesmo é que pessoalmente acho que o acordo – com todas as imperfeições e defeitos – foi a solução mais adequada para conseguir aquela ideia minha do No Teacher Left Behind.

Que eu tenha de explicar isto desta forma, em detalhe, aqui, preto no branco, é algo que sempre achei desnecessário e até contraproducente. Mas, pelos dias que correm, tanto o agudizar de certos receios como o aproveitamernto demagógico desta questão exigem que algo se diga de forma menos críptica.

E não é só isso…

Ministra valoriza tempo para corrigir trabalho dos alunos

A ministra da Educação, Isabel Alçada, reconheceu hoje que os professores precisam de tempo para corrigir o trabalho dos alunos, considerando tratar-se de uma tarefa fundamental para a qualidade da aprendizagem.

Já agora não se limitem a fazer a contabilidade por número total de alunos porque eu, por exemplo, tenho poucas turmas (3 PCA) mas lecciono pelo menos duas disciplinas a cada uma, mais uma ou outra ACND e parecendo que não dá uma bela trabalheira até porque temos reuniões regulares para ponto da situação e a avaliação é feita quase numa base quinzenal.

Mário Nogueira convicto de que haverá alterações ao horário dos professores

O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira, manifestou hoje a convicção de que o Governo irá alterar o regime horário dos docentes, uma medida que está a ser debatida entre os sindicatos e o Ministério da Educação.

Em relação às declarações transcritas hoje na última página do DN eu apenas acrescentaria alguns detalhes para melhor compreensão de alguns aspectos apenas aflorados pela falta de espaço na peça e pela necessidade de especificar detalhes para os mais leigos (já agora, as aulas eram de 50 e não de 60 minutos antes, aquilo é uma gralha, por certo…):

  • Continua a existir nas escolas, por pressão das exigências da tutela e por prática defensiva dos professores, um culto enorme do papelinho e do relatoriozinho justificativo do mais pequeno acto dos professores que possa ser susceptível de contestação. Não há fora das escolas noção do número enorme de documentos que é necessário preencher e, apesar do actual recurso ao suporte informático, passar a papel e incluir neste ou naquele dossier para, em muitos casos, no final do ano lectivo ir parar ao lixo. Uma das actividades de final de ano é exactamente a limpeza de dossiers em que muita desta papelada, efectivamente irrelevante e meramente justificativa de actos que deveriam ser normais, é deitada fora.Verdade se diga que muitos de nós nos deixamos embalar por este tipo de mentalidade e acabamos por, quase de forma automática, produzir papel para defendermos tudo aquilo que sentimos passível de uma queixazinha.
  • Cresceu nas últimas décadas, por parte da tutela, uma desconfiança enorme em relação ao trabalho dos professores e um desejo enorme de controlar todo o mais pequeno acto que não constitua uma anuência automática à progressão dos alunos. Querendo construir a bem ou a mal sucesso, passou-se a exigir dos professores a justificação por escrito de todos os seus actos que não estejam de acordo com a doutrina superior. Qualquer classificação negativa dada pode ser motiuvo para uma fundamentação; qualquer proposta de apoio carece de impresso próprio de proposta, outrpo de acompanhamento e outro de ponto da situação; qualquer mau comportamento em sala de aula, para ser vagamente castigado, necessita de anotação. Este clima de desconfiança paira em especial desde o início da década de 90 e adensou-se muito durante o guterrismo benaventista e agora com o recente rodriguismo-valtismo. Há da parte do Ministério como que uma forma de penalização retorcida de todos aqueles a quem ainda resta energia para querer que o ensino tenha padrões mínimos de exigência e qualidade que, a nível central, não passam de mera retórica.
  • Todo este ambiente acaba por ter efeitos profundamente perversos no trabalho dos professores porque, mesmo que com naturais excepções individuais ou mesmo de grupo, promove atitudes defensivas e de resignação. Não é só a perda de tempo em tarefas sem relevo objectivo para a aprendizagem dos alunos, mas a desmotivação que incute em todos aqueles que têm menos capacidade de choque com o monstro burocrático e preferem render-se por omissão. O que pode significar a adesão à produção de sucesso estatístico para não terem problemas a nível interno (pressão interpares nos conselhos de turma, grupos disciplinares e/ou departamentos, para não falar em alguns órgãos de gestão) ou externo (ameaças de encarregados de educação de denúncia de classificações que consideram inadequadas, receio de inspecções, etc). E isso leva a surgirem pautas de final de período ou ano com situações que quem conhece o ofício percebe serem puras e simples fabricações de sucesso. As disciplinas corridas todas a nível 3, as evoluções ao longo do ano de 2-2-3, os alunos que passam de 7 e 8 negativas no 2º período para 2 e 3 no final do ano, as turmas em que mais de 50% de alunos em risco de repetirem o ano se transformam em 10% de Abril para Junho. Assim como, é claro, as práticas pedagógicas igualmente defensivas, em que os docentes acabam por, no tal ambiente de rotina e receio, se defenderem no que é seguro e pouco dado a polémica. E depois como é que professores obrigados a ser meros transmissores acríticos de políticas mal concebidas a nível central se sentem em condições para formar gerações de alunos com espírito crítico?

José de Guimarães, Sem título (s. d.)

David Bowie, Sound and Vision

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