VALE MAIS RECEBER ROBALOS OU ROUBÁ-LOS?

Perante o mistério do crime de corrupção (passiva…) de que está indiciado Armando Vara, avancei uma dúzia de anos no tempo, para “escutar” o mediático julgamento do (por essa altura) já Governador do Banco de Portugal.

Junto do meritíssimo Juiz, o responsável pela acusação, o Sr Procurador Armando Silveira; na bancada dos advogados, o ilustre defensor Silveira Godinho; os dois arguidos, de pé, diante do Sr Juiz.

Depois da intervenção inicial do meritíssimo, seguiu-se o interrogatório, sem qualquer interrupção, ( para não deixar arrefecer o almoço ), do Sr Procurador e do Defensor dos arguidos. No fim, depois das alegações, seguiu-se um delicioso travar de razões entre o digno Procurador e o Ilustre Defensor.

Assim:

PROCURADOR:

“ … Mas existem as escutas que…”

DEFENSOR:

“ Mas as escutas nada podem provar, sr Procurador. Mesmo que sejam válidas, o que aliás nunca se admitiu, pode ter sido combinado, e estar registado, que o arguido   receberia dez mil euros; mas combinar não significa entregar, Sr Procurador!

P.:

“ Mas, está gravado um acordo de entrega do dito dinheiro nas próprias instalações do BCP, portanto, a prova existe mesmo!”

P.:

Mas, sr Procurador, concordará que não pode ter a certeza de o que foi combinado ter sido, efectivamente, cumprido! Alguém viu o Sr Godinho entregar o dinheiro ao Sr. Vara? Alguém filmou o alegado momento do crime? Ninguém, sr procurador! Por conseguinte…não há prova! E não havendo prova, aplica-se, como muito bem sabe, o princípio “ In dubio pro reu”.

PROCURADOR ( virando-se para o Juiz):

Mas, meritíssimo Juiz, permita-me apelar ao justo e acostumado bom senso de V. Ex.ª, para, no cotejo das provas, não deixar de ter em devida conta uma prova que os arguidos não negarão, porquanto foi dito publicamente, por um deles, ( e há imagens que o comprovam) ter recebido ROBALOS do outro. Insisto: está gravado, Sr Juiz!

O DEFENSOR:

- Ó Sr Procurador, com a devida vénia!, e acha esse facto assim tão sério e grave que possa provar um crime?  É caso para lhe dizer digno procurador, a propósito dos ditos robalos, que “ Vale mais recebê-los do que ro(u)bá-los!…”.

Cunha Ribeiro