Já se percebeu que o núcleo duro do governo optou pela estratégia do confronto com a oposição, prolongando o conflito com os professores a propósito do modelo de avaliação do desempenho docente.

Depois da remoção integral da anterior equipa do ME, esta opção é uma tonteria completa, a menos que isto sirva uma estratégia global do PS para, desde o início do mandato, se apresentar como vítima da maioria parlamentar que existe em São Bento.

É óbvio que o modelo não funciona e não é prolongando o simplex transitório pelo 3º ano que se resolve alguma coisa. Aliás, este prolongamento do simplex apenas por um ano, significaria que o ciclo de avaliação ainda definido para dois anos poderia ser marcado por dois modelos diferentes, tornando um disparate ainda maior todo o processo.

O que temos neste momento?

Um prolongamento anual do simplex, sem que se saiba exactamente o que se passará no segundo ano deste ciclo de avaliação (sendo que um dos actuais secretários de estado se pronunciou pela necessidade de reformular o modelo e a extensão dos ciclos de avaliação ainda há quatro meses). Dificilmente se poderá defender esta situação em nome da estabilidade do funcionamento das escolas.

Pelo que só se entende este finca-pé do governo – deixando o líder da bancada do PS no Parlamento numa espécie de terra de ninguém – como um pretexto para se vitimizar desde já, apostando num agudizar deste conflito com intuitos  políticos tácticos.

No caso da Assembleia da República produzir uma lei sobre a ADD só faltaria pedirem ao ex-SE Pedreira que aparecesse a repetir o estribilho a lei é para cumprir, enquanto os juristas do ME procuravam truques legislativos para a não cumprir.

A situação pede sentido de Estado por parte de todos os envolvidos e é bom que o PS entenda de uma vez que a sua intransigência nesta questão já provocou danos suficientes na coesão que deveria existir entre a classe docente e a tutela, no normal funcionamento das escolas e agora até parece que na relação entre governo e oposição num cenário de maioria relativa. Mas parece que não é isso que pretende a entourage do primeiro.

Os professores não negam a necessidade de uma avaliação do seu desempenho. O que está em causa é a estrutura da carreira, com quotas para a progressão através de um processo de avaliação que não garante os melhores progridam efectivamente. Um modelo que prefere a representação do desempenho à sua efectiva qualidade. Que privilegia a quantidade à qualidade das aulas dadas.

Que na sua versão integral não é possível implementar e que na versão simplificada desrespeita o Estatuto de Carreira que alega regulamentar.

Não sou muito dado a definições e adjectivações muito coloridas, pelo que me resumo a dizer que este modelo não presta e durante dois anos isso já ficou demonstrado.

Que mentes iluminadas ainda não o queiram admitir é um monumento à cegueira ou à casmurrice.

Que a actual ministra da Educação – que já o era antes de ser convidada – ainda nada tenha dito sobre o assunto, apenas faz antever que a sua presença será meramente decorativa.

Que o secretário de Estado que teve como anterior função estudar e trabalhar este tema continue mudo e quedo, só faz supor que até o especialista da equipa não tem autonomia para definir uma posição e um rumo sobre este assunto.

Ou seja, isto começa mal.

Mas exige paciência e habilidade.

Exige persistência e capacidade de antecipação e desarmadilhamento do terreno.

Não pede, a curto prazo ou mesmo médio prazo, ameaças de greves e manifestações que só serviriam à estratégia vitimizadora do PS e do Governo. Porque seria motico para dizerem que ainda nem o processo negocial teve hipótese de arrancar e já querem pressionar a partir da rua.

Portanto, há que ter cabecinha e caçar com gato porque o cão está estafado.