Versão integral para a peça que hoje vem no I (acho que não disponível na edição online) com testemunhos meus e do Luís Braga:
Em que medida sente essa necessidade [reforço da autoridade] no seu dia-a-dia?
Essa necessidade sente-se na medida em que, perante situações de conflito (inter-pares, desrespeito das regras de funcionamento, recusa em participar nas actividades)na sala de aula, o professor não tem mais do que a sua autoridade pessoal para tentar solucionar os problemas. A progressiva desresponsabilização dos alunos pelos seus problemas disciplinares e de aprendizagem – que tem passado para a opinião pública e chega a ter validação legislativa – fez com que, na ausência de valores éticos transmitidos pelas famílias, muitos alunos se sintam pequenos reis na escola, sem que nada os possa atingir.
As frases mais comuns são “não me pode fazer nada”, “não é meu pai”, “não me pode tocar”.
Pessoalmente não tenho enfrentado problemas de maior, mas devo-o a muita sorte e algum engenho.Defende uma maior autoridade do professor para repor a disciplina numa sala de aula?
Sim. Principalmente defendo que as teorias desculpabilizadoras do comportamento dos alunos não atirem o ónus da culpa sempre para cima do professor. Só quem nunca deu aulas a turmas problemáticas de jovens, pré-adolescentes ou adolescentes, com 25-30 alunos é que pode considerar que é possível encontrar 150.000 líderes naturais, capazes de gerir todos os problemas numa sala de aula sem qualquer respaldo extra do que a sua presença.
Que limitações sente quando procura fazer isso?
Pessoalmente, tenho tido alguma sorte, mas conheço casos, em que muitos colegas são directamente desautorizados pelos alunos, exactamente com base na ausência de qualquer protecção da figura do professor.
Para além da sensibilização, formalmente os mecanismos dos professores para dissuadirem comportamentos disruptores – em especial quando os encarregados de educação apoiam qualquer acto dos seus educandos, sem os questionar – são mínimos.Gostaria igualmente de perceber até onde pode o professor ir em matéria disciplinar – o que pode e o que não pode fazer perante casos de indisciplina – e até que ponto são eficazes.
O professor na sala de aula só pode mandar o aluno sair e fazer uma participação de ocorrência que pode – ou não – dar origem a um procedimento disciplinar. Mais nada. Se marcar falta, o mais certo é considerar-se a punição atribuída. Nos últimos anos aumentou ainda mais a pressão para manter os alunos na sala, alegando que esse é um direito seu. Só que esse direito colide muitas vezes com o direito de outros alunos aprenderem e do professor exercer a função que o leva à sala de aula: ensinar. Tornou-se prática culpabilizar o professor pelas situações de indisciplina na sala de aula mas a verdade é que nenhum está livre de lhe acontecer algo perfeitamente inesperado, para o qual não recebeu qualquer formação inicial ou contínua, para além de alguns considerandos teóricos sobre gestão de conflitos.
Não defendo qualquer regresso a um autoritarismo ultrapassado ou a mecanismos repressivos, mas sim uma revalorização da imagem do professor, de uma ética do trabalho, autodisciplina e rigor na sala de aula e o combate às teses de que toda a aprendizagem pode e deve ser lúdica. Pode acontecer, mas também pode não o ser.A eficácia das medidas em vigor é escassa, caso contrário, não estaríamos a falar de forma recorrente nestes problemas.
Outubro 22, 2009 at 11:48 am
A autoridade não pode ser apenas pessoal, tem de estar institucionalizada e protegida por toda uma maneira de organizar a escola. E deve passar por pequenas coisas, pequenas regras, bem concretas e não apenas por considerados gerais e líricos de que nos devemos respeitar uns aos outros.
Outubro 22, 2009 at 12:01 pm
De acordo com o diagnóstico. O cerne são as soluções, que não podem passar, como é óbvio, pelo engenho pessoal ou pesa sorte.
E não é crítica directa ou indirecta a ninguém, pois não há varinha mágica que solucione os problemas. Mesmo o derradeiro recurso – pedir aos alunos que se ausentem da sala de aulas – cada vez mais encontra a resistência do aluno: «Não saio!». E depois? Charme? Umas bolachinhas?
Outubro 22, 2009 at 12:24 pm
A directora(d) e o aluno(a)
d: Importa-se de ajeitar as calças de maneira a que não fiquem as cuecas e o rabo à vista.
a: Que tem a senhora a ver com isso? Ponho as calças como me apetece.
d: Como? Pode repetir?
a: Que tem a senhora a ver com isso? Ponho as calças como me apetece.
Neste momento faltou um centímetro para que a mão da directora não se estatelasse na cara do miúdo. Dando-se conta da sua própria situação, a mão parou.
d: A sua sorte é que está numa escola pública. Se estivesse numa privada, neste momento estaria expulso.
Antes fosse uma história inventada. A directora até pertence a uma CAP, logo, de plena confiança do ministério. Experimenta agora um pequeno contacto com a realidade criada pelo monstro.
Fim desta pequena história.
As qualidades individuais do professor para conseguir gerir conflitos são uma parte da solução, não completam a solução. O professor está investido de funções e representa, enquanto tal, a face visível de uma instituição. Não há que iludir esta questão: de cada vez que um aluno olha o professor tem de ver a instituição em primeiro lugar, aquela instituição que é capaz de o preparar para o seu futuro. Pode até acontecer que queira mais do que isso, porém, tudo o mais apenas poderá acontecer fora da escola, não lá dentro.
Um regulamento disciplinar bem escrito, estipulando os castigos (sim, castigos, é a palavra certa) aplicáveis por cada tipo de comportamento perturbador da função da escola, assinado, em primeiro lugar, por cada aluno, no princípio do ano, podendo ou não ser assinado igualmente pelos pais do aluno, é o instrumento adequado.
Outubro 22, 2009 at 12:25 pm
(Faltou esta)
a: Também não faço questão que a senhora use as calças abaixo das mamas.
Outubro 22, 2009 at 12:41 pm
Excelente entrevista. Fala, sem dúvida, quem anda a lavrar a terra.
E não concordo completamente com o # 2.
Há uma varinha (que pode não ser mágica) para solucionar os problemas – responsabilizar os Pais ou Encarregados de Educação. Como lhes fazer sentir o valor dessa responsabilidade? Indo ao dinheiro que recebem através dos filhos, seja no abono de família, seja em qualquer outra prestação pecuniária.
Em casos extremos, para além dos aspectos financeiros, a responsabilização poderia passar pela obrigatoriedade dos Pais cumprirem serviço cívico, através de decisões de um tribunal social, em processos rápidos que não poderiam exceder os 30 dias.
Eu penso assim porque considero que os Alunos que, através de actos continuados e voluntários de indisciplina, impedem os colegas de aprender e os Professores de ensinar, estão a delapidar bens colectivos do Estado (os salários que são pagos, os equipamentos postos à disposição da Escola e que não se conseguem utilizar adequadamente) e, como tal, têm de ser devidamente sancionados. Porém, como os menores de 16 anos são inimputáveis, terão de ser os seus representantes a arcar com essa responsabilidade. Incluo nestes aspectos da indisciplina, para além da sala de aula, o “buling” e o vandalismo.
Outubro 22, 2009 at 12:47 pm
Toda a vida familiar (incluo pais, avós, tios,…) gira à volta das crianças. Estão habituados a satisfazer todas as suas vontades e desejos. Basta pedirem e nada lhes falta, mesmo à custa de privações dos pais.
Ninguém os ensinou a respeitarem a autoridade dos adultos porque estes abdicaram dela. Como é que podem reconhecer a do professor? Nem sabem o que isso é.
Lamentavelmente, os pais quase nunca colaboram com os professores quando há problemas. Responsabilizam-nos ou responsabilizam outros e desresponsabilizam sempre os filhos.
Não sei que geração estamos a “fabricar”, mas uma coisa é certa, são os pais da geração seguinte.
Eu tenho tido muita sorte com os meus alunos. Felizmente ainda temos famílias que educam bem as crianças, mas também existem na minha escola casos graves de comportamentos sociais inadequados. Tenho um imenso respeito pelos colegas que leccionam essas turmas.
Outubro 22, 2009 at 1:10 pm
Sou a favor de medidas concretas que visem o exercício da autoridade da escola e do professor, termine com a desresponsabilização de alunos e famílias e acabe de vez com esta “mania” de que todos são bons rapazes e raparigas na linha de Rousseau.
Há efectivamente alunos que andam na escola apenas porque são obrigados e estão-se nas tintas para as regras, não querem aprender e desafiam constantemente a autoridade de professores e funcionários e chateiam os colegas. Não há ambiente de estudo e aprendizagem em muitas salas devido a um ou dois impunes. Este panorama tem de ser radicalmente alterado. Criem-se os instrumentos adequados e deixem-se de filosofias baratas. Os alunos não podem ser mandados para fora dos portões da escola, mas uma vez lá dentro têm de respeitar as regras e os professores têm de ser devidamente apoiados.
Outubro 22, 2009 at 1:15 pm
#6-Só em parte estou de acordo contigo. Acontece que a minha escola existe uma parte significativa dos alunos têm pais que não lhes ligam peva.
Vão para a escola almoçar, não levam livros nem cadernos, embora sejam na maioria do escalão A. Alguns já pertencem a gangs…
A Escola tem boas instalações e é recente, mas a política da rede escolar…
Outubro 22, 2009 at 2:04 pm
#8
Pois, também temos esses…
Outubro 22, 2009 at 2:20 pm
pois…
Outubro 22, 2009 at 3:30 pm
O #1 e o #5 já disseram tudo.
A situação descrita em #3 foi suficientemente esclarecedora, principalmente para quem dúvidas tivesse…
Outubro 22, 2009 at 3:58 pm
Lembrei-me de uma solução, quiçá bastante eficaz: que tal, nas escolas mais problemáticas, contratar aqueles alunos do colégio militar (os tais “graduados”) que são tão valentões com os colegas de 10 e 11 anos? Assim, teriam hipótese de confirmar a sua valentia, agora com outros mais ao seu nível!
Outubro 22, 2009 at 4:18 pm
#12
Nos EUA já há Escolas Públicas dirigidas por militares…Lá chegaremos…
Outubro 22, 2009 at 4:20 pm
Os reis do eduquês agora têm a tropa a dirigir as escolas…
Outubro 22, 2009 at 4:22 pm
Isabel Alçada a nova ME.
Sinto uma batalha ganha.
Venha a vitória da guerra!
Outubro 22, 2009 at 4:35 pm
#15
zinha, onde é que leste isso? A ser verdade, cuidado com ela…verdadeira, pelo menos, não é. Ainda hoje afirmou não ter recebido convite para integrar o governo. Podia ter dito apenas que não podia responder…
Outubro 22, 2009 at 4:36 pm
No i.
Outubro 22, 2009 at 4:40 pm
#17
A batalha já estava ganha, com ela ou sem ela. Vamos ver se tem capacidade para pacificar os dois lados da barricada (professores e anti-professores) sem atacar ninguém.
E os acompanhantes, quem serão?
Outubro 22, 2009 at 4:43 pm
Dizem que tomam posse sábado…não sei.
Outubro 22, 2009 at 4:49 pm
Final feliz de um não-convite
«Isabel Alçada é a nova ministra da Educação
A escritora Isabel Alçada é a nova ministra da Educação e Alberto Costa abandonará a pasta da Justiça, tal como o i já tinha avançado em edições anteriores. A autora da série “Uma Aventura”, best-seller juvenil, substituirá Maria de Lurdes Rodrigues. Isabel Alçada foi professora do 2º ciclo antes de passar à Escola Superior de Educação. “Há 28 anos que a Isabel Alçada ouve os professores”, afirma na edição de hoe do i Ana Maria Magalhães, co-autora da série “Uma Aventura”.
Há 28 anos que ouve os professores. Preferia uma que dissesse “dou aulas há 28 anos”
E que professores ouvirá IA? Os do grupo dos 13?
Outubro 22, 2009 at 4:57 pm
A mulher não é surda e não sofre de estrabismo crónico?
Dizem os criticos que os livros que escreveu levaram crianças ao suicídio.
Outubro 22, 2009 at 5:53 pm
Paulo Guinote disse :
“(…) defendo que as teorias desculpabilizadoras do comportamento dos alunos não atirem o ónus da culpa sempre para cima do professor.”
“Não defendo qualquer regresso a um autoritarismo ultrapassado ou a mecanismos repressivos, mas sim uma revalorização da imagem do professor, de uma ética do trabalho, autodisciplina e rigor na sala de aula e o combate às teses de que toda a aprendizagem pode e deve ser lúdica.”
Ao ler estas passagens, com as quais concordo, sublinho, fiquei com uma sensação algo amarga. Isto parece mais um daqueles discursos políticos muito redondos que são pouco substantivos. Eu diria que 80% das pessoas com um mínimo de bom senso assinaria por baixo estas apreciações, embora as restantes 20% possam ser mais ruidosas.
Proponho-lhe que pense o seguinte: imagine que o(a) futuro(a) ministro(a) da educação lia a sua entrevista e pensava que era chegada a altura de intervir a sério nesta área. Chamava-o e convidava-o, tendo em conta a sua formação, notoriedade e experiência concreta como docente, a dirigir uma pequena equipa de trabalho que faria, num prazo de 60 dias, um documento com recomendações claras, concretas e susceptíveis de serem implementadas rapidamente tendo como finalidade combater a indisciplina nas escolas públicas. Vamos partir do pressuposto de que aceitava. Na sua opinião quais seriam as 7/8 medidas que proporia ao novo responsável da 5 de Outubro?
Outubro 22, 2009 at 6:19 pm
#20- Realmente…Eu também ouço Ópera…e não canto.
Estava a ouvir o JP Aguiar Branco. Realmente dizer que o Vieira da Silva teve um bom desempenho…é caso para lhe perguntar se bebeu alguma coisa.
Outubro 22, 2009 at 6:22 pm
Pipa é como dizes: Gosto mais dos 5 da Enid Blyton, ou mesmo dos 7…Pelo menos não tinham lobies na 5 de Outubro.
Ou então das «Meninas Exemplares» da Condessa de Sègur…
Outubro 22, 2009 at 6:24 pm
Lá vai:
Outubro 22, 2009 at 8:02 pm
“Perguntas/Respostas Sobre (In)Disciplina”
Indisciplina?
Hoje mesmo fiz “bu!” na sala de aula e toda a turma se assustou, havia de ter sido registado o momento de levitação.
Outubro 22, 2009 at 9:20 pm
#1
Certíssimo.
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Li a edição em papel. Não deixa de ser curioso que a notícia sobre as dificuldades em impor a disciplina surja ao lado da polémico do colégio militar.
Outubro 23, 2009 at 12:10 am
Este ano tenho umas turminhas de 7º que são um verdadeiro desatino. De 3 em 3 anos as coisas vão-se agravando. A pequenada está cada vez mais cansativa e irrequieta. Tenho sorte porque não são insolentes mas é cá um desgaste! Saio de lá com a língua de fora e a cabeça “azoinadinha”. A outra turma não quer fazer coisa nenhuma e uns espertalhões dizem: “Ó setoura isto é uma chatice, não vale a pena estar com powers ou outras coisas que a gente na sabe nada…
Que ricos meninos/as!
Outubro 23, 2009 at 1:16 am
Hehe, este (#22) queria comer a sopinha com colher de chá. A estupidez não me impressiona. Também não ser-se pago para o ser.
O que me faz ainda uma certa confusão também não é o “Princípio da Vida”, é haver coisas que, se tivessem que pensar para respirar, estariam mortas.
—
Disclaimer: não se pretende ofender qualquer morto, excepto o estaline e outros, os quais pertencem à religião dos 25′s queixinhas que por aqui pululam.