A declaração de ontem de Cavaco Silva foi bastante inábil. No fundo o PR ainda vive na ilusão de que esta classe política se rege por um qualquer código de valores reconhecível.

Não é isso que acontece. O que se está a passar entre nós é apenas a aplicação ao nosso território dos truques mais básicos usados pelo blairismo e que foram o pão nosso de cada dia na guerra política vivida nos states desde a campanha presidencial que levou Clinton ao poder.

Cavaco Silva é de outro tempo e ainda não se soube adaptar a estas novas práticas o que lhe poderá vir a merecer um lugar na nossa História, mas um lugar que não desejaria, a do primeiro Presidente não reeleito.

Hoje até o Provedor de Justiça surge a criticá-lo, o que é algo tão inédito como tudo o que se tem passado em torno das pseudo-escutas.

Neste momento, não fosse o PS comandado por alguém que mais do pragmático se sente possuído por uma qualquer aura providencial, já a questão governativa estava resolvida e, pelo caminho, a presidencial.

Se assumisse a sério a demonização que fez da Direita durante a campanha eleitoral, ressuscitando argumentos do PREC (curiosamente só o PCP se demarcou das comparações com o salazarismo e o Estado Novo, quiçá por tê-lo conhecido na carne muito mais do que estes neófitos) e o confronto com Belém, o PS só teria a ganhar congregando todas as forças da Esquerda numa coligação governamental maioritária que abriria  caminho a uma candidatura presidencial ganhadora de Manuel Alegre ou outra figura passível de merecer o apoio pacífico de Bloco e PCP.

Para além disso, nas questões em que a fractura com o PSD e o CDS é maior (TGV, regionalização, apoios sociais, casamentos de pessoas do mesmo sexo), a convergência com bloquistas e comunistas é evidente. Mesmo se a mim me arrepiam opções como a alta velocidade e o retalhar regionalista de um país periférico de pequena dimensão, deixando-o vulnerável a caciquismos com estatuto supra-municipal.

Só que este PS, que na campanha tanto ergueu a bandeira da Esquerda, está refém das suas ligações a alguns sectores do mundo dos negócios e o patrão da CIP já fez os seus avisos. E é isso que atrapalha e baralha tudo porque há quem tenha um olho em Sócrates e outro em Cavaco, estando nós sem saber quem eles acham ser o burro e quem acham ser o cigano.

Optando por governar à Esquerda, o PS teria quase garantido o afastamento de Cavaco Silva da Presidência. Só que haverá outros interesses a entravar isso. Quiçá ao próprio PS seja mais interessante manter Cavaco Silva na situação de vulnerabilidade a que se remeteu ao não perceber que não são precisas escutas electrónicas para tudo se saber fora de um palácio onde, pelo uso de 20 anos, até as paredes devem ter amizades no Largo do Rato.