Setembro 2009


Bruce Springsteen, Working On A Dream

Sempre.

É hoje e talvez seja o melhor desta série. Acho que até RAP, depois de ter substituído o bordão do Muito Bem pelo de Certo, é capaz de encaixar duas ou três perguntas fora do guião.

A declaração de ontem de Cavaco Silva foi bastante inábil. No fundo o PR ainda vive na ilusão de que esta classe política se rege por um qualquer código de valores reconhecível.

Não é isso que acontece. O que se está a passar entre nós é apenas a aplicação ao nosso território dos truques mais básicos usados pelo blairismo e que foram o pão nosso de cada dia na guerra política vivida nos states desde a campanha presidencial que levou Clinton ao poder.

Cavaco Silva é de outro tempo e ainda não se soube adaptar a estas novas práticas o que lhe poderá vir a merecer um lugar na nossa História, mas um lugar que não desejaria, a do primeiro Presidente não reeleito.

Hoje até o Provedor de Justiça surge a criticá-lo, o que é algo tão inédito como tudo o que se tem passado em torno das pseudo-escutas.

Neste momento, não fosse o PS comandado por alguém que mais do pragmático se sente possuído por uma qualquer aura providencial, já a questão governativa estava resolvida e, pelo caminho, a presidencial.

Se assumisse a sério a demonização que fez da Direita durante a campanha eleitoral, ressuscitando argumentos do PREC (curiosamente só o PCP se demarcou das comparações com o salazarismo e o Estado Novo, quiçá por tê-lo conhecido na carne muito mais do que estes neófitos) e o confronto com Belém, o PS só teria a ganhar congregando todas as forças da Esquerda numa coligação governamental maioritária que abriria  caminho a uma candidatura presidencial ganhadora de Manuel Alegre ou outra figura passível de merecer o apoio pacífico de Bloco e PCP.

Para além disso, nas questões em que a fractura com o PSD e o CDS é maior (TGV, regionalização, apoios sociais, casamentos de pessoas do mesmo sexo), a convergência com bloquistas e comunistas é evidente. Mesmo se a mim me arrepiam opções como a alta velocidade e o retalhar regionalista de um país periférico de pequena dimensão, deixando-o vulnerável a caciquismos com estatuto supra-municipal.

Só que este PS, que na campanha tanto ergueu a bandeira da Esquerda, está refém das suas ligações a alguns sectores do mundo dos negócios e o patrão da CIP já fez os seus avisos. E é isso que atrapalha e baralha tudo porque há quem tenha um olho em Sócrates e outro em Cavaco, estando nós sem saber quem eles acham ser o burro e quem acham ser o cigano.

Optando por governar à Esquerda, o PS teria quase garantido o afastamento de Cavaco Silva da Presidência. Só que haverá outros interesses a entravar isso. Quiçá ao próprio PS seja mais interessante manter Cavaco Silva na situação de vulnerabilidade a que se remeteu ao não perceber que não são precisas escutas electrónicas para tudo se saber fora de um palácio onde, pelo uso de 20 anos, até as paredes devem ter amizades no Largo do Rato.

Com a designação de Decreto-Lei n.º 270/2009 de 30 de Setembro, acaba de sair hoje em Diário da República, a nova revisão do Estatuto da Carreira Docente, aprovado em Conselho de Ministros de 5 de Agosto de 2008 e promulgado por Cavaco Silva em 19 de >Stembro deste mês.

Não é por acaso que Sócrates dizia há minutos em Alcabideche que está empenhado em manter a cooperação institucional com Belém.

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(c) Antero Valério.

Os números da ascensão e ocaso de Sócrates.

A análise (pessimista) de Santana Castilho hoje no Público tem a sua dose de lógica mas esquece o fundamental: a política, em especial entre nós, nunca foi dada a lógicas.

A urgência de resolução dos milhentos problemas que tornam a vida nas escolas num inferno, e que estão longe de ser os mais importantes de um sistema de ensino sério, dependeria muito mais dos novos inquilinos da 5 de Outubro que de compromissos e programas. Mas com este resultado, a visão estalinista que orientou a Educação nacional não vai mudar. Vai apenas adoçar-se com protagonistas presumivelmente mais delicados, que continuarão a senda de transformação de cada professor num simples funcionário que ensine pouco, preencha cada vez mais papéis, relatórios e fichas, registos de toda a espécie, grelhas, actas e matrizes programadoras de todos os comportamentos, projectos e planos educativos, individuais ou de grupo. Com este resultado, os professores portugueses também não escapam à dicotomia dos resultados: ganharam, tendo perdido.

E agora?

Vamos entrar em jogos complexos que se arrastarão no tempo. Ao desanuviamento antecipável não vão corresponder soluções céleres. O PS perdeu a maioria absoluta mas os professores não se livraram de Sócrates que, agora delicadamente, continuará a querer vergá-los.

Porque a maioria absoluta se foi, a divisão da carreira não desaparecerá facilmente, muito menos a razão de cariz económico (entretanto reforçada com um défice maior que o de 2005) que determinou as quotas. Porque o PS ganhou, Sócrates vai persistir nesta gestão das escolas e nesta avaliação do desempenho, que classificou de instrumentos centrais das suas políticas. Porque Sócrates perdeu a maioria absoluta, Sócrates não pode perder outras coisas. Não pode perder, por exemplo, o sucesso estatístico que fabricou. Não pode, por isso, abrir mão de tudo o que promova resultados sem saber. Não abrirá mão do estatuto do aluno e da indigência que promove, na qual se inscreve a farsa do ensino profissional. A precariedade imposta ao exercício da profissão docente e a sistemática retirada de direitos aos professores não foram meros instrumentos conjunturais. Foram, outrossim, pilares de uma política que será excluída, liminarmente, do pacote de cedências para consumo parlamentar, que o PS estará já a preparar.

Sócrates vai ter que negociar muito sobre muitas coisas. A Oposição não lhe pode impor tudo. E no jogo das trocas, a Educação será sempre um elo fraco. Excepto para ele que deu, pessoalmente, demasiado a cara pelas desastrosas reformas feitas.

Posso estar errado, mas espero que isto não seja a preparação para uma desculpabilização do PSD, no caso de não assumir os seus compromissos nesta matéria.

Não é aceitável que o que se afirmava ir-se fazer caso se fosse Governo, se deixe de tentar fazer enquanto Oposição.

Ou talvez seja.

Se a política entre nós não obedece à lógica, também não obedece à honorabilidade. Mesmo em nome da Verdade.

Eu sei que os compromissos em política são meros circunstancialismos e dificilmente alguém desconfiará mais da vontade dos políticos para cumprirem promessas pré-eleitorais,l mas por aqui passa um aroma de pré-desculpabilização.

Como se alguém se sentisse aliviado por poder lançar o ónus da culpa para os outros, livrando-se das suas responsabilidades.

A este respeito será interessante analisar as posições dos opinadores mais próximos do PSD e se também enveredam por esta pré-disposição para desculpar

Lama

The ground beneath our feet…

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