Já escrevi várias vezes que o alargamento do horário das creches para um quase non-stop é típico de um terceiro-mundismo e não de desenvolvimento social. Muito mais importante seria alargar os direitos laborais das mães e pais para que pudessem estar mais tempo com os seus filhos. Uma coisa é ter um ensino universal e gratuito desde os três anos com horários humanos para crianças e adultos, outra optar pela mera extensão do funcionamento destes espaços para servir de almofada ao desregulamento dos horários de trabalho.

É que são opções completamente opostas em termos de modelo de (sub)desenvolvimento. A que tem sido seguida pelo actual Governo, com o beneplácito da Confap, não serve os interesses de famílias estruturadas e equilibradas, funcionando apenas como panaceia para as situações de duplo emprego ou empregos precários e com horários infra-humanos. A outra opção, para além de criar emprego, é a que defende a permanência das crianças com a sua família o máximo de tempo possível nos tempos modernos.

Ensino universal e grátis a partir dos três anos faria mais pelo país do que TGV, diz demógrafo

As medidas de apoio do governo à natalidade são positivas, mas insuficientes, defende um demógrafo, salientando que o ensino universal e gratuito a partir dos três anos faria mais pelo futuro do país do que o TGV ou um aeroporto.

Para o demógrafo Mário Leston Bandeira, os incentivos materiais, os subsídios ou o aumento das licenças parentais adoptados por este governo “são medidas positivas num país onde os bebés que nascem são insuficientes para repor naturalmente as gerações”, mas agora falta outro tipo de medidas “que favoreçam a conciliação entre a vida familiar e o trabalho profissional, tanto para homens como para mulheres”.

O demógrafo, que já presidiu à Associação Portuguesa de Demografia, defende que antes de alargar, como anunciado, a escolaridade obrigatória para o 12.º ano, o governo deveria “baixar a idade para os três anos, porque as mulheres portuguesas são das mais activas da Europa e é necessário criar condições para que elas possam trabalhar e ao mesmo tempo serem mães”, num país onde “são elas quem acaba por ter mais obrigações em relação aos filhos”.

“Muito mais importante do que o TGV e o Aeroporto é investir em creches em todo o país, porque não existem os equipamentos necessários para que toda a gente possa pôr os filhos em infantários e, por outro lado, continua a haver muita discriminação no emprego contra as mulheres que tenham filhos ou declarem estar a pensar ter filhos”, salientou.

Por isso, Leston Bandeira defendeu medidas que garantam efectivamente emprego para as mulheres que estão grávidas ou que têm filhos pequenos e ainda uma “presença efectiva do Estado a sancionar todos aqueles que discriminam no emprego estas mulheres”.