A TRAIÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS
Há dois anos, por esta altura, foi publicado um pequeno artigo crítico meu com este título na secção “Cartas ao Director” no jornal Público, onde me referia aos exames nacionais do Ensino Secundário. Agora faço uma reflexão idêntica aqui.
Até há um ano atrás, tanto as disciplinas bianuais como as trianuais eram sujeitas a exame nacional com a totalidade dos seus conteúdos programáticos. Desde o ano passado, as trianuais são sujeitas apenas aos conteúdos do 12º ano, o que representa um alívio muito significativo para os alunos; mas os exames das bianuais, sejam terminais no 11º ou no 12º, mantêm a carga completa.
Antes da reforma curricular que originou a situação presente, as disciplinas do ensino secundário eram sujeitas a exame apenas no 12º e com matéria desse ano. Além disso, o Ministério da Educação estabelecia até alguns conteúdos como prioritários, e eram sobretudo esses que apareciam em exame.
Vejamos o que se passa actualmente, tomando como exemplo disciplinas bianuais que lecciono. Os três anos das disciplinas de Geometria Descritiva e de História da Cultura e das Artes (antes designadas por Desenho e Geometria Descritiva e por História da Arte) foram condensados em dois. Quando trianuais, estas disciplinas funcionavam com duas aulas por semana; agora bianuais funcionam com três. Não esquecer ainda que anteriormente cada aula era de 50m+50m e que agora é de 90m.
Além disso, disciplinas como Geometria Descritiva precisam de tempo para treinar e assimilar; um programa muito extenso e com três aulas por semana não o permite. O programa de História e Cultura das Artes é agora excessivo para a maturidade de alunos com 15-16 anos; além de Arte e História em geral, aborda religião, filosofia, economia, política, estratégia militar, etc. Assim, cedo chegam as dificuldades, as aulas de apoio, as explicações, o desinteresse e até o abandono.
Os resultados obtidos nestas disciplinas, e noutras em condições análogas, tanto em frequência como em exame nacional estão muito aquém dos que se obtinham anteriormente. Cumprir, ensinando e assimilando os conteúdos programáticos ao longo de três anos, a duas aulas por semana, não é o mesmo que o fazer em dois anos e com três aulas por semana.
Mais velhos, mais maduros e mais treinados, os alunos do Ensino Superior são sujeitos a exames semestrais. Os do Ensino Secundário são sujeitos a exames que comportam matéria de quatro semestres; até há pouco tempo também de seis, no caso das disciplinas trianuais. Que sentido faz tudo isto?
São feitos estudos sobre muita coisa, mas ainda um (pelo menos que se tenha tornado público) que se debruçasse sobre este problema, que é actualmente talvez a principal causa de insucesso nos exames nacionais do Ensino Secundário. Seria interessante fazer-se um estudo comparativo entre os resultados obtidos nos últimos anos e os que se obtinham antes da actual reforma. Mas teria de ser um estudo sério, que pusesse de parte, claro está, facilitismos que entretanto se implantaram a Português e a Matemática com o objectivo de forjar o sucesso, ao gosto da actual equipa do Ministério da Educação.
Julgo que se solucionava o problema e se motivariam os alunos se fossem adoptados dois dos seguintes procedimentos: voltar a fazer funcionar estas disciplinas, e outras que apresentem as mesmas dificuldades, em três anos; fazer incidir o exame apenas sobre os conteúdos do ano terminal; diminuir o grau de dificuldade dos programas; reduzir os conteúdos programáticos; definir conteúdos prioritários.
António Galrinho
Julho 22, 2009 at 5:04 pm
As disciplinas trianuais(ou trienais?)tiveram prometido (leia-se anunciado)o exame sobre conteúdos dos três anos a partir de 2006/07. Todavia, nunca houve coragem para concretizar essa promessa (anúncio). Com efeito, as disciplinas trianuais (ou trienais?) nunca tiveram exame sobre conteúdos dos três anos, mas sim apenas sobre conteúdos do 12.º ano, o último do curso.
Julho 22, 2009 at 5:06 pm
Ainda sobre os exames das disciplinas trienais, leia-se, neste blogue http://educar.wordpress.com/2007/10/31/os-exames-do-12%C2%BA-ano-%E2%80%93-uma-nova-versao-do-conto-pedro-e-o-lobo/
Julho 22, 2009 at 5:27 pm
Ups… Distracção!
Tem toda a razão, A Antão.
Onde se lê trianuais leia-se trienais;
Onde se lê bianuais leia-se bienais.
Já não vou ter 20 no exame, nem Excelente na avaliação.
Julho 22, 2009 at 5:53 pm
Isso do trianual ou trienal são confusões que ocorrem. Pior, considero eu, é considerar que os exames da disciplinas trienais (seja assim) chegaram a ser sobre os conteúdos dos três anos. Nunca chegaram a ser. Convém rever e confirmar esta informação. Volto a recomendar aquele meu texto que o Paulo teve a simpatia de publicar, como seu apanágio(!).
Julho 22, 2009 at 6:01 pm
Na disciplina de História, um exame que abarcasse 3 anos de matéria seria tremendo.
Só o programa do 12º Ano já é gigantesco: todo o século XX até aos nossos dias.
Se forem ao Manual do 12º Ano já lá aparecem os discursos do Obama.
Julho 22, 2009 at 6:26 pm
O que acontece na Disciplina de História e Cultura das Artes passa um pouco ao lado das grandes noticias pois são poucos alunos. O exame da 2ª fase foi para os alunos um tiro no escuro.
-Em que país viveu Rembrandt; em que século viveu; quem influênciou a sua pintura… Só que conhece o programa e o lecciona é que sabe que Rembrandt não é um tema de estudo, é um entre centenas de autores/artistas que os alunos enquadram em correntes artísticas. Não encontro nada no Programa que refira esse autor, enquanto isso, os alunos teriam que dominar 10 biografias obrigatórias que não foram contempladas no exame.
Julho 22, 2009 at 6:30 pm
Todos os artistas que nasceram num século e morreram no outros( caso de Leonardo da Vinci e Miguel Angelo…) nunca serão alvo destas perguntas!
Julho 22, 2009 at 7:23 pm
Há um erro monumental no texto, quando o seu autor considera que os exames às disciplinas de Português e Matemática dizem respeito a um só ano – o 12.º.
Falo, concretamente, pela primeira das disciplinas. Se quisermos, naquele exame, a nível a escrita e da gramática, estão conteúdos que remontam ao 1.º cilo. Os únicos conteúdos respeitantes ao 12.º são, efectivamente, os concernentes aos autores estudados.
Por outro lado, se estivessem contemplados todos os aspectos abordados ao longo dos 3 anos do ensino secundário, os alunos teriam de dominar competências respeitantes a mais de cinco dezenas de tipologias textuais, desde a declaração ao MEMORIAL. Ridículo, não?
Julho 22, 2009 at 9:50 pm
Nas Bienais sai a matéria dos 2 anos. É imenso.
Tem razão o António Galrinho.
Julho 22, 2009 at 9:56 pm
Penso que Sísifio, se refere ao meu texto, quando fala em “erro monumental”, pois sou eu quem, contrariando o António Galrinho, defendo que os exames do 12.º ano nunca incidiram sobre conteúdos dos três anos do curso, como chegou a estar previsto e regulamentado.
Que sim, Sísifio! Plena e absoluta razão! Não só em Port e Mat estão conteúdos que remontam ao 1.º ciclo. Também em História, em Desenho … e em todasas disciplinas. Não se pode responder em nehuma prova de exame sem se saber ler e escrever. E isso começa a aprender-se no 1.º ciclo. Vou mais longe, vou ao primeiro dia de vida que é quando se começa a aprender a falar. E vou mais longe ainda. As provas de avaliação que se fazem no ensino superior também abordam a counicação que se começa a aprender no primeiro dia de vida.
E acho que para bom entendedor já basta.
Julho 22, 2009 at 10:06 pm
Tem razão o António Galrinho sobre o que diz acerca das disciplinas bienais.Não só tem razão como é muito pertinente esta sua intervenção. Só comete o erro de dizer que os exames sobre as trienais também abordam os conteúdos dos três anos. Repito que chegou a pretender-se que aboradassem, mas nunca houve coragem para pôr essa pretensão em prática. Adivinhava-se a desgraça.
Agora, e é isso que Galrinho queria dizer certamente, é que não se compreende este absurdo de as provas de disciplinas bienais serem sobre conteúdos de dois anos e as das trienais serem sobre conteúdos de um ano. Porque não de dois pelo menos e também?. Ou por que razão não são todas sober o último ano? E, em 2007, que umas bienais (Hist B,por ex) foram sobre um ano e outras (Física-Química A, por ex) foram sobre dois?
Julho 23, 2009 at 12:25 am
Está custoso decidirem se é matéria de um, dois ou três anos. Será que tanto iluminado a falar e escrever sobre Educação não “atina” com este problema? Nos últimos anos já passámos por x+y+z reformas e não chegam a nenhuma conclusão. Porque não consultam, ouvem… quem está nas Escolas? Alguns também chegam ao poder e esquecem rapidamente o Mundo real. Ora decidem que são 2 tempos para, ora são 3 tempos lectivos, ora é opção, ora é … cum raio.Que desgaste!
Julho 23, 2009 at 12:57 am
O que está aqui em causa são os Conteúdos Programáticos específicos de cada disciplina e não os conhecimentos que se espera que os alunos do Secundário devam possuir “naturalmente”: ler, escrever, contar, deduzir, resumir, etc.
Obviamente!!!!!
Alguém que responda tudo errado num exame de Português, por exemplo, terá 0 valores, mesmo que tenha bem construídas as suas frases e bem escritas as palavras. Isso prova que saber ler e escrever, por si só (os tais conhecimentos adquiridos desde o 1º ano do 1º Ciclo…), não lhe valeram de nada no exame. Pela simples razão que não estão, nem têm que estar, a ser postos à prova.
Concretamente, os alunos de História da Cultura e das Artes vão ter que provar os seus conhecimentos dum programa que se apresenta em mais de 900 páginas, se tivermos em conta o manual mais adoptado. Esse programa refere-se à Arte e Cultura de quase três milénios. O programa é muito abrangente e interessante, mas bastante exigente para alunos adolescentes que se estão a iniciar no contacto com a Arte e a Cultura.
O programa fala de (vou escrever de cor): pintura, escultura, arquitectura, urbanismo, cerâmica, tapeçaria, design (designs), fotografia, banda desenhada, cinema, vídeo, infografia, artesanato, mobiliário, vitral, mosaico, azulejaria, iluminura, ilustração, decoração, joalharia, vestuário, música, filosofia, mitologia, economia, política, estratégia militar, guerras, geografia, ciência, descobrimentos, inventos, descobertas, indústria, comércio, engenharia, tecnologia, literatura, religião (religiões), etc., etc.
As classificações de frequência são obtidas essencialmente através da aplicação de meia dúzia de testes e algumas fichas, em cada ano. Ou seja, ao longo de dois anos, o aluno foi sujeito a cerca de duas dezenas de elementos de avaliação escritos. A matéria foi repartida pelos momentos de avaliação.
Ora, quando a mesma matéria aparece condensada num único momento de avaliação, é natural que as cabeças estoirem. Não é de admirar que alunos com 17 de frequência obtenham 10 no exame.
O que quero, muito resumidamente, deixar claro é que há exames que, pelo seu grau de exigência e pelo descabimento das questões que muitas vezes se afastam do essencial, se tornam DESUMANOS. Têm, por isso, de ser repensados.